Thursday, March 01, 2012

Saarlouis e a adega de 800 garrafas

Düsseldorf (ah, os clientes...)

Crônica originalmente escrita por este que vos bloga em Saarbrücken no dia 23 de Fevereiro deste ano.

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Saarbrücken (mais dois amigos pra colecao)

Depois de um certo tempo morando na Alemanha comecamos a conhecer melhor os hábitos e diferencas culturais dos germânicos. Sao frios e distantes no início. Empurram a mao que apertam na  direcao contrária após os primeiros encontroos. Nunca falam da Vida privada em ambiente de trabalho, mas sao fofoqueiros profissionais em particular. Colegas de trabalho se tratam por Sie, versao formal igual a Senhor seguida do nome de família, por anos a fio. Nao importa o nível de intimidade. Até que um belo dia, 20 anos depois, um olha pra cara do outro e pergunta: "Posso te chamar de Walter?! Claro. Mas só se eu te chamar agora de Stefan!" Sem sacanagem, presenciei essa cena e rachei de rir na frente dos dois.

Saí hoje com um cliente e sua esposa. Ela deveria ter vindo, mas me enganbelou bonito. Disse que tinha um evento em Hamburg, nao ocorrido, e me deu um bolo. OK, kein Problem! Fomos ao restaurante preferido de Herr B. em Saarlouis, cidade franco-prussiana na regiao de Saarland. Bem próximo a Luxemburgo e colado na fronteira francesa. Por fora a casinha nao tinha nada demais, mas por dentro uma ótima comida, vinhos de respeito e um atendimento de primeira. Assim me relatou Herr B., observado por sua senhora, Frau H., que balancava a cabeca afirmativamente a cada três frases do marido.

Se conheceram no coral da igreja. Achei que tivesse sido no pré-primário ou maternal. Sao desses casais que já nasceram juntos. Parecem inseparáveis, unha e carne. Se conhecem como a palma da mao e um olhar basta pra dizer dois parágrafos. Nasceram aqui perto mesmo em cidadezinhas satélite. Dois filhos já crescidos e devidamente despachados do doce lar. “O silêncio em casa às vezes fica alto demais”, me conta Herr B

Por isso, saem quase toda quinta-feira pra jantar. Ou ir a alguma ópera, teatro, ballet ou mesmo cinema. O interesse de ambos pelas Artes surgiu exatamente nos tempos do coral. Scala de Milao, festival Richard Wagner em Bayreuth, Wiener Staatsoper em Viena e tantas outras salas de espetáculo famosas já acomodaram em suas confortáveis poltronas de veludo o casal B e H (leia-se Bê e Rá) e suas rechonchudas buzanfas. E agora, segundo discurso empolgado e ansioso de Herr B., os assentos do Teatro la Fenice em Veneza terao o prazer de ser esmagados recebendo-os. Compraram os ingressos ontem e hoje já chegaram pelo correio. Ficaram espantados com a honestidade e rapidez dos italianos, apesar da crise do Euro, desemprego, Máfia, lixo atômico, etc..

Descambamos a falar de vinhos após Herr B. fazer questao de pedir um branco já conhecido seu. Deixei-o a vontade, claro. Anste mesmo de olhar a carta já havia ordenado um campari com suco de limao para si e o mesmo suco, sem o campari, pra Frau H. Ela iria dirigir, me disse ele gargalhante e bonachao. Aceitei o Cremant sugerido pela garconente, vulgo Kellnerin em alemao. Um vinho do Val del Loire aterrisou em nossa mesa e logo em seguida no copo de Herr B.. Provou-o, como se precisasse, e aprovou. Realmente, uma delícia.

Ao pedir minha entrada, um foie gras, recomendou-me um vinho de sobremesa. “Um Eiswein?!” perguntei-lhe?! “Você conhece?!”. Respondi que sim invocando a degustacao no Markus Molitor. Nao entrei em detalhes caxemirescos, mas ele aprovou e disse conhecer também.

Falamos mais de Vienna, dos cafés, óperas e música clássica. E de Berlin e da vez em que fiz uma surpresa para minha mae e tia levando-as a um concerto na Berliner Philarmonie, uma das casas mais famosas do gênero. E do Japao, China e Hong Kong, visitados pelo casal saarlouisiano, mas nao por mim. Ainda. New York, Luxemburgo e suas bebidas e combustível baratos. Das várias regioes vinícolas ao nosso redor. Do vale do Ahr, pertinho de Düsseldorf, onde encontra-se um excelente tinto.

Aí contei do meu amigo Weinfreak, ou maluco por vinhos em bom português. Nao citarei seu nome em vao por que estamos em negociacoes. Ele pode ser o mais novo colunista do Truta... a ver. Discorrerá sobre assuntos variados como fabricacao de fósforos, rock antes de Elvis, vinhos chilenos envelhecidos e em como dar papinha sem o neném chorar. Mas isso é assunto para vários outros carnavais.

Falando nisso, me lembrem de escrever a estória do melhor Carnaval da minha Vida. Em 2003. Comecou em Tiradentes num sábado a tarde chuvoso e terminou em Cabo Frio com a macacada reunida, nao sem antes passar pela Sapucaí e desfilar pela Beija-Flor.

E me lembrem também da Cracóvia, Novembro de 2004. Era pra dormir no hotel, mas me virei de outro jeito. Tem até video comprovando o fato. Ou loucura inconsequente mesmo.

“Deve ter umas 200 garrafas”, contei todo garboso sobre a adega do meu amigo, como se fosse minha. Um sorriso estampou-se imediatamente no rosto de Herr B. Parecia o gato da Alice no País das Maravilhas  colorido na minha frente. Só nao voava. “Tenho também minha própria adega, mas com 800 garrafas”. Ganhei o cara, pensei. Contou-me suas preferências pelos italianos do Vêneto e Piemonte. Barolos e Barbarescos. Seu amor pelos franceses de Bordeaux e Val del Loire. E sua idolatria pelos vinhos da Toscana, em especial o Sassicaia.

De trabalho mesmo falamos muito pouco. Reclamou da nossa última proposta. Os precos estao caros. Novidade. Vender barato qualquer um vende. Contou-me que a producao vai aumentar com a entrada de novos pedidos. E que o embargo americano ao Iran está fudendo meio Mundo, eles em particular.

Meu Entrecôte tava uma maravilha acompanhado de legumes no vapor e “hausgemacht” fritas. Herr B. me contou ser esse um dos motivos do restaurante figurar entre seus preferidos. “Já nao se encontra mais batatas fritas caseiras. Todo mundo manda comprar industrializado”, disse entre uma garfada e outra de satisfacao.

Pulamos a sobremesa e o espresso veio com leite quente separado com uma espuma perfeita em cima. E um bolo mármore, que tem o mesmo nome aqui na Alemanha. Me lembrei de Janemamae e Titas fazendo seus bolos idênticos no nome, mas maravilhosos. Paguei enquanto bebiam o segundo espresso, esse por conta da casa.

Agradeceram, falaram que da próxima vez minha mulher tem que vir, e que vamos combinar uma próxima vez em breve. Aliás, disseram isso sobre Ela umas três vezes.

Antes de sair, ganhei duas dicas de lugares interessantes aqui perto para visitar. “Come-se bem e tem ótimos vinhos. Além de serem cidades pitorescas e românticas”. Só nao falo os nomes por que quero conferir eu mesmo. Mas prometo escrever os diários de viagem. Ficam no médio Reno. Mais nao digo.

Ganhei mais dois amigos!

Thursday, February 23, 2012

Radio Truta

Saarbrücken (Brossette é meu amigo)

Que Tempo bom, que nao volta nunca mais...

Thursday, February 09, 2012

Riesling da Caxemira

Düsseldorf (mantenha a mente aberta)

A Europa tem dessas coisas. Voltando de reunioes ocorridas em Saarland, sudoeste da Alemanha, passamos pelo Mosel. E lembramos de um excelente produtor local de Riesling, Markus Molitor. Olhamos no GPS e estaríamos lá cinco pras cinco da tarde. Ligamos pra saber até quando ficaria aberto: 17h na pinta. "A senhora pode ficar mais uns dez minutinhos aberta pra gente comprar algumas garrafas?!". Diante da resposta positiva, desviamos o rumo com um sorriso maroto no canto da boca.

Ao chegar a Frau nos pergunta se queremos provar os vinhos. Um olha pra cara do outro, um sou eu e o outro o Luis, meu chefe, e balancamos a cabeca afirmativamente. Como a sede principal da vinícula Molitor está em reformas, atendem agora provisoriamente numa outra casa. Que vem a ser a casa da sogra da citada Frau, uma funcionária da empresa e nao membro da família Molitor. Nao importa.

Sentamos na mesa da sala de jantar, no segundo andar da casa, com vista para o Mosel. Dois copos pra cada e a Frau some pra buscar as garrafas. Entra um sujeito, parecendo indiano, e se junta a nós. Disse nao ter provado todos os vinhos da casa ainda e usaria a oportunidade para tal. Acabara de comecar na casa, no início de Fevereiro. Viveu 20 anos na Franca, especialista em pinot noir da Borgonha. Quis mudar de ares, procurar "novos desafios" na carreira. E ali parou.

Frau chega e nos mostra as cinco primeiras garrafas. O primeiro justamente um pinot noir alemao, legítimo e sem sotaque. Pra surpresa do Luis, que só esperava Rieslings, o vinho desce como um veludo. Ariff Jamal, que era realmente indiano, também sorri após o primeiro gole. Mas nos conta que é uma uva complexa, precisa de tempo no copo pra respirar. Nos aconselha a deixá-lo de lado por um tempo. E que o melhor gole é sempre o último.

As garrafas de nr. 6 a 10 nos sao apresentadas. Cada uma com sua particularidade, ano de producao, vinhedo, tempo de colheita da uva e característica diferentes. Termino um 2010 Graacher Domprobst, apenas pra citar o nome do vinho fingindo que sou entendido - na verdade, acabo de olhar na lista de precos - e leio a descricao de sabores e aromas de um outro vinho da casa. Comento com a Frau que das duas uma: ou ainda nao desenvolvi sensibilidade suficiente pra perceber os odores e sabores descritos ou tudo aquilo é pura cascata de marqueteiro. Ela reconhece ser mesmo um exagero. O texto fala de aromas de nectarina, damasco, pêra e pêssego branco da regiao. Pra mim só existia o amarelinho.

Jamal diz que leva tempo pra perceber tudo isso, mas também acha um exagero. Diz que cada um sente e percebe cheiros e sabores de formas diferentes. Um vinho fabuloso pra uma pessoa pode nao ser tao apreciado por outra.

Mas acho meio viagem. Por exemplo, a opiniao do distinto enólogo após provar um champagne Pierre Gimonnet:


Ao mesmo tempo muito rico e delicadamente cítrico, desenvolve um fundo sutil de notas florais e minerais, eis um Champagne magnífico. Na boca é amplo, cremoso e aerado, este vinho de exceção deixa ao degustador uma grande lembrança enófila.

Muito vago e subjetivo. "Delicadamente cítrico", mais para limao, laranja, lima ou abacaxi?! "notas florais e mineirais", quais deles?! Margarida, orquídea, dama-da-noite, lírio ou papoula pra te enlouquecer?! E os minerais?! Sulfatos, carbonatos, óxidos ou fosfatos?! Cremoso pra mim é requeijao ou o próprio creme de leite que a Nestlé nao vende na Europa. Mas, vamos em frente.

Frau vai empolgando e enfiando um vinho atrás do outro na gente. Lá pelas tantas, Jamal remete a sua infância. Nos conta que vem da Caxemira e fora forçado a aprender os idiomas dos dois lados, Índia e Paquistao. Disse que certos vinhos sao tao inesquecíveis como a primeira palmada que ganhou do pai. Se mudou pra Délhi e ali, além do inglês, aprendeu os dialetos da regiao. Depois veio pra Europa e aprender francês e alemao foi moleza.

Nessa brincadeira Jamal comeca a explicar que os processos de fabricacao no Molitor sao todos manuais devido aos terrenos íngrimes ao redor do Mosel. Máquina nao entra, só a mao humana. E que o processo de fermentaçao, que nos americanos é todo controlado por computador nos tanques de inox brilhantes do Napa Valley, ali sao regidos pela Natureza. O nome em alemao de um desses processos é simples: "Thermokontroliertevergärungsabwicklung". Como 2 + 2 = 4. Isso nada mais é do que o processo de fermentacao controlado por temperatura. Sao tantos os parâmetros regendo os micro-climas dessas regioes e seus impactos nas safras que brinco dizendo ser como um malabarista com 12 bolas no ar. Se uma cair o vinho nao sai mais perfeito.

Garrafas nr. 11 a 15 na mesa da empolgada Frau a postos. Um tal Trockenbeerenauslese, ou TBA para os íntimos, nos é garbosamente mostrado. Aprendemos depois que num mesmo cacho das videiras centenárias de Herr Molitor, o Auslese é a uva madura com bastante suco, a Spätlese (spät = tarde) é ela bem mais madura e quase apodrecendo com um teor de acúcar maior, e a TBA é a uva seca, quase como uma uva passa com pouco suco, mas muito mais acúcar que as outras. Por isso a producao da TBA é bem menor, mais rara e, evidentemente, mais cara. O vinho que sai dela é um néctar dos deuses, fabuloso.

E pra fechar Frau traz um Eiswein, ou vinho gelo em traducao literal. Sao as uvas que nao sao colhidas na primavera e congelam no inverno mantendo um teor de acúcar nas alturas. Uma combinacao de temperatura e duracao do inverno tem que acontecer pra se conseguir colher o Eiswein. E nao é todo ano que isso acontece. Por isso as garrafas sao mais limitadas ainda que o TBA. Tem um de 1998 custando € 1.190,60. É mole?!

Bem, Jamal nos deu várias outras dicas, comparou vinhos a mulheres dancando com ventos esvoacantes balancando seus vestidos vermelhos nas estepes da Caxemira. Mesmo com 20 anos de Borgonha o álcool ainda faz um bom efeito nele. Nos convidou pra visitar o stand da família Molitor na ProWein, feira de vinhos que acontece todo mes de Março em Düsseldorf, e pra continuar visitando a regiao sempre que passarmos por ali.

Os dez minutinhos da Frau viraram hora e meia, mas saímos todos satisfeitos com os aromas, sabores, conversas e garrafas do Mittel Mosel.

Bom que fica no caminho. Quando acabar é só passar ali e encher o tanque.

Sauna na Alemanha

Düsseldorf (uns tarados, esses alemaes)

Escrevi o textículo abaixo no dia 17/01/2012 na simpática Saarbrücken. Tomei - ou fiz - sauna hoje de novo e me lembrei dele.

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Saarbrücken (quando funciona é sempre bom)

Na Finlândia dizem que é um lugar sagrado. Onde ricos e pobres, judeus e cristaos, homens e mulheres se encontram democraticamente. Deixam as roupas do lado de fora e ali, naquele recinto de madeira seco e quente como pisar descalço em asfalto, discutem seus problemas, escondem outros, falam da Vida alheia - nao tanto quanto os brasileiros e muito menos os belorizontinos - resolvem pendências, planejam o futuro e lamentam ou rememoram o passado. Tem até um documentário recente sobre esse ritual.

Me lembrei agora duma cena protagonizada pelo Viggo Mortesen num filme do Cronnenberg, acho que se chama Extrem Affairs ou perto disso. Ele investiga a máfia russa em London e acaba cruzando o caminho da Naomi Watts. Na cena, Viggo está tranquilo e só de toalha na sauna quando chegam dois mamutes trajando jaquetas pretas. Comeca a discussao, um saca uma faca, o resto da turma sai pela esquerda e comeca a briga. Só essa cena já vale a película.

Escrevo sobre isso por que fui agora ao Wellness do hotel onde estou. Wellness é o carinhoso nome em alemao para a área de lazer dos hotéis. Ali encontramos chuveiros, sauna quente e a vapor, espreguicadeiras, salas de massagem, armarinhos pra guardar sua roupa e, neste caso, duas cestas de maçã. Uma verde e outra vermelha. Na esperança de esquentar e relaxar o corpo no inverno, desci até a recepção, pedi roupão e toalhas, acabei ganhando um desses chinelinhos de hotel de brinde, e segui meu caminho. O hotel é interessante, tem um lustre bacana e um lobby convidativo. Pensei em como seria morar nele por um mês, nas amizades que faria com os funcionários, as qualidades e os defeitos, as artimanhas da hotelaria, os hóspedes pitorescos. Daria outro filme. Talvez com o Mortesen como maitrê do restaurante e a Naomi de camareira viciada em anti-depressivos. E endividada até o pescoço.

Bem, a sauna no inverno é importante justamente pra relaxar o corpo que fica contraído, mesmo debaixo de tanta roupa. Alemão só toma sauna pelado e nao tem divisão entre sexos, na maioria das vezes. Acho isso engracado. Por um lado se escandalizam com as mulatas seminuas do Brasil, o bikini e a mini-saia mínimos das meninas. Dizem ser uma pouca vergonha. Por outro, trocam de roupa na sua frente sem o menor pudor, fazem topless nos parques durante o verao, quando nao ficam completamente peladoes, praticam swing e o escambau. Nao todos, é claro. Mas na sauna é aquele samba do crioulo doido. Uma avalanche de pelancas passando pra lá e pra cá. Raramente, mas de contar nos dedos de uma só mão, aparece algo que vale a pena movimentar o pescoço. Acho que alemães e finlandeses derivam do mesmo descendente saunístico e pudorístico.

Um incauto ali estava deitado, nú, na sauna nr. 1. A de numeral 2, me disse ele antes de eu pensar em escolher uma delas, estava fria demais, mas a UM “está esquentando”. Entrei de sunga, estiquei minha toalha, deitei e fiquei olhando pras ripas de madeira no teto. Pensei no meu Pai, na minha família a léguas de distância, nEla, no que fiz hoje e no que pretendo fazer amanhã. Será que o Guidão sabe que tomei sauna em Saarbrücken?! Imagino que sim, já que ele é onipresente. Pelo menos quero acreditar que sim.

O alemão se levantou e não voltou mais. Nao fiz nada demais, nem mesmo soltei um canário, vulgo peido, esvoaçante pra que ele escafedesse. Passados alguns segundos ele comeca a xingar no telefone do hotel e entra na sauna a vapor. Já desacreditado e esperando em vão a temperatura aumentar, decidi sair também. Ele olha pra mim através do vidro, abre a porta e me conta que ali é melhor do que nada. Como nao me contento com pouco mais que nada, me mandei.

Cheguei no quarto e liguei na recepção novamente. Contei o ocorrido e perguntei quanto tempo demoraria pra se ter uma temperatura razoável. A resposta: vou checar. E até agora nada de resposta. Fiquei sem sauna, mas o corpo relaxou assim mesmo com o vinho do jantar. O restaurante era bacana e tinha um casino ao lado.

Carnaval tá chegando

Düsseldorf (aqui nossas fantasias serao de pinguim)

Nada mais justo do que comecar a esquentar os tamborins, apesar do início da Era Glacial nas Orópa.

Foi o meu amigo Ti Gui, um dos únicos que ainda nao tem facebook, que mandou. A mais pura verdade.

Wando

Düsseldorf (quem fica com a colecao de calcinhas?!)

A singela homenagem do Truta ao barango assumido e querido por muita gente no Brasil. Fez sucesso com a mulherada até seus últimos instantes de Vida.

Que descanse em Paz.

Sunday, January 29, 2012

Viva eu, viva tudo, viva o Chico Barrigudo!!!

Düsseldorf (3.8 acelerando na banguela)

Hoje é um dia como qualquer outro, exceto pra mim e para o baixinho Romário. Aliás, nao só nós dois, mas uma pancada de outros terráqueos. Me lembrei de Spectraman ao escrever essa palavra. Infância boa tive eu.

Entre eles, o rei Cristiano VII da Dinamarca. Uma homenagem ao meu amigo Lua. Tom Selleck, sua Ferrari e o bigode. Jody Scheckter, o sulafricano campeao de F1 em 1979, o último da Ferrari antes da Era Schumacher. E também a negona motivadora Oprah Winfrey. Tássia Camargo, lembram dela?! Aquela baixinha bonitinha atriz da Globo nos anos 80. Putz, o bandidao Marcos Valério também assopra velinhas hoje. E Athina Onassis, aquela pé rapada que vende o almoco pra comprar a janta em alguma praia lotada de Korfu.

O rei Cristiano IX da Dinamarca morreu neste dia em 1906. Hoje com certeza é feriado em Kopenhagen. Além dele, exatos 3 anos atrás morria Héli Gracie, o pai do Jiu Jitsu.

Já me deram parabéns por email o Miles & More (Lufthansa), Flying Blue (Air France), o Groupon, UOL, Google, Friends of Laphroig, Eventim (site de ingressos alemao) e o Genoom.

Pelo Facebook, contei mais de 60 mensagens. Vários emails, alguns telefonemas e um amigo brazuca de Berlin, o Rodrigao, passou por aqui hoje com a namorada pra tomar uma champa original e comemorar. Teve bom demais.

Nada de festas esse ano. Apenas a satisfacao de saber que sou querido por tantas pessoas, famílias e amigos de diferentes trupes e lugares.

Obrigado pela Vida que tenho! Pela minha família, por ser como sou e por viver ao lado dEla, meu maior presente!

Wednesday, January 25, 2012

Neue Impressoes - Crônicas do cotidiano (1) - Parte 2

Hilden (o Amor é lindo e louco)

Quem nao sabia da contracao bombástica do nosso novo colunista, Marcelo Theo?! Agora tem uma boa chance de conferir a razao de tanto investimento literário. A primeira parte das Neue Impressoes - Crônicas do cotidiano (1)" está aqui. Leia antes de conferir o relato abaixo.

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Crônicas de um Casamento - Parte 2
Marcelo Theo

(Baseado nos Relatos do Casamento de um Primo... todas as identidades foram preservadas

Anunciei o fato a alguns amigos, e esses me ajudaram a tecer a teia. Talvez no dia 30 de junho teríamos uma festa, ou fôssemos padrinhos de casamento de um casal amigo. O certo é que ela deveria estar vestida de acordo com a celebração: e isso queria dizer salão, unhas, cabelo, maquiagem, roupa de noiva, etc.

Um dia, em casa, sou questionado “sem muita importância” sobre minha decisão de firmar o tal papel. Naquela altura do campeonato, deveria estar trabalhando a relação para ficarmos alguns meses separados. Isso queria dizer que não poderia deixá-la um mês inteiro chupando dedo, sem falar nada do nosso casamento. Havia recebido o convite da Madrinha para passar a lua-de-mel no Rio, gostaria de despedir dos amigos e familiares e... por que celebração de despedida é permitido e festa de casamento não? Além do mais, se todos recebem presentes, por que não eu? Portanto, interessante seria deixar a noiva a par de certas informações para que também participasse de parte das decisões de seu próprio casamento.

“Ok, vamos casar, talvez no fim de julho. Não vamos falar de data, por enquanto”. Com uma boa isca qualquer peixe morde o anzol. A mulher relaxada realmente fala, às vezes exageradamente. Naquela ocasião me revelou ela o sonho de fazer algumas fotos. Consenti, desde que não me envolvesse na busca nem nas decisões sobre as mesmas. Algumas horas depois, já sozinho em casa, percebi que tinha achado o remédio para a minha enfermidade. Liguei para meu grande amigo “O Fotógrafo” e lhe informei a respeito de uma certa sessão de fotos no dia 30 de junho. Mesmo estragando a surpresa que faria a mim de presente de casamento, ele achou a idéia excelente. Ficamos de acertar os detalhes em uma conversa de bar. O certo é que a dona da história ligaria sem saber de muita coisa. Certamente fiz questão de enfatizar a ela quem seria o fotógrafo. Não restava dúvidas.

A citada conversa de bar ocorreu num fim de semana, informalmente, em meados do mês de junho. Foi lá que o plano ganhou forma e corpo e os detalhes foram acertados. Com o passar dos dias e das semanas, me vi obrigado a compartilhar vontades, desejos e, claro, a data do meritíssimo. Era inevitável, a noiva já havia recebido uma ligação para oferecer-nos convites de casamento, além de inocentes congratulações pelo acontecido. A verdade é que as famílias já nos haviam casado, faltando só avisar-nos. Aproveitei a deixa de um amigo que havia dito que o casamento já tinha sido marcado e “só a noiva não sabia”. Naquela conversa, em tom de brincadeira, saiu a data do “Dia Fora do Tempo”. Pesquisei na Internet aquela data significativa para os Mayas: 25 de julho. Era perfeito, “casaríamos” no “Dia Fora do Tempo”. Restava só aguardar que o tempo parasse para a comunhão. Esperaríamos.

Certo dia, em uma data qualquer, que por ventura era o dia dos namorados, me encontrei com trinta minutos livres, antes de um encontro com a prometida. Liguei para a sogra para informar-lhe a data do casamento: no final de julho, dois dias antes de minha partida. Disse-me ela que algumas correspondências e telefonemas haviam chegado às mãos e aos ouvidos da filha com ofertas de lua-de-mel, igreja, entre outros “fruc-frucs” que rondam os casamentos de hoje. Algo como um circo, teatro ou atração com entrada paga e cobertura de imprensa. Estava desconfiada já, a garota, de que os documentos corriam no cartório. A reação foi imediata. Revelar-lhe-ia a data dos 25, confirmando a entrada dos papéis.

Imediatamente fui a uma livraria e gastei meu tempo encontrando um cartão adequado para a ocasião. Depois de muita procura, bingo. Duas curtas frases foram suficientes para fazê-la pensar que tudo aquilo estava planejado e que deveras nos casaríamos no mês sete.

Nos dias que antecederam a sessão de fotos, mostrei-me muito disposto e interessado até demais. Entretanto, a emoção obscura a visão e não levantei suspeita: vestiríamos como noivos. Ela já havia tido uma sessão de fotos ao ar livre. Naquela ocasião, as fotos seriam em estúdio fechado, com uma dita luz especial, especialmente para a ocasião. Saímos para comprar as roupas e conversar sobre a sessão. Colhi todas as informações que um bom agente secreto precisaria e fui costurando a colcha com os retalhos que iam surgindo.

Linha direta com o homem da câmera e acertamos o maquiador, as novas desculpas, entre outros assuntos. Com as “sogras-mães” os detalhes das roupas, o buquê. De volta com o homem-foto o acerto do local, a hora, quem e como. Assim foram os últimos dias antes da data, agitados.

Dois dias antes do casório, fomos eu e ela a um Shopping Center escolher uma camisa para mim. Em uma loja masculina, percebi uma mulher me olhando de maneira diferente, mais do que o normal. Não dou atenção, continuo na minha. Não se dando por satisfeita ela busca um novo cruze de olhares. Na primeira oportunidade ela proclama a independência em um brado “EU TE VI NO CARTÕRIO HOJE, MARCANDO CASAMENTO”. O primeiro pensamento é um “não acredito”, mas a calma e o controle não me escapam. “Deve ter sido meu irmão gêmeo ou sósia, tenho alguns por aí”, disse assertivamente. Ela titubeou e balbuciou mais algumas palavras de dúvida. Retirei-me ao provador. De lá, ouço murmúrios de que eu estava pela manhã em dito lugar. Enquanto eu ria, a deflagradora conversava com a noiva, revelando-lhe detalhes da minha presença matinal ao local do matrimônio: uma conversa no telefone à procura de dados dos documentos das testemunhas, meu cabelo, a confirmação da data, entre outros fatos. Não tive como omitir ou mentir naquele dia. Após a segunda cutucada da namorada não contive a risada. Foi realmente hilário e riríamos da situação até o dia seguinte. Disse-lhe que sim, que havia estado no cartório e que havia finalmente confirmado a data: 25 de julho. Quanto à história do cartão com “a data já confirmada” aleguei que gostaria que fosse aquele dia, e que naquele momento estava certo. O que parecia ruim, à primeira vista, ajudou a dar tempero à novela.

Obviamente o dia e noite anterior foram de ajuste de detalhes, como em qualquer projeto. Ficaram acertados detalhes e incumbências. Colhemos, eu e minha mãe, um buquê de Ipê roxo na noite anterior e, assim, ele estaria bonito na manhã seguinte. Ele serviria para as fotos, já que a noiva não desejava se casar com ele.

Na manhã seguinte ela foi à casa do maquiador, quem já estava devidamente instruído no tipo de maquiagem a ser usada. De lá, seguiria com o fotógrafo a um apart hotel de um amigo, suposto local das fotos. Por “coincidência” o apart se localiza no edifício acima do cartório. Da casa do maquiador ela me ligou, pedindo que levasse seus sapatos e penduricalhos ao local do encontro: o hotel. Minha mãe se dispôs, realizou a tarefa e chegou antes de mim ao lugar do acontecimento.

No telefone com o “homem-foto”, íamos acertando a navegação. Um erro de comunicação nos colocou em dois estacionamentos distintos. Liguei para meu pai e pedi a ele que me trouxesse os brincos e os sapatos da noiva. Na última manobra antes dos finalmente, a prometida viu o sogro e a sogra dentro do estacionamento e desconfiou de nova armação. Ela se encontrava já vestida para uma “sessão de fotos urbanas”, como lhe havia dito o fotógrafo, e só lhe faltavam o sapato e os penduricalhos. Desconfiada, ela pressionou meu amigo e, claro, ele negou veementemente. A noiva se recusou a sair dali daquele jeito, cheirava falcatrua. Foi em meio àquele momento que cheguei sorridente, como se nada estivesse ocorrendo. “SE TIVER OUTRA SURPRESA ME FALA AGORA VOCÊ SABE QUE EU NÃO GOSTO DISSO (BLÁ BLÁ BLÁ)” disse ela, enfezada e em alto e bom tom. “Anda rápido que o juiz já está esperando a gente pra casar”, respondi. Primeiro ela não entendeu e deixou escapar um “como assim?”. Quando a ficha caiu, a fúria possuiu seus sentidos e ela “soltou os cachorros”. Confesso que fiquei meio sem graça, também meu amigo, e fomos tentando domesticar a fera, para que, pelo menos, o tiro não saísse totalmente pela “nossa” culatra. Com algumas respirações ela conseguiu estar de volta ao controle das suas emoções e, uma vez controlada, escolheu estar brava. Mais um pouco de conversinha e conseguimos que ela se sentisse um pouco melhor. Já daria para fingir um sorriso. Caminhamos.

Na porta do cartório fomos recebidos com chuva de arroz, beijos e abraços. A moça foi amansando e já se mostrava mais relaxada. “Fiquei com medo de não estar bonita pra você”, me revelou. Pobre doce fragilidade feminina. “Nunca te vi tão bonita”. Após o fim da cerimônia, já com um sorriso do tamanho do mundo, ela agradeceria continuamente a surpresa.

Tuesday, January 24, 2012

Spinning é pra loucos

Düsseldorf (o ano comecou devagar por aqui...)

Sobrevivi a uma aula de spinning. Na verdade, saí antes do fim com medo de ter um infarto. Já pensava nas tantas coisas que ainda quero fazer sendo ceifadas implacavelmente por uma reles bicicleta de uma roda só. E que nem sai do lugar. Nao tem marcador de velocidades muito menos cronômetro.

O ambiente de boate com luz negra e música eletrônica é pra enganar os trouxas. Você entra, testa a "bike", ajusta banco e guidao (ou guidom?!), engata os tênis na cestinha que se acopla ao seus pés quando pisamos no pedal corretamente e comeca a se aquecer. E depois a ferver como uma tampa de chaleira.

Os alemaes habitués da sala te olham torto. Como se duvidassem antecipadamente de sua performance. Tudo bem que estou longe da minha melhor forma, mas já estive pior. A barriguinha nao engana ninguém, mas meu olhar confiante entrando na sala e encarando todos como se dizesse "vou pedalar também, algum problema?!" foi encorajador. Pelo menos pra mim.

Tentei ajustar o banco e guidao da bike ao lado pra que Ela nao tivesse muito o que fazer ao chegar. Tudo em vao. Chegou e mudou tudo. Disse já estar acostumada e também já sabia suas "medidas". Falou feito uma profissional. Acatei calado dando o primeiro de milhares de goles da melhor água do Planeta. A de mais fácil alcance.

Comeca a brincadeira. A professora, uma mirrada de roupa colada, microfone sem fio tipo Madonna e voz autoritária, solta a voz e as ordens. Nao coloquei muito peso no início já que seria minha segunda vez nesse tipo de aparelho. A primeira nem foi tao ruim assim, mas faz muito tempo. Os primeiros cinco minutos foram tranquilos. Até que a salafrária berrante manda todos pedalarem em pé, como se tivéssemos subindo uma montanha. Gritava "Jetzt MOUNTAIN BIKE" que em alemao significa "Agora mountain bike". Até aí tudo bem, mas a sequência parecia nao acabar nunca. Já estava semi-morto e ela berrou "Noch zwei Minuten", mais dois insanos minutos que pareciam ter 340 segundos cada.

Sentado e bebendo água como um camelo após atravessar o Saara olhei para o relógio. Míseros dez minutos haviam se passado. Faltavam cinquenta. Nao fizemos alongamento algum antes de comecar e pensei em interromper a aula. Mas o olhar de uma gordinha suada e satisfeita com seu desempenho me fez desistir.

Ela ria ao meu lado, nada mais. Nao levei toalha e já sentia a falta após perceber a suadeira no corpo todo. A pantola atlética recomeca o berreiro preparando todos para mais um teste de resistência. Aumentamos o peso e ouvi de novo "Jetzt MOUNTAIN BIKE". Por que as placas tectônicas se movimentaram tanto no passado criando essas malditas entidades?! E depois, quem foi o desocupado que resolveu subir uma delas?! As montanhas sao belas e altas, algumas cheias de neve. Por que nao deixá-las em Paz?! Lá vamos nós de novo e a pizza do almoco comeca a dancar trance na minha barriga. O fígado dava mortais e o pâncreas parecia ter tomado um ecstasy. Eu olhava pra baixo, pra cima, para os lados, e às vezes pra mardita professora. Estava longe do meu alcance, senao jogaria minha garrafinha de água na testa dela pra parar tudo e tentar respirar.

A gordinha me olhava candidamente, mas seguia firme e forte em seu objetivo. Meu coracao era uma locomotiva na banguela, descendo uma montanha. Descer é fácil. De novo pensei num infarto, eu ali caindo estatelado com os pedais batendo na minha canela e sangrando-a impiedosamente. Todos correriam pra me acudir. A música nao iria parar. O desfibrilador, item obrigatório em qualquer estabelecimento comercial na Alemanha, seria trazido em fracoes de segundo. Tentariam me reanimar. E conseguiriam. Eu levantaria, sacudiria a poeira e diria: "Jetzt MOUNTAIN BIKE"!

Mas, nada disso aconteceu. Apenas uma sequência desmoralizante com peso forte, mas sentado. Diminui o ritmo e pensei em abandonar a aula. Passados 25 minutos estava bom demais. Resolvi resistir mais um pouco. A magrela, a instrutora, nao a bike, comeca a latir novamente. Preparando meus tímpanos pra ouvir o pior, nao me decepcionei: "Jetzt MOUNTAIN BIKE". Ódio é aquela sensacao de querer matar alguém. Mas esse alguém teve muita sorte ou estava numa distância suficiente evitando a tragédia.

Dei sete pedaladas em pé e me sentei. 35 minutos, pra que mais?! Diminui o peso e pensei na piscina lá embaixo me esperando. Na espreguicadeira de bracos abertos como uma mae esperando o filho chegar do intercâmbio no aeroporto. Na sauna fervendo, mas calma e de movimentos mínimos. Antes de ouvir outra vez o que seria provavelmente a sentenca de morte da incauta instrutora desacoplei meus pés dos pedais sugadores, pisei no amado solo imóvel, beijei-a no rosto e me mandei antes que me tornasse um criminoso.

Nao olhei pra ninguém, mas saí pensando em voltar. Isso nao vai ficar assim. E a sensacao agora, já em casa depois da sauna e do banho é de que valeu a pena. A endorfina é uma droga poderosa se produzida com moderacao. Mas será que sou masoquista?!

Monday, January 09, 2012

A Maior Aventura de Todas

Düsseldorf (Zurich é sinistra)

Você gosta de fazer caminhadas?! Acha que meia hora três vezes por semana é suficiente pra deixar a consciência limpa?!

Ah nao, você é corredor amador. Já fez algumas trilhas de bike, até mesmo trekking. Se aventurou no montanhismo e já andou de caiaque em rio. Sei.

Esqueca tudo isso. O que o inglês Ed Stafford fez está completamente fora desse Mundo. O cara decidiu percorrer toda a extensao do rio Amazonas, desde a nascente até a foz. A pé. E sozinho.

Foram 860 dias, entre 2 de Abril de 2008 até 9 de Agosto de 2010, 6.400 km e apenas uma espécie de bastao com uma ponta afiada pra se defender.

Ele fez um blog, tem uma fundacao e a aventura já virou documentário. Alguns trechos foram feitos de barco a remo, outros com água até o peito com equipamento flutuando num pequeno bote inflável.

Onde esse cara dormia?! O que comia?! Deve ter se alimentado até de macacos. Como nao comeu nada venenoso?! E os índios selvagens, nao encontrou nenhum pelo caminho?! E as enchentes no Amazonas?! Pegava internet no meio da selva pra ele atualizar o blog?! Todos os dias?! Quantos pares de sapato, ou botinha, foram gastos?! Levou GPS?! Tinha sinal?!

Tem sempre uns caras mais doidos que os outros.

Sunday, January 08, 2012

O Último Ano do Resto de Nossas Vidas

Düsseldorf (a Suíca é um espetáculo)

Isso é nome de filme dos anos 80, eu sei. Filme que as mocinhas da época, minha irma entre elas, deliravam. Nao sei bem o por que. Talvez pela quantidade de jovens promessas masculinhas atuando. Nem sei qual é a estória.

Bem, o nome do post é uma alusao óbvia ao último ano de nossa existência neste singelo Planeta. Isso segundo o calendário maia. Já fizeram até filme, detestável e desnecessário.


O ano que passou foi muito bom. Todo ano escrevo, por ordem de importância, os fatos relevantes que me ocorreram e faco promessas, a maioria jamais cumpridas, para o ano vindouro. Em 2011:

  1. Minha sobrinha Bruna nasceu, a segunda da minha irma;
  2. Todos estao saudáveis, a família e os amigos;
  3. Fiz minha primeira exposica fotográfica em Beagá com direito a duas notas, em jornal e revista, e cinco fotos vendidas (falo disso em post separado);
  4. Mudei de emprego, ganhei um carro de brinde e meu alemao agora é fluente (3 em 1);
  5. Viajamos bastante, a melhor coisa dessa Vida;
  6. Carnaval na Sapucaí com direito a invasao ao box da bateria da Mocidade;
  7. Ela circulou entre Velho e Novo mundos com uma desenvoltura única;
  8. Meu irmao voltou para o Brasil bem profissionalmente, como queria;
Já para 2012 nao quero muito. Antes de mais nada, sempre agradeco por ser quem e como sou, sem tirar nem por. Agradeco por ter nascido na casa onde nasci, por ser filho de Guido e Jane e por ter saúde. Agradeco por ter tido a sorte grande de ter me encontrado com Ela nessas andancas da Vida. O resto é mais ou menos detalhe. Portanto, esse ano gostaria muito de:

  1. Fazer cursos de fotografia;
  2. Focar em poucas coisas;
  3. Tentar nao desperdicar energia e Tempo;
  4. Fotografar e escrever mais e mais;
  5. Viajar, sempre;
  6. Aquela besteirada de sempre: comer melhor, dormir mais, malhar mais, beber a mesma quantidade, etc.
É isso. Vamo ver no que vai dar. Bom ano para todos!

Thursday, December 29, 2011

Invista em Livros (2)

Düsseldorf (um dia de molho...)

A gripe nao me deixou trabalhar hoje. Vou ali tomar um Ibuprofen e já volto...

Voltei. Pude ver "Rastros de Ódio" com John Wayne no papel do herói que sai em busca de vinganca e da menina raptada pelo Cherokees, a Debbie.

O assunto aqui sao os livros. Sempre eles. Na última passada pela terrinha voltei carregado novamente. Tinha prometido nao comprar/surrupiar mais nada, mas nao teve jeito. Vamos as minhas recomendacoes para 2012. Pelo menos é o que tentarei ler.

A primeira lista está aqui. Dela comecei o nr. 7. Cartas a Theo - Van Gogh, li "1984", que faz parte do nr. 12. The Complete Novels - George Orwell, o 22. About a Boy - Nick Hornby está na minha cabeceira, mas nada de comecar e, por último 23. Lolita - Vladimir Nabokov, também iniciado, porém nao terminado.



Preciso acabar com o que inicio. Tem uma garrafa de Johnnie ali pela metade olhando pra mim.

1. Ligeiramente Fora de Foco - Robert Capa. O consagrado fotógrafo de guerra, que adorava ostras blue point com vinho Montrachet, também deixou sua marca na literatura nessa autobiografia.

2.  O Aleph . Jorge Luis Borges. Me interessei pelo autor argentino após ler um conto do Torero numa dessas revistas de bordo. Era sobre a cidade de Santos, onde Torero nasceu e cresceu, e seus pontos turísticos. Torero usou um conto do Borges, onde ele encontra a si mesmo num banco de praca, pra falar sobre a cidade que tanto ama. O Aleph é o ponto de partida para se explorar a obra magnífica de Borges, o argentino, nao o atacante do Santos.

3. O Amor é um Cao dos Diabos - Charles Bukowski. O velho safado apronta mais uma. Comprei na Paulista numa das várias bancas vendendo muita coisa da colecao de bolso LM&P. Baratos e acessíveis ao povo sedento por literatura.

4. Era dos Extremos - Eric Hobsbawn. Antigo sonho de consumo, subtraí-lo-o das prateleiras de Janemamae que nada percebeu. Agora tenho comigo a colecao "Eras" que comeca com as "Revolucoes", passando pelo "Capital", depois "Impérios" e terminando nos "Extremos". Tenho dele sua autobiografia, Tempos Interessantes.

5. Carlos Gracie Biografia - Reila Gracie. Veio na mala após insistência e argumentos convincentes do Rato, meu irmao faixa preta de jiu-jitsu.

6. Murder on the Orient Express - Agatha Christie. Esse também tava meio perdido lá em casa, sentindo frio. Resolvi acolhe-lo.

7. O Goleiro de Deus em Preto e Branco - Joao Leite. Autobiografia do maior e melhor goleiro da História do Galo, o Joao de Deus. Recebi o livro de suas próprias e gigantes maos com dedicatória e tudo mais. E uma camisa do Atlético com o 13 atrás autografada por ele e pelo Batista, zagueirao que fazia dupla com o Luisinho no final dos áureos anos 80. Timaco era aquele, pena que nao ganhou nada importante.

Além desses, outros livros alimentaram a listinha de desejos:

- O Mal ronda a Terra -  Tony Judt. Recomendado pelo Humorista-mor, só pode ser coisa boa.

- Franca e Adjacências - Amaury Temporal. Janemamae se encantou com os textos desse chef que nas férias aluga uma casa em regioes da Franca e faz dali seu QG para pesquisar ingredientes e prepará-los ao longo dos dias. Uma cozinha bem equipada e grande é o único pré-requisito que a residência deve ter.

Boa leitura a todos e um ótimo 2012.

Tuesday, December 27, 2011

Radio Truta

Hilden (a idéia era planejar 2012... )

Chickenfoot, com Joe Satriani.

Radio Truta

Hilden (nao conhecia essa voz)

A surpreendente Lana Del Rey foi a melhor coisa que apareceu na cena musical em 2011, dizem alguns. Pra mim foi o álbum do Foo Fighters. Uma pancada na cabeca desse mundinho cada vez mais imbecil e menos rebelde.

Mas a garotinha tem seu valor no meio de tanta mesmice.

Neue Impressoes - Crônicas do cotidiano (1)

Hilden (Woyton é bom)

E no apagar das luzes de 2012 o Truta conseguiu mais um reforco de peso. Após anos de negociacoes complicadas, idas e vindas, promessas, dívidas e desencontros finalmente e orgulhosamente anunciamos o mais novo colunista do blog: Marcelo Theo.

O mineiro de Beagá, engenheiro de plantas de biogás, poeta, músico, escritor, pai de duas maravilhas e marido de uma companheira "pro que der e vier" aceitou as luvas contratuais e a conta nas Cayman como parte do pagamento pelas pérolas mensais que ele despejará neste espaco de agora em diante.

O Truta nao tem muita regra, mas a idéia é soltar uma crônica por mês. Já temos material pra abastecer o blog até Maio de 2017. Até lá, discutiremos novamente as bases contratuais.


A primeira de todas, cronologicamente falando também, foi feita no aeroporto de Confins aguardando o cilindro voador que o traria pra gelada Alemanha. O mês e o ano?! Julho de 2006.
A primeira parte das "Crônicas de um Casamento" está aí embaixo, agora para uma audiência interplanetária e muito exigente. Se gostarem, Theo ganha o Nobel na certa.

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Crônicas de um Casamento - Parte 1
Marcelo Theo

(Baseado nos Relatos do Casamento de um Primo... todas as identidades foram preservadas)

Bem, aqui estou eu, enlatado na sala de embarque do aeroporto de Confins, rememorando o como um moleque livre e risonho tornou-se um homem casado.

Homem casado? Bem, foi mais ou menos assim...

Não casar, para começar a conversa, é muito mais fácil e cômodo. Enxergar defeitos e fazê-los do tamanho de um trem, ou de um avião, é um exercício rápido e tranqüilo.

Pois bem, me encontrava assim, em posição absolutamente favorável comigo mesmo... e de poder, com todas as justificativas necessárias para fugir da forca. Sujeito rebelde, alma cigana com sangue nômade, cheio de exigências e em busca da mulher perfeita, como um bom virginiano. Ser solteiro é mais simples que ser casado: planos para um, nada de telefonemas dizendo onde, quando ou porquê, enfim, muito mais livre para ficar até mais tarde em um bar jogando conversa fora. Não desejava ser solteiro, quero dizer, não que não ligasse para toda a liberdade do “ser solteiro”, mas gostaria de gozar de tal, casado. Afinal de contas, sempre em busca da mulher perfeita. Essa idéia de perfeição na companheira se dissolveu com o tempo. Surgiram outras barreiras e questionamentos, afinal a mente é uma grande e maquiavélica competência que nos dá e nos tira a todo instante. Nos deixa desnudos sem a menor compaixão ou zelo. Casar deve significar tanta coisa que deveríamos encontrar outra palavra para diminuir questionamentos e batalhas internas qual essa, travada e descrita por minha pluma.

Casar, no sentido de ter mesma morada, mesma casa, nunca me trouxe nenhum frio na espinha. No sentido de assinar um papel, declarando assim minhas intenções, era forte demais para ser levado a sério. Casar, como entrar em um templo ou igreja e estar diante de um padre ou pastor, repetindo sim e jurando amor eterno, cercado de um terno apertado, olhares fitantes, luxo, pompas e concreto? Com toda a fineza cabível: nem morto, me traria calafrios. A mesma cerimônia pisando flores e ervas, todos de pés descalços, cantos e danças, o cheiro da erva no ar, a brisa nos cabelos, sorrisos leves, roupas claras e uma benção de amor a Deus, a si próprio e ao outro, tranqüilamente.

Voltamos, pois, à situação de conforto e domínio que me encontrava: desculpas armadas, apontadas, fogo. Como criaríamos os filhos? Quais os valores? E a busca interior e espiritual? (Questão central e condição si ne qva no). Questionamentos justos, talvez, até cabíveis, porém revelava algo por trás do véu: o medo. Medo de viver e atar-me toda a vida à mesma mulher. Escolher aos vinte e sete anos e não poder fazê-lo aos trinta ou aos sessenta. Isso para um homem pode, às vezes, ser terrivelmente difícil. Para um macho, por natureza e na natureza, a função instintiva é “espermatizar” o máximo possível. Comportamento esse, vivido por nós seres humanos masculinos, na adolescência e, em muitos casos, levado e idolatrado até à fase adulta. Racionalmente falando, o medo era bobo e infantil, e as causas deveriam ser superadas. No emocional, o sentimento era real e genuíno, principalmente porque estaria disposto a manter-me na apavorante condição de monogâmico. Pensar que em quarenta anos sorriria de mim mesmo ou que fosse eterno enquanto durasse me animava e dava força.

Assim foi como transferi toda a responsabilidade da união no simples fato do desabroche de minha camélia. Do jeito dela, “camaleoa” e feroz, antes este do que aquele, rugiu e deu sinais de vida, trocou de pele em duas semanas. Estava claro que aquela criatura era mutante e esquisita, assim como eu. Faço minhas as palavras de Caetano: “de perto, ninguém é normal”.

Quão rápido a subida do sol no horizonte, a situação se inverteu e eu me vi com a espada no pescoço: ou enforcar-me ou morrer degolado. Calei-me e escutei o turbilhão de silêncio dentro de mim.

Haveria uma partida a um destino longínquo, uma estadia longa, existia um medo, real. Seja feita a vossa vontade, e o mergulho na fé, no escuro, no desconhecido. Sem dizer “nem que sim, nem que não”, tramei o ardiloso plano.

Dei logo a saber a meu pai, minha mãe, também a meus irmãos, que me disseram estar eu louco. Nenhuma novidade. Minhas atitudes e modus vivendis não pertencem mesmo ao mundo dos “normais”. Apesar de tudo, me apoiaram na doidice. Passo na casa de minha sogra, a quem levo, sem saber de nada, ao cartório.

Havia pedido um sinal a Deus pela escolha do dia do casório e preferi uma quinta-feira, quarenta dias após aquela data. Não obstante, eis que vem um sinal das “sogras-mães”. Sexta-feira, dia 30 de junho, e não há como brigar com duas mulheres de fala aguda. Estava escrito, ou elas escreveram.

O primeiro percalço nos cruza o caminho. Na procuração assinada pela dama para que sua mãe a representasse perante o juiz constava um erro em um dos nomes, o que quase pôs tudo a perder. Deveria, novamente, eu, fazer com que a noiva assinasse a procuração sem ler. Havia já gastado o trunfo da pressa, quando ela assinara sete papéis desinteressadamente; um deles, a dita cuja. Digamos que os “normais” não me deixaram desistir da loucura, o porquê, ninguém explica. Talvez porque todos precisamos de um “bode escapatório” (mistura de bode expiatório e válvula de escape) para as loucuras de nosso cotidiano. O certo é que em um telefonema acertamos um rápido encontro na hora de seu almoço para novas firmas. A desculpa era que havia um erro no número de sua identidade. E não é que havia mesmo?

A rapidez da operação era imprescindível para que houvesse menos tempo para uma leitura detalhada. A primeira ela leu, alegando surpresa em não havê-lo feito anteriormente. A folha subseqüente continha uma palavra proibida aos olhos inocentes da dama: casada. Os óculos não fitaram a dita cuja e a pena deslizou suavemente por todas as outras procurações. O diferente desenho da última, por possuir mais linhas escritas, atraíram sua atenção e ela, portanto, começou a ler enquanto assinava. Rapidamente, com o papel já assinado e enquanto a leitura ainda não avançara às linhas intermediárias, privei-lhe o documento do viso, não lhe permitindo o término da leitura, causando-lhe um certo curioso espanto. Perguntou-me o que estava escrito, demandou e me fez vãs ameaças emocionais. Barganhei um tempo e lhe prometi que em três dias teria uma boa surpresa. Fui feliz na proposta, pois ela consentiu. Dois dias depois, em um domingo, preparei nosso novo apartamento.

Minha tia havia se mudado e com grande desprendimento e gentileza nos ofertou a morada sem ônus. Melhor que isso, só dois disso. Comuniquei a decisão de antecipar a surpresa a meus pais e minha sogra, de outra forma, manter a situação no ar poderia tornar-se insustentável. Apenas um dia após a mudança de minha tia, apresento à namorada nosso novo ninho. A surpresa foi grandíssima e o assunto dos papéis não foi mais questionado. Havia ganhado tempo. O que viria depois disso?!

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Aguarde cenas dos próximos capítulos.

Thursday, December 22, 2011

Miséria pouca

Augsburg (os plugs de panela ainda nao foram aprovados…)

Nem me lembro quando foi a última vez que comprei um CD. Queria o novo do AC/DC, mas copiei de alguém. Depois, o novo do Foo Fighters me interessou muito. Antes de pensar em comprar recebi do Leopoldo Magnífico uma cópia via WeTransfer. O mesmo aconteceu quando soube do álbum mais recente do Radiohead, Kings of the Limbs. Leopoldo atacou novamente, mas ainda nao tive tempo de ouvir.

Outro dia o Albert, conde de Epernay, me mostrou um relancamento do Exile on Main Street dos Stones, para muitos, eu inclusive, o melhor da banda, originalmente lancado em 1972. Só que agora incluiram 10 faixas até entao inéditas e guardadas a sete chaves que foram gravadas na mesma época do álbum. É como se alguém tivesse enterrado dez dos melhores Bordeaux ou Borgognes há 40 anos e agora abrisse as garrafas dando a todos a chance de prová-las. A música Plundered my Souls é das melhores que a banda já fez.

Antigamente, os CDs vinham com letras das músicas, estórias de bastidores, nomes dos produtores, curiosidades, etc. Agora levamos somente um frio álbum duplo, que em LP seria triplo, nomes das músicas, duracao e autores, copyright pra tudo que é lado e só. Custava incluir ao menos as letras das cancoes “novas”?!

Pelo menos minha volta da Bavária pra Düsseldorf será muito bem embalada. Com frio e neve entao, melhor ainda.

106 melhores Street Art Photos de 2011

Augsburg (veja Exit Through the Gift Shop hoje ainda)

Arte bem humorada, saudável e com poder de mudar as cidades e a estressante Vida dos cidadaos.

http://www.streetartutopia.com/?p=5982#more-5982


Weihnachtsmarkt

Augsburg (a Riegele é boa)

Quem seriam os ilustres cidadaos de Augsburg?! Sei apenas de Bertold Brecht, mas nao me pergunte qual peca teatral famosa ele escreveu. Talvez algo sobre O Tannenbaum passada nos mercados de Natal.

O hotel fica ao lado de um cemitério. A fina camada de neve cobre os sepulcros como um manto protetor. O muro é baixo e sem arame farpado, ao contrário dos jazigos brasileiros. O da Consolacao é assim, eu vi. Até os mortos aqui tem mais seguranca?! Será que Brecht tá enterrado ali?! Ficarei sem saber. O frio nao me deixa consumar a visita.

As cidades alemas ficam lotadas nessa época. Acho que só trabalham até as duas da tarde. Depois disso, as ruas ficam cheias. Salsichoes no paozinho com mostarda, steaks com cebola, crepes doces e salgadas, reibekuchen – fritura feita com massa de batata – leberkäse, kasseler, sauerkrauft. Em todas as cidades vemos esse menu com mínimas variacoes. A culinária alema nao é muito rica, só em calorias, mas tudo parece combinar perfeitamente com cerveja e, no inverno, Glühwein. Um vinho mais fraco servido bem quente em canequinhas bonitas que dao vontade de levar pra casa. É parecido com nosso quentao das festas juninas. Só que eu bebo sempre com amaretto, rum, calvados, conhaque ou algo do tipo pra reforcar. Mais que um enjoa.

O mercado da cidade é uma festa de cores e nacionalidades. Itália, Grécia, Espanha, Portugal, Franca, Turquia. Todos presentes e competindo entre si. Provei um salami originale, mas o celular tocou antes que eu fosse persuadido pelo feirante. Dois casais se esbaldavam com tábuas de frios e bebidas finas. Fecharia às 18 Uhr em ponto. Vi vinhos, ervas e chás, queijos de todos os tipos. Deu vontade de ficar até sábado só pra ver o movimento. Sair sem nada no estômago em direcao a um mercado desses é alegria garantida. Festa de sabores, cheiros e dinheiro trocando de maos. A economia precisa girar. A Europa nao está em crise?! As ruas lotadas desmentem tudo. As sacolas cheias também. Pelo menos a Alemanha está do lado forte do muro, mas até quando?!

A variedade de souvenirs impressiona mais do que a comida. Porcelanas, madeira, plástico, vidro, aco e latao. Qualquer motivo natalino é feito com esses materiais. Sempre dou uma olhada, mas nao compro nada. Depois de comer uma Hirschenwurst mit Senf (com mostarda), perambulei mais um pouco até topar com uma loja de vinhos. Havia também charutos finos e um monte de cachimbos. Comecarei a fumá-los quando completar 40 anos. Tem um certo charme, o ato de fumar. Nao fossem os problemas de saúde que causam seria um fumante inveterado. Acho chique e nao ligo se é politicamente correto. Tenho orgulho de ser incorreto, nesse caso.

A loja de vinhos surpreendeu. Vi um Chateau Palmer, alguns Borgonha de respeito, um Don Perignon de 1993, alguns Lafite Rothschild e até um Pichon-Longueville Contesse de Lalande. Nao comprei nada, apenas apreciei. Tava com preguica de carregar sacolas. Perde-se um pouco de liberdade nos movimentos
quando se adquire algo.

Passando pelas guloseimas e tortas do Café Eber, tradicional Konditorei da cidade, decidi subir até o salao principal. A vista para praca do mercado era mais do que convidativa. Vi o garcom servir a felizarda senhora uma torta de morango com Sahne - o chantilly alemao, mas muito melhor e menos gorduroso. Pedi o mesmo com uma jarra de chocolate quente pra acompanhar. Fiquei lendo minhas loucuras anotadas no moleskine. Doideras que anoto desde o dia 02/03/2008, me informa a primeira página. Coloco data em tudo, como se alguém fosse algum dia fazer uma cronologia da minha Vida baseado nessas anotacoes. Metas impossíveis, tarefas que nunca farei, shows que jamais assistirei por que os artistas já morreram – Amy Winehouse, por exemplo. Mas muita coisa está riscada, feita, executada. Missao cumprida. Outras tantas ainda estao pendentes, mas por pouco tempo. Paguei a conta, dei 70 cents de gorjeta, peguei o recibo e me mandei.

No frio da volta peguei a Maximilianstraße, a principal da cidade. As lojas sao modernas e conhecidas, localizadas nos prédios mais antigos. É sempre assim em toda Alemanha, país padronizado e às vezes irritantemente organizado. Talvez em grande parte da Europa também. Sao tantas lojas iguais: zara, mango, h&m, deichmann, görtz, timberland, adidas, tchibo, tommy hilfiger, dm, etc. Nem sei exatamente o que vendem. Ou sei e fico querendo esquecer. A elas, junte as lojas das operadoras de celular, alguns bancos, correio, farmácias e supermercados. Restaurantes e lanchonetes vendendo kebab, pizza, salsichao ou batata frita - com maionese e cebolinha, por favor - e tem-se uma cidade alema. Uma ou outra lojinha tradicional sobreviveu. Essas sao as melhores e mais caras. Ah, tem sempre uma joalheria ou loja de relógios nesse furdúncio também.

Simpática essa Augsburg. Com uma Riegele, a cerveja local desde 1884, melhor ainda. Como teria sido a descricao do Bertoldo algumas décadas atrás?!

Wednesday, December 14, 2011

Fala Turista no Truta

Düsseldorf (hoje: SEIS anos de casado com a mininete que eu amo!)

Com o alcance mundial desse blog e a exposicao fotográfica "O Presente pelo Mundo" deste que vos bloga, sucesso em nove países na Europa e agora exclusivamente no Brasil, chamamos a atencao da mídia interplanetária.

O site Fala Turista me procurou com uma proposta interessante e irrecusável. Eles vao publicar um texto meu sobre, por exemplo, uma viagem que fiz a Borgonha, e eu publicarei um texto deles sobre, neste caso, a culinária de Fortaleza, Floripa e Rio.

Trato feito, segue abaixo a versao enviada pela intrépida Verônica Fassoni, espécie de faz tudo do Fala Turista. Agora só falta eu enviar o meu relato regado a pinot noir e chardonnay pra ela.

Em breve teremos o Truta no Fala Turista.


CULINÁRIA DO RIO DE JANEIRO, FLORIANÓPOLIS E FORTALEZA

Se é verdade que o peixe morre pela boca, o cardume que quiser permanecer vivo, por assim dizer, deve passar bem longe da cozinha do Rio de Janeiro, Florianópolis e Fortaleza – três cidades que abrigam variados estilos de cozinha para deliciar turistas de norte a sul do país. Só por cada uma das cidades citadas já estar em regiões diferentes uma das outras já dá para sentir que diversidade, aqui, é o que não falta. Mas só quem vai para cada um desses destinos é que sabe o quanto é literalmente gostoso viajar pelo Brasil.

Quem espera viver praticamente uma aventura culinária tem objetivo certeiro em Fortaleza, onde a cozinha parece ter vida própria – assim como sua linguagem, com nomes de iguarias super diferentes e nada pronunciáveis nas outras cozinhas do país. Como não poderia deixar de ser, a comida lá é tipicamente nordestina. O fato de estar à beira-mar não faz com que Fortaleza seja uma cidade onde as iguarias são necessariamente à base de peixe, com vários pratos feitos com carne de porco (sarapatel), paçoca (carne de sol frita com farina) e buchada de carneiro, além de mocotó. Há também churrasco de carneiro e o preparo de peixes não fica de fora, com as moquecas e iguarias que levam caranguejo. Ao escolher pratos de porco, principalmente, peça referências. Se uma aventura gastronômica não for seu forte, peça sem medo um “baião de dois”: prato de arroz com feijão que geralmente vem com carne de sol. E procure hoteis em Fortaleza assim que der vontade de ir: como a cidade é um dos destinos mais procurados do turista no Brasil, às vezes fica difícil encontrar uma data para hospedagem.

Em Floripa, o peixe é mais requisitado, principalmente a tainha – ingrediente de prato que quase pode responder também como personagem folclórico do estado. Lá, o pirão de água de linguiça e o caldo de feijão dominam as especialidades ao lado da própria tainha, seja frita ou ensopada. Fritada de ostra, casquinha de siri e banana frita também fazem parte do típico menu catarinense. No seu hotel Florianópolis peça dicas dos melhores restaurantes para degustação de um bom peixe – sem se esquecer, claro, da famosa tainha.

Já para a capital fluminense, qualquer hotel Rio de Janeiro pode te indicar um bom local para comer a iguaria dos praianos: a velha e boa feijoada. Lá também é servido uma espécie de frango assado chamado Galeto e o feijão preto domina a cozinha do carioca. Além disso, camarão e bacalhau também aparecem para fazer jus ao dia-a-dia de uma cidade de litoral. Nos dias mais frios, peça um caldo verde. E durante o dia, um peixinho nas famosas praias cariocas com uma boa água de coco são sempre ótima pedida para turistas de qualquer parte do Brasil e do mundo.

Curtir essas delícias pelo Brasil é uma aventura e tanto! Você não pode deixar nada relacionado a essa viagem para última hora. Compre suas passagens com antecedência e garanta bons descontos e acesso o site da FalaTurista e faça a reserva do seu hotel favorito. Boa Viagem (e bom apetite)!

Thursday, December 08, 2011

O dia que nunca termina

Beagá (54 felizardos ontem a noite)

Escrevi esse texto dia 26/11, um dia após chegar em terras tupiniquins, mas tinha esquecido de postar. Agora vai.

Viajar pra casa é uma epopéia de quase 24 horas. A casa, na verdade, é aqui na Alemanha, mas a origem é o Brasil. Entre o despertar às 5 da matina até deitar na antiga cama, após percorrer uns 15 mil kilometros cruzando meio continente europeu, um oceano e metade do Brasil, muita coisa acontece.

O taxista alemao, um senhor que mal conseguia colocar as pesadas malas na perua Mercedes, iniciou a série de relacionamentos fulgazes do dia. Ela já cochilava rumo ao aeroporto quando os primeiros claroes anunciavam a nova data.

Descemos no Terminal 1, letra B de Brasil, e empurramos o carrinho até o guichê (nao sei escrever de acordo com a Nova Ortografia da Língua Portuguesa, portanto, perdoem os hífens e acentos a mais, ou a menos). De longe, vi que o funcionário da companhia aérea nao era alemao. Poderia ser brasileiro, espanhol, português. Era gaúcho, tchê. Gente boa, fez vista grossa com um possível excesso de pesos. Após ouvir de onde viemos cobrou o favor em alguns paes de queijo, se e quando voltássemos. Disse ser o gaúcho louco. Fazia dupla com um paulista de Campinas. Estavam bem arrumados.

No Free Shop a caixa alema, a funcionária, nao a máquina registradora, disse nao saber o limite de garrafas para o Brasil. Meti três litros de Killepitch e uma vodka do bisao na mala, mais os xampus dEla e nos mandamos com atraso para o portao de embarque. Lá, o gaúcho cobrou mais um pedágio verbal em paes de queijo dizendo que se nao fosse por ele o aviao já teria saído. Sei.

Vôo vazio em aviao pequeno, de 2x2 lugares, servico decente, o silêncio habitual dos alemaes e a falacao característica dos latinos, espanhóis, portugueses, brazucas. Após furarmos a fina camada de nuvens que cobria a cidade, eis que o Astro Rei nos diz bom dia e boa viagem. Ela dormia a sono solto. Eu lia “Vinho e Guerra” com o objetivo de terminá-lo na viagem.

Já no belo aeroporto de Barajas, andamos em esteiras, descemos escadas rolantes, pegamos o trenzinho, subimos novamente, mais esteiras, e por fim chegamos ao U60 com destino ao Rio de Janeiro. No caminho, uma mulher com a bunda de fora seguia o mesmo caminho na nossa frente. Cena inimaginável em terras prussianas. Ela, de enxaqueca, pediu coca-cola. Comprei um bocadillo pra acompanhar e ali ficamos. O volume de passageiros era estranhamente pequeno.

No A340 de poltronas velhas que voltavam à posicao original sozinhas e sem telinha individual pra assistir filmes, nos acomodamos. Ela, já cochilante, se preparava para longa “noite”. Segui firme no objetivo de dar cabo ao livro, mas agora regado a um honesto Shiraz espanhol. A decolagem sempre me dá frio na espinha. Depois fico tranquilo.

Almocamos uma carne sem gosto com purê. O vinho salvava tudo. De repente “Tea, tee, chá” com sotaque madrilenho. Uma comédia. Tentei assistir “Super 8” no monitor estilo loja de conveniência instalado no centro do corredor. Som péssimo, toda hora alguém entrando na sua frente. Filme totalmente desnecessário. O trailer já é uma perda de tempo. Explosoes inimagináveis, personagens indestrutíveis, o menino bom ignorado pela bonitinha no comeco acaba salvando-a no final. Hollywood parece ter um “template” pra roteiros desse tipo. Mudam uma variável aqui outra ali, mas a essência é sempre a mesma. Vazia, rasa, nao passa mensagem nenhuma. Entretenimento de quinta. Dizem que é bom por que nao precisa pensar. Pensamento mais medíocre impossível. Voltei ao livro e pedi a garrafinha de numeral 3.

Num Galeao incrivelmente civilizado e organizado, comecamos a ter os primeiros choques do retorno. A mente “germânica” em contato com a zona brasileira. Reparo no piso do aeroporto, nas esteiras de qualidade inferior, nos carrinhos de bagagem idem. A altura que as pessoas falam salta aos olhos. Alemao cochicha, sussurra, pra nao incomodar os demais. Brasileiro toca pandeiro quando conversa. Peguei as malas enquanto Ela comprava Kit Kat no Free Shop. Passamos pela alfândega presenciando duas freiras espanholas perguntando em inglês perfeito onde era o Terminal 1. O funcionário da PF, em portunhol macarrônico, tentava responder. É assim que vao receber os turistas durante a Copa?!

No piso superior, após uma higiene básicao, dei uma de alemao e critiquei o pao de queijo da lanchonete carioca. Falei que era de Minas, pra ela nao me levar a mal, mas aquele nao tinha um bom aspecto. Comprei guaranás e salgadinhos pra matar a vontade inicial de sempre. Fiquei com remorso das palavras que saíram como flechas contra a massa tradicional mineira e resolvi amenizar. Pedi um pao de queijo com cafezinho. Pilao, bem tirado, preto feito a asa da graúna. A acucar, branquinha e refinada. Nao aquela mascavo, marrom e de difícil mistura vista nos Flughafen da Vida. Delícia. Relaxei na hora. Nao vou mais reclamar, prometi a mim mesmo. Devolvi os pratos elogiando e fomos fazer hora numa livraria.

A comparacao foi inevitável. Qualquer estacao de trem na Alemanha tem belas e avantajadas livrarias. A do Galeao era uma barraquinha de madeira mequetrefe com algumas das principais revistas nacionais e algumas dezenas de títulos. Pouquíssima coisa, um nada sobre o Brasil. Nem aqueles livros com fotos de carnaval, futebol e natureza havia pra comprar. Saí de maos abanando e impressionado com o tamanho da buzanfa da mulher-andróide na capa da Sexy. O que era aquilo?! A filha do Predador com a Rogéria?! Um monstro espacial.

Na sala de embarque, outro quiosque modesto daquela rede de livrarias que me falha o nome. Até melhor que a mequetrefe anterior, agora com revistas de turismo sobre a Borgonha, a Alemanha encantada dos Irmaos Grimm, Pelé S.A., Debora Secco, revista Piauí, um livro sobre o rei Salomao e Steve Jobs pra tudo que é lado. Aliás, o Brasil e os brasileiros devem tê-lo adotado como guru-mor após tanta idolatria pelos produtos Apple e cultura criada por ele. Brasileiro quer ser cópia fiel de americano, portanto, tudo que lá é criado e consumido aqui acontece o mesmo. A qualidade nao importa muito, só a origem ianque.

No aviao vazio, com 30% da capacidade, voamos pra Confins. Ela, pra variar, cochilava nas alturas. Eu já havia terminado o livro e me preparava pra folhear a revista de bordo da Gol com o Rappa na capa. Um texto do Torero sobre Santos me chamou a atencao. Com Jorge Luis Borges, o famoso escritor argentino dos anos 40, 50 e 60, e o homônimo artilheiro do Brasileiro pelo time local flanando pela cidade-peixe. Uma maneira interessante de escrever um guia turístico.

Pegamos as malas, achamos um taxi grande e rumamos pra casa, finalmente. O relógio mostrava 23:55 quando entramos pela Linha Verde com brisa no rosto e luz amarela na pele. Os carros menores e nao tao velozes, a ótima estrada até chegar no centro, toda iluminada, o senhor dirigindo tranquilo seu ganha pao, placas tantas vezes lidas. Vespasiano, Clínica Serra Verde, Pedro Leopoldo, Cristiano Machado, Antônio Carlos.

O lusco-fusco da noite, um Uno passando com dois rapazes, vidros baixos, som alto, vento da liberdade. Tantas foram as vezes em que fiz o mesmo. Pensei no Guidao e fiz um cálculo mental de quantas vezes teria ido e vindo de Beagá pra Lagoa e vice-versa. Nas férias, nos finais de semana, feriados. Mais de mil vezes, fácil. De Belina, Escort, Parati, Uno, Vectra, Gol, Corsa, Palio, Siena.

Na cidade, taxistas em pé tomando café na esquina. Livres. Sinais sincronizados pela Praca da Estacao. O Othon com poucas luzes acesas e uma recepcao sombria. A Bahia que seguia, desviada pela Afonso Pena. Parque Municipal, Automóvel Clube, Prefeitura. Um táxi fura o sinal. Já passava da meia noite. Algo impensável na Alemanha. Esperam pelo verde mesmo que sozinhos às 4h da matina numa via secundária e chuvosa. Foram criados pra seguir regras e procedimentos, nao para desrespeitá-los. Ordem vs. Desordem. Buracos mil, a sensacao de estar fazendo um rally urbano gracas aos desníveis nas ruas e avenidas mal asfaltadas e acabadas. Na Alemanha, tudo é feito pra durar 50 anos. No mínimo.

A favela beirando o bairro de alto luxo deu o toque final. Descarregamos as malas, Ela sumiu lá pra dentro com os pais enquanto segui pra casa no mesmo táxi. A noite de quinta continuava, invadindo a de sexta. Abri a porta e Janemamae me esperava. Conversamos, abracamos, beijamos. Tomei um banho. Tinha esquecido qual torneira era a quente. Tudo ali, igualzinho. As toalhas, a bagunca do banheiro – que melhorou muito, diga-se – a mesa posta com rosca, biscoito de queijo, um canastra reluzindo, biscoito maria e água e sal. Requeijao. Mas faltava alguma coisa. Aquele cara no sofá, quietinho. Nao tava mais ali. E já era a segunda vez que chego e nao o vejo. Um silêncio ensurdecedor no ar.

Antes de dormir, um “en passant” de Janemamae comecando a me “passar a limpo”. Me deitei às duas e pouco, feliz. Naquela cama de sempre, que foi minha e dele. Nao estava no campo visual, mas no pensamento está sempre presente.

O Brasil é bom. O Brasil é ruim. O Brasil é assim.