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Wednesday, November 14, 2018

Hoje fazem 8 anos sem o Guidão

Viena (como voa...)

Foi num 14 de Novembro de 2010 que meu Pai faleceu. Era domingo e o dia seguinte, a segunda 15, seria feriado da República. Morreu e não incomodou ninguém. Quem tinha que vir de longe chegou a tempo. Meu tio Renato mesmo chegou em New York quando soube da notícia e pegou o primeiro avião voltando imediatamente. Chegou.

O velório foi concorrido e o caixão vestindo seu corpo sem Vida saiu da área do velório rumo ao cemitério sob aplausos efusivos. Parecia uma celebridade. Uma unanimidade.

Nos jornais que cobriam o caixão quando a terra era jogada em cima a notícia do futebol não poderia ser melhor: Galo 4x0 Flamengo. Foi seu último jogo. Ouvimos juntos no radinho, ele meio sem entender direito e eu "traduzindo" os acontecimentos. Tardelli guardou o dele.

Muita coisa muda na Vida em 8 anos. Naquela época eu trabalhava na Ferrostaal e morava em Düsseldorf. Nem tinha entrado na Magnesita ainda. Apesar de estar quase tudo certo, dei a notícia ao Guidão em seu leito hospitalar. Gostou e me incentivou a aceitar o desafio. Já passei pela Magnesita, nos mudamos pra Viena, já saí de lá e sigo agora buscando por uma nova oportunidade.

Há 8 anos eu era casado com a Ju, ainda sou, mas não tínhamos filhos. Costumo dizer que nessa época éramos "solteiros" já que a Vida era tão mais fácil e descomplicada. A logística era uma mamata. Dormir era um verbo conjugado diariamente. Agora Gabriel e Rafael estão aqui nos tornando pessoas melhores. Infelizmente Guidão não pode conhecer nenhum deles. O Vovô Guigui só existe em fotos e na imaginação dessas duas cabecinhas férteis e inocentes.

Em 8 anos o mundo mudou bastante também. O Galo ganhou uma Libertadores em 2013, que eu saí da Alemanha pra BH por uma semana pra assistir ao vivo, e uma Copa do Brasil em 2014. Tem dedo do Guidão nessas conquistas, certeza. Vettel ganhou o primeiro dos quatro títulos justamente em 2010, no mesmo dia 14 de novembro. Hamilton ganhou outros quatro canecos nesse período. O Brasil deu vexame em casa na Copa de 2014 e tomou um chocolate belga esse ano.

Nesses 8 anos meu peso variou, mas não tanto. Me sinto melhor fisicamente hoje do que em 2010. A presença dos pimpolhos me faz cuidar melhor da saúde e me preocupar com o futuro. Tenho que estar em forma não só pra aproveitar tudo com eles, mas com meus netos também.

Após sua morte a casa de Lagoa Santa foi finalmente vendida e Janemamae se tornou independente financeiramente. Hoje tem segurança e faz o que dá na telha. Aliás, sempre fez. Continua trabalhando, pois sempre fez o que gosta mais. Sabe de tudo, lê bastante, assiste filmes e séries, tem uma rede de amigos impressionante, continua agindo com bom senso e sabedoria e é a matriarca da família. Todos a respeitam e admiram. Guidão lá de cima também.

Guidão poderia estar aqui, fisicamente. Curtindo seus seis netos, três meninas e três meninos. Marina, Bruna, Fernando, Gabriel, Maria Luiza e Rafael. Que tropa!!! Imagina o ataque dos seis pra cima dele?! A coluna ia arriar. Se sentaria no sofá entregando-se aos carinhos, amassos, beijos e abraços dos amados netinhos.

É uma pena ele não estar aqui. O que mais queria nessa hora é lhe dar um abraço apertado e um beijo no rosto.

Te amo Guidão!

Tuesday, December 10, 2013

Tip Top

Mettmann (saufen ist auch gut!)

Tib Tap eh um Kneipe em Mettmann, pacata cidade ao lado de Düsseldorf. Ali cidadaos alemaes pacíficos, serenos e aposentados sorvem diariamente vários litros da melhor cerva local. Nunca estive no Tib Tap. Nem sei onde é, apesar do endereco clara e cristalinamente indicado no folder. Folder esse estrategicamente posicionado no lobby do hotel onde me encontro para treinamento sobre vendas. Sim, fazemos treinamentos sobre vendas. E sobre compras também. Cada um defendendo o seu pedaco.

Me lembrei do Tip Top, bar tradicional da rua Rio de Janeiro em Lourdes, Belo Horizonte. Quando eu tinha lá pelos meus 12 a 14 anos me lembro do meu pai, o Guidao, frequentando o local. Ia encontrar os amigos. Seja lá quem fossem, eram amigos do Guidao. Do trabalho?! Provavelmente. Colegas de faculdade?! Acho difícil, Guidao nao era tao fácil assim. Da turma da Barroca?! Mais provável do que os dois anteriores. Cultivava as amizades verdadeiras, formadas lá atrás. Nao que novos amigos fossem impossíveis de ser feitos ou adquiridos, mas ele era de poucas, e boas, palavras. Fiel a si mesmo. E consequentemente aos felizardos eleitos seus amigos.

Ali, no Tip Top, Guidao bebia chopps. Comia junto com a turma as iguarias locais. Chegava cedo pra nao voltar tao tarde. Respeitava a esposa e os cinco filhos. Sempre foi assim. Morria de curiosidade de conhecer o Tip Top. Mas só teria sentido se fosse com ele.

Fui lá bem depois, mais velho, mas nem tanto. Talvez tivesse 20 ou 22, tanto faz. Me sentei, junto de amigos fiéis, e pedi um chopp. Olhei pra um lado. Mirei o outro. A maioria eram homens mais velhos, dos seus 40 e poucos até 50 e tantos. A idade do Guidao naquela época. Me senti mais moleque do que já era. Fui em frente e pedi outro chopp. O garcon olhava com desdém, como se duvidasse que aquela dívida instantânea fosse honrada. Eu e meus amigos, assim como o Guidao e os dele, apenas jogávamos conversa fora. Meio tensos, é verdade. Talvez querendo a aprovacao da turba de beberroes. Mas nao se consegue isso assim, da noite para o dia. É preciso frequência religiosa e disciplina.

Olhamos o cardápio. O que será que o Guidao pedia quando olhava essas páginas gastas?! Tudo parece saboroso. Frango a passarinho?! Pode ser. Queijo paxá?! Nao combina com ele. Ou seria um salsichao com salada de batatas?! Provavelmente sim. Pra relembrar seus dias em Rothenburg ob der Tauber e os anos trabalhando em empresas alemas e com alemaes.

Pedimos uma. Tensao na mesa. "E aí, parece ser o prato certo." "Vi umas duas mesas pedindo o mesmo." Acertamos na mosca, mesmo sem saber. Esse era o prato preferido dele. Repetimos aqui na Alemanha, em Düsseldorf. Comeu com a melhor cara do mundo. Bebia goladas da famosa Altbier local como se todas as cervejarias da Alemanha fossem fazer greve de três meses no dia seguinte.

Três anos se passaram, desde o dia 14 de Novembro, que sua presenca física nao mais nos alegra. Aquele abraco cabeludo e o sorriso falando "Pedrao" nao é mais ouvido. Mas é como se nada tivesse acontecido. A saudade aumente absurdamente a cada dia, semana, mês e ano que passa.

A vontade de te abracar nao tem tamanho.

O Tip Top continua lá, no mesmo lugar: http://www.bartiptop.com.br/

E você também, no meu coracao.

Wednesday, July 31, 2013

Galo conquista as Américas

Meerbusch (calor baiano na Alemanha)

Este post foi originalmente escrito no saguao do aeroporto de Guarulhos dia 27 de Julho de 2013 aguardando o vôo pra Europa.


Guarulhos (ô ô ôôôô ô, vai pra cima deles Galoooo!!!)

Fazem cinco dias que só visto o manto alvinegro. Estou meio surdo de tantos foguetes. O pescoco ainda dói na nuca da tensao de quarta-feira. Sair de Düsseldorf pra ver a finalíssima da Libertadores foi uma das melhores coisas da minha Vida.

Se nao viesse e o Galo ganhasse jamais me perdoaria. Sao 39 anos torcendo e sofrendo. Gritanto campeao apenas para títulos inexpressivos como o Mineiro e a Conmebol, que nem existe mais. Agora chamam de Sulamericana embora o nível seja mais baixo. Precisávamos mais do que qualquer time do planeta de uma consagracao. Uma redencao.
Nos 42 anos entre a conquista do Brasileiro de 1971 e a noite de 24 para 25 de Julho de 2013 a Massa alvinegra sofreu. Teve paciência e uma perseverança inacreditáveis. Soube acreditar no projeto de longo prazo do maior presidente da História do Atlético, Alexandre Kalil. Maior mesmo que o próprio pai, seu Elias.

(Um negao gordo e sacudido acaba de sentar ao meu lado. Elogiou a camisa alvi-negra e perguntou se eu tinha ido no jogo. Sacou um spray do bolso e borrifou no preto sapato direito. E agora o esquerdo. Me deu parabéns e disse ser “atleticano mesmo, de Uberaba”)
A espera foi recompensada. Todos os fantasmas foram exorcizados, especialmente o de 1977 naquela fatídica disputa de penalties contra o Sao Paulo pelo Brasileirao. O Galo terminou o campeonato como vice-campeao invicto, mas viu o rival dar a volta olímpica em pelo Mineirao. Castigo maior, impossível. Meu pai me contou que nunca viu uma multidao tao silenciosa na Vida após o fim do jogo. Clima de velório nas avenidas Abraao Caram, Antônio Carlos e Catalao.

Após conquistar a Libertadores todos os pés frios foram absolvidos. Meu irmao Marcos, vulgo Negao, é um dos maiores. Ou era. Teve ano que o Galo ganhou todas as partidas em casa menos uma, um empate. E este fora justo o jogo em que compareceu.
A fama de azarado do técnico Cuca acabou. Fez substituicoes ousadas ao longo do torneio, jogou sempre no ataque, comandou com pulso firme jogadores tarimbados como Ronaldinho, renegados como Jô, promessas como Bernard, o zagueiro  “selecao” e capitao Réver, o desacreditado e agora Sao Vitor, e até mesmo um Tardelli apaixonado pela torcida, mas tendo que provar seu valor a cada partida.

Kalil filho dedicou o título ao pai, Elias. Antes de quarta era considerado o melhor entre todos os presidentes. O filho o supera e coloca o Galo num nível jamais alcancado. Já estamos na Libertadores 2014. Vamos disputar a Recopa 2013 contra o vencedor da Sulamericana. O Mundial no Marrocos em dezembro é uma realidade. Ainda podemos buscar o Brasileiro, já que estamos apenas 8 pontos atrás do líder Inter, mas com dois jogos a menos. E de lambuja tem a Copa do Brasil.

#euacredito

O EU ACREDITO foi uma das coisas mais belas e impressionantes que já presenciei. Uma verdadeira licao de Vida. Acreditar sempre, incondicionalmente. A Massa carregou o time rumo a$o título. Nao parou de apoiar um segundo sequer ao longo do campeonato, mas principalmente na final contra o tri-campeao das Américas, o Olympia do Paraguay.

Confesso que após o primeiro tempo, se continuassem jogando daquele jeito, achei que nao daria. O gol de Jô logo no primeiro minuto do 2° tempo incendiou o Mineirao. Assisti a partida inteira em pé, sem sair do lugar pra nada. Nao bebi água, cerveja ou suco. Nao fui mijar. Nao me sentei. Fiquei ali, na antiga Galo Prates exatamente na linha divisória do gramado à espera de um milagre.
O 1° tempo foi todo ao lado do amigo e irmao Chris Lua. Tenso e de poucas palavras. No intervalo ele sumiu. Contou depois que sua presença tava dando azar. Imaginem! Assistiu a segunda metade da peleja no bar, bebendo e ouvindo no radio. Nao viu os gols, nem a prorrogacao, nem os penalties. Estratégia de doido, mas que deu certo. Certíssimo.


Meu já citado irmao Marcos Negao fez o mesmo. Ficou o 2° tempo todo no bar vendo pela tv. Aliás, meus irmaos que gostam de futebol estavam todos no estádio. Rato ficou no lugar de sempre, atrás do gol junto com a Galoucura e ao lado do fiel companheiro Gazzi, uma comédia ambulante. Elaino e Leocádio ficaram por ali também, por coincidência ao lado do Tó e Tunicao. E Janemamae, Murgas e Titas em casa torcendo feito doidos. Guidao estava no meu bolso em forma de RG e no coracao, sempre. Tem dedo dele nessa conquista, pode ter certeza.
No segundo gol, custei a acreditar. A bola parecia estar em camera lenta. Assim como a subida e o erro no tempo de bola do zagueirao Leo Silva. Ele rompeu os ligamentos do ombro mês passado e jogou as finais no sacrifício. Nao pode sequer levantar o braco, por isso subia todo duro e desengoncado pras cabecadas.

Meu palpite era 2x0 no tempo normal e mais um gol na prorrogacao. Mas se o sofrimento nao for no nível máximo nao é Galo. Cuca poderia ter colocado o Guilherme e nao o Alecssandro quando fez a primeira substituicao. Na meia hora final de jogo o ataque estava muito enfiado e dependia das jogadas de Rosinei e Josué. Este ultimo foi um monstro e o melhor em campo, na minha humilde opiniao. Na da Itatiaia também.

Sao Vitor, travessao e festa
Vitor dizia que quando se ganha o rótulo de santo é preciso fazer um milagre por dia. Estava certo e fez mais um ao pegar a primeira cobranca paraguaya. O fantasminha de 77 rondava a Pampulha ali de longe, sobrevoando marotamente a lagoa. Mesmo sendo escorraçado do Independência após a antológica vitória contra os Newells Old Boys argentinos, ele teria que ser morto no local de nascença pra nunca mais voltar.

Os atleticanos bateram todas as cobranças com perfeiçao e no canto direito do goleiro fazedor de cera professional, o parente Silva. O travessao explodiu de alegria, extase e delírio ao receber a quinta e última cobranca do Olimpia. O Mineirao foi a loucura e entrou em catarse coletiva. Depois veio um sentimento instantâneo de alívio. Do EU ACREDITO ao EU NAO CONSIGO ACREDITAR numa fracao de segundos.
Abracei quem estava ao meu lado como se fossem irmaos. E sao mesmo. Na saída vi uma senhora de pelo menos 80 anos indo embora amparada pelos filhos, feliz que só ela. Licao de Vida, mais uma. Os amigos aparecendo pelo caminho, vibrando, dizendo que “tive a manha demais” de vir pro jogo. Sempre respondia dizendo que jamais ficaria de fora dessa festa. Do Mineirao pra sede do Galo em Lourdes foi um pulo. Foguetes incessantes, algumas cervas, novos encontros inesperados. Nenhuma briga ou confusao. Apenas alívio pelo fim de uma era e o início de outra.

Esperamos tanto, mas valeu cada nova licao aprendida nas derrotas. A primeira que lembro e uma das mais traumáticas, contra o Flamengo na decisao do Brasileiro de 1980. Guidao meu pai me tornou atleticano. Estava lá na sala de tv nesse dia, confiante na vitória que nao veio. Depois a roubalheira no Serra Dourada pela Libertadores de 81. José Roberto Wright, o sr. é um FILHO DA PUTA. As várias eliminacoes em semi-finais pelo Brasileiro pelo Coritiba em 85, Guarani em 86, Flamengo de novo em 87 após fazer a melhor campanha e ter todos os recordes do torneio. Em 91 o algoz foi o Sao Paulo. Nossa fase ruim foi acompanhada da ascencao do rival. Nova derrota na final do Brasileiro em 1999, dessa vez para o Corinthians. Em 2001 para o inexpressível Sao Caetano novamente nas semis. Isso sem falar nos carrascos da Copa do Brasil, torneio que jamais chegamos nas finais. Criciúma, Goiás, Vasco e até um nanico chamado Brasiliense já eliminaram o Galo.
A vitória é mais do que esperada, o objetivo final. É vislumbrada, sonhada, imaginada e até celebrada antes mesmo de acontecer. Engole-se fácil e saem todos lépidos e fagueiros celebrando por aí. A derrota, e foram tantas, ensina. É muito mais sofrida e difícil de digerir. Tem um inconfundível gosto amargo. Inesquecível. E se?! O imponderável se apresenta. Imagina-se o que teria acontecido. Aquela ilusao de felicidade que estava ali, a meio segundo, a dois passos do paraíso, se esvai, evapora. O grito de campeao engasgado na garganta durante 42 anos finalmente saiu. O estrondoso urro varreu a cidade como um furacao. Mas valeu a pena esperar cada segundo. Cada mes e cada ano. Após as várias eliminacoes, derrotas, e canecos escorregadios que passaram pelas maos de tantos jogadores talentosos  a Massa Atleticana foi se galvanizando, foi ficando mais forte e resiliente. Como uma corda que se arrebenta facilmente na primeira esticada, mas depois volta mais forte e bem amarrada. Com mais fios e entrelaçada. Até que se torna indestrutível e inabalável.

Agora uma nova era se inicia. Que venham os próximos 42 anos, mas cheios de conquistas, orgulho e glória de ser atleticano. E que justifiquem o Amor incondicional que a Massa tem pelo time.
Galo forte vingador, vencer é o nosso ideal!

ps. se ganharmos o Mundial contra o temível Bayern München as marias terao que escolher outro planeta pra viver.

Wednesday, November 14, 2012

2 Anos...

Meitingen (cerveja à altura do homenageado)

Se o Guidao tivesse vindo fisicamente comigo pra cá, certamente estaria agora tomando um banhozinho tranquilo já pensando na cervejinha de logo mais.

Engracado que saí de casa hoje com aquela camisa polo da PK e um pulover azul marinho da mesma marca sempre usados por ele. Ontem já havia pensado no dia de hoje.

Já passou muito tempo. Parece que foi ontem. Ele morreu. Ele está mais vivo do que nunca. Me olho no espelho e o vejo fazendo a barba, estufando as bochechas pra tirar todos os cabelinhos. Cortando unha entao me sinto um clone. Cuspido e escarrado. Só falta lixar direitinho, mas me falta a paciência que ele sempre teve. Talvez venha com o Tempo.

Olho para os meus pés. Sao os dele. Parecem um paozinho francês, só que nao tao rechonchudos e lisinhos. Os pêlos estao praticamente no mesmo lugar. Andam meio descascados na sola de tanta cachaca, que ele nao tinha por que bebia muito menos.

Era um scotch na sexta a noite acompanhado de queijos, castanhas e amendoins. E uma cervejinha, geralmente em lata, aos sábados pela manha após as atividades em Lagoa. No canil, no quartinho de ferramentas cheio de porcas e parafusos em vidros de Hellmanns, no sótao quando subia naquela escada fuleira quase desmontando. Achava sempre que ele poderia cair lá de cima e estatelar no chao.

Led vinha e ele o repelia na primeira investida. Na segunda já era mais dócil, o Guidao. E na terceira o sem vergonha do alemao, o cao pastor, conquistava a rara impaciência do dono. Alguns afagos e pronto. Saia com o rabo versao helicóptero pelo lote afora.

O papo na cozinha era o prenúncio do almoco. Além das habilidades de Janemamae o tempero das conversas ajudava a marinar a refeicao. O tempero da MPB só melhorava o delicioso.

Cochilava feito um justo logo em seguida. Nao só nos finais de semana como também de segunda a sexta nas empresas que tiveram o privilégio de terem seu nome na folha do holerite. Armava um aparato digno de James Bond. Travesseiro na nuca, pés na mesa, bracos apoiados, embora firmes, na cadeira. E assim cochilava por no mínimo meia hora. Algumas salas possuiam sofás. Um luxo, para o sofá. Até relutava em trancar a porta com medo de varar a vespertina. Invariavelmente sonhava e acordava revigorado para mais um período na labuta.

Hoje veio comigo pra Bavária. Tomamos três chopps e lemos um pedaco de livro. Assim como subiu pra ONG ao lado de Janemamae ouvindo tudo pacientemente. Nao reclamou do tráfego por que, se quisesse, sairia voando por aí dando risada dos reles mortais. Logo ele que nunca foi um deles.

Passeou pelo centro com o Rato em busca de borracha, tecidos e capital para alimentar a potencia do MMA mineiro e nacional. Estudou com o Lucas e deu boas risadas nas novelas da tarde. Esperou ele tomar banho às 5h em ponto pra continuar aquele romance policial tao inusitado depois do café forte, quente e doce com queijo canastra. Ali, na janela, apreciando a vista velha conhecida.

Em Pedra Azul aconselhou, secretamente, ao Negao na tomada de decisoes entre continuar ou nao com um treinamento importante para a turma de funcionários. Voltaram cautelosamente pela 262 entre curvas e scanias medonhas.

Quando Marinoca ameacava manter a pirraca, de repente olhava para o lado e obedecia a mae Helena. Brunicolas era só alegria, mas de quando em vez mira o vazio. Dá um sorriso sapeca para o avô que nunca viu e continua a brincar.

Se em casa Titas pensa em cozinhar um lagarto, logo desiste e faz um lombinho com farofa. Ele se senta ao lado, serve-se de limonada e mampa tudo lambendo os beicos. Só nao pede uma cachacinha no final por que seria demais.

Nalaurinha mostra Bisnago toda orgulhosa. Licao conta causos das fazendas das Gerais e Wilza se diverte como o novo menino do Rio. Sentado, a cadeira só balanca escutando atentamente.

O feijao amigo do irmao Renato tá quase no ponto. Faltam dois goles de whisky pra ficar no jeito.

Você faz muita falta, Guidao. A vontade que tenho de te abracar é do tamanho do Mundo. Mas ao mesmo tempo você nao faz falta alguma por que eu te levo pra onde vou.

Monday, November 14, 2011

Há um ano atrás...

Düsseldorf (... saudades...)

Há exatos 365 dias atrás eu estava em Belo Horizonte. Vivia talvez a experiência mais forte da minha Vida. E ao lado do meu irmao, Rato.

Juntos cuidamos para que nosso Pai partisse com o máximo de conforto e o mínimo de sofrimento. Sua alma se libertou do cárcere chamado corpo e flutuou. Na verdade, sublimou. Livrou-se da carcaca que por 69 longos anos a acolheu. Subiu leve e solta. Pronta pra outra missao. Dessa vez mais nobre, talvez.

Por aqui, o que havia de ser feito tinha sido. Cinco filhos criados, esposa fiel e companheira leal, exercício da profissao de engenheiro honrada com competência, honestidade e solidariedade com os colegas que acabaram virando amigos. Na família nao era diferente. O do meio era querido pra cima e pra baixo.

Nao era de muitos amigos. A timidez falava mais alto. Mas a família e a Vida caseira mais ainda. Gostava de ver novelas com o do meio, engracado isso, tomar seu whisky com castanhas na sexta assistindo a um bom filme. Consertava as "coisas" da casa de Lagoa Santa. Tratava todos os funcionários com respeito e justica. E muita solidariedade. Ajudava quando podia. E se nao tinha jeito, arrumava um.

Nao teve Pai, aliás, teve sim mas o perdeu com apenas 6 aninhos. Viu no sogro, meu xará, um substituto a altura. Melhor, impossível.

Falava alemao. Ganhou passagens da Lufthansa num sorteio da empresa. Sempre soube que era sortudo. Morou 3 meses em Rothemburg ob der Tauber, no norte da Bavária. Saia de casa às 5h da matina quando queria fotografar a cidade. A horda de japoneses nao permitia chapas em horários comerciais.

Dependurava os queijos Polenguinho no telhado, pela janela do sótao, e quando a fome apertava na alta madrugada ali estavam eles. Fresquinhos e prontos pra escorregar até o estômago.

Dirigia bem, apesar das várias encostadinhas e arranhoes. Já arrancou um incauto condutor de Kombi ao sofrer uma batida traseira em sua Belina zero. Nos levava até Joaíma numa epopéia que durava entre 12 e 15 horas, dependendo da estrada e do número de paradas. Uma vez, o do meio caiu pra trás num almoco em Governador Valadares. Um corre-corre danado, mas nao foi nada. Só susto.

Nasceu em Campo Belo, filho de caixeiro viajante. De nome Tonico Sapeca. Já fomos a Candeias, logo ao lado, na fazenda da Dona Elza. Era Elza mesmo?! Íamos visitar a Marli, amiga de Janemamae. Me lembro da camionete C10 do Adelino. Era bom andar na carroceria, sentir o vento no rosto.

Ele nunca teve uma camionete, mas gostava dos Fords. Depois dos Fiats. E já teve Fuscas, como quase todo mundo. Aprendeu a dirigir num deles. Andou muito na garupa de Lambrettas no tempo da Turma da Barroca. Era chamado de Professor, pois dava aula de Latim e Matemática. Jogava no gol do Bangu, o time do bairro.

Nunca foi bom de bola, pelo menos nunca fez pose, mas era louco pelo Galo. Alucinado. Desses que nao perdia um jogo, seja pelo rádio ou televisao. Ficava puto na hora, mas depois tava tudo bem. Aguentava a zoacao das marias, mas soltava das suas. Sempre com um humor sutil. Rachava de rir ao ler a tirinha do AFO. Sempre me mostrava, às gargalhadas.

Fazia um cafezinho maravilhoso quase toda tarde, lá pelas 5 horas. Pegava um copo lagoinha, enchia pela metade, cortava uma fatia de Canastra e ia pra janela. Ali, ficava olhando pro nada. Apreciando a vista que conhecia como a palma da mao. Talvez observasse o movimento, apenas. Ou olhasse para o céu, procurando alguém.

Nao sabia cozinhar, mas comia que era uma beleza. Janemamae às vezes o advertia, mas levemente. Ele sempre se defendia dizendo que "mas tá bom demais!" Seu prato preferido?! Macarrao à bolonhesa. Foi ao Bolao no Santa Teresa uma última vez. Comeu feito um lobo afonso, como se referia a quem era glutao. Tinha uma barriguinha saliente, charmosa. Acumulando as latinhas de Skol que bebia aos sábados após dar uma geral na casa de Lagoa Santa. Sexta, whisky. Sábado, cerveja. E nao mais. Tinha hábitos de um japonês.

Às vezes passava da conta, mas era muito engracado. Ficava leve e solto, como todo bêbado. Contava piadas, ria alto, abracava todo mundo. E no final, caia no sono dos justos. Mais do que merecido.

Me ensinou a dirigir. Explicou os mistérios do outro sexo e como fazer pra ter sucesso nessa área. Orientou na escolha da profissao. Ouviu meus problemas e ajudou-me a resolvê-los. Nunca os solucionou pra mim. Até andar de bicicleta foi com ele. No apartamento da Santa Rita Durao. Me lembro como se fosse hoje. Achei que ele ainda tava segurando, mas eu já andava sozinho naquela bicicletinha verde.

Conversava de tudo. Era ponderado. Sabia ouvir. Uma de suas maiores qualidades, senao a maior. Nao entrava em discussao besta. Fingia-se de surdo, mesmo quando comecou a ouvir menos, pra escutar apenas o que lhe interessasse. Isso se chama sabedoria.

De vez em quando, parecia que nao estava na Terra. Era como se tivesse sublimado. A alma pegara um elevador e tava dando umas bandas lá em cima. De repente ouvia-se um "hein". Era a senha da alma retornando. Continuava de onde havia parado.

Apanhei muito dele, merecidamente em 95% das vezes. Os outros 5% coloco na conta das vezes em que nao fui descoberto. Na verdade, acho que merecia mais. Apesar disso, foi o suficiente. Aprendi a licao. As licoes. Continuo aprendendo, mas agora sem ele pra orientar, ponderar, ajudar, conversar, ouvir, alimentar, me fazer sonhar.

Tentei ficar triste umas vinte vezes hoje, mas nao consegui. Ao ler tudo isso, sinto que é impossível. A única coisa que fiz foi assistir a uma missa, em alemao, e agradecer pela sorte única de ter sido seu filho. Precisa mais?!

Guidao, eu te amo!

ATUALIZANDO: Informacoes futebolíticas sobre o passado do Guidao chegaram agora através do Rato, emissário oficial da FIFA. Segundo ele, num fôlego só, "Papai não jogava no gol e sim na zaga, era zagueiro de recurso, orientado pelo gênio Cambão, saia jogando de cabeça erguida e soltava para o meia fazer a ligação com o ataque, em bola alçada na area nunca cabeceava para o meio da área, espanava para a lateral do campo para que não houvesse rebote, fez alguns gols de cabeça em jogadas de corner e ja fez o gol que pelé nunca chegou a fazer, emendando do meio campo e encobrindo o goleiro desavisado!!"

Wednesday, November 09, 2011

Radio Truta - Neil Young

Düsseldorf (home again)

Impossível nao pensar nele, Guidao. My Old Man.



Old man look at my life,
I'm a lot like you were.
Old man look at my life,
I'm a lot like you were.

Old man look at my life,
Twenty four
and there's so much more
Live alone in a paradise
That makes me think of two.

Love lost, such a cost,
Give me things
that don't get lost.
Like a coin that won't get tossed
Rolling home to you.

Old man take a look at my life
I'm a lot like you
I need someone to love me
the whole day through
Ah, one look in my eyes
and you can tell that's true.

Lullabies, look in your eyes,
Run around the same old town.
Doesn't mean that much to me
To mean that much to you.

I've been first and last
Look at how the time goes past.
But I'm all alone at last.
Rolling home to you.

Old man take a look at my life
I'm a lot like you
I need someone to love me
the whole day through
Ah, one look in my eyes
and you can tell that's true.

Old man look at my life,
I'm a lot like you were.
Old man look at my life,
I'm a lot like you were.

Tuesday, August 09, 2011

Hoje tem Festa no Céu (e na Terra também)

Hilden (nada como um dia depois do outro)

Hoje Guidao faria 70 anos se ainda passeasse pela Terra com sua calma e sabedoria. Tem festa no céu com certeza. Ele vai se juntar ao tio Wagner, um de cada lado da Dona Ermíla, minha vó. Se derem sorte ainda trombam com Tonico Sapeca pra fuzarca ficar maior ainda.

Meu irmao Murgas e seu ótimo blog também fazem anos, 34, seguindo firme em sua revolucao interna. Mudar nao é fácil, nunca foi. Ele achou que fosse ficar sem companheiro de aniversário, mas eis que ontem de manha, 8 de agosto de 2011, nasce Bruna trazendo alegria, felicidade, renovacao e paz para todos nós.

Parabéns mamae Helena, papai Leocádio e Marinoca. A família agradece mais uma vez por essa bencao.

Comemorem esse dia, aliás TODOS os dias, por que só se vive uma vez.

Wednesday, November 17, 2010

Guidão 69

Beagá (você está sempre sorrindo pra mim)

Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem, ficam encantadas.

Você Guidão, criador de uma Vida encantadora não poderia fugir dessa frase.

Esteve presente desde os primeiros instantes da minha Vida. Ajudou Janemamãe, minha vó Zuzu e o vovô xará Pedro a me criarem. Me deu os primeiros banhos, me ensinou a dar os primeiros passos. Me lembro nitidamente de quando aprendi a andar de bicicleta ali na Santa Rita Durão. Aquela magrela verde que você segurava no banco e de repente me soltou e segui sozinho.

Na Pampulha a bagunça descendo a rampa de velotrol com meus irmãos, as árvores que subi pra te olhar lá de cima e ver seu olhar orgulhoso. Quantas viagens fizemos juntos ou que você me proporcionou fazer. Aquela a Porto Seguro quando vi o mar pela primeira vez lá do alto num fim de tarde na praia ainda selvagem. Uma cena inesquecível. Depois ao Rio onde fui ao Corcovado pela primeira vez. E as tantas viagens a Joaíma pra visitar Tia Vânia e os primos e amigos. Você criou uma cama na tampa sobre o porta-malas do carro pra nos dar mais conforto, lembra?! Tampa essa que virou tendência obrigatória nos carros de hoje.

Guidão, você foi me ensinando ao longo da Vida conceitos importantes como respeito, admiração, Amor, liberdade, humildade, simplicidade, honestidade, sinceridade, solidariedade entre tantas outras "dades". É difícil medir tudo isso. Só saberei o valor de todos estes ensinamentos ao longo da minha Vida inteira. Em cada situação boa ou ruim que enfrentar você estará ao meu lado me mostrando exatamente o que fazer, como agir.

Você que quase virou padre frequentando o seminário no Rio de Janeiro na rua Almirante Alexandrino entre os 9 e 15 anos, mas graças a Deus desistiu da idéia. Entrou no Maracanã num desses encontros da Igreja Católica levando uma imagem santa. Você tinha apenas 9 aninhos. E depois voltou pra BH se matriculando no Estadual Central aproveitando da liberdade imensa e inédita que o colégio te dava. Caiu na gandaia, seu desempenho escolar foi lá embaixo, mas você percebeu que o caminho certo não era esse. Foi de um extremo ao outro, balançou como um pêndulo até se equilibrar no meio. Talvez isso explique um pouco por que meu comportamento varia entre extremos, do silêncio ao exagero, de 8 a 8000. Você também era um exagerado incorrigível.

Equilíbrio talvez seja a palavra que melhor defina sua personalidade. Equilíbrio pra criar CINCO filhos tão bem criados. Equilíbrio para começar, manter e cultivar um relacionamento com uma pessoa de personalidade tão diferente da sua como Janemamãe. Equilíbrio por estar sempre presente em casa, mesmo sendo um Engenheiro que normalmente viaja muito. Dia desses no hospital, Guidão, você me contava das propostas de trabalho que recebeu para sair de BH, mas recusou todas por que seria bom só pra você e não pra família inteira.

A maior obra que um Homem pode criar é sua família, seus descendentes. É a continuação da sua própria Vida, seus valores, suas crenças e fisicamente a extensão do seu corpo. Somos uma família unida e feliz. Estável, equilibrada, sensata e sábia. Como você, Guidão!

Sta. Rita Durão 1 e 2, Pampulha, Nunes Vieira, Pampulha de novo e rua da Bahia. E passando por Lagoa Santa, sempre. Estes foram nossos lares ao longo dos 36 anos e 10 meses em que tive o privilégio de conviver com você. Ser filho de um mestre é uma dádiva!

Decidi ser Engenheiro Mecânico pra continuar seus passos. Fiz o Doutorado que você tanto me incentivou por que sonhava em morar na Europa. Hoje, por coincidência ou não, vivo na Alemanha trabalhando para e com alemães. Falo o idioma que via e ouvia você falar pensando ser algo impossível de aprender. Te achava e continuo achando um cara genial. Sigo seus passos entre Dusseldorf e Essen a cada manhã quando vou trabalhar. Você, Guidão, que trabalhou para e com os alemães na maior parte da sua carreira. Culturas e idiomas diferentes, maneiras de pensar ou atacar um problema completamente opostas, mas a sabedoria e a diplomacia em lidar com as situações é que fizeram e continuam fazendo a diferença.

Tive o privilégio este ano de estar aqui com você em quatro oportunidades. Nos vimos em Abril durante três semanas. Você me repreendendo, mas ao mesmo tempo rindo por dentro, quando me via chegar do Mercado Central num sábado a tarde chumbado, como você dizia. Depois em Agosto passamos seu aniversário e do Lucas e o dia dos Pais juntos. Vim rapidamente em Setembro, só por uma noite e uma manhã, mas o suficiente pra matar a saudade. Guidão, quando eu ia viajar cedinho você acordava às 4 e meia da manhã só pra fazer café pra mim me acompanhando ali, naqueles momentos silenciosos no escuro da madrugada de uma manhã que ainda demoraria a nascer.

E quando cheguei no dia 30 de Outubro te vi diferente, magro como nunca, meio abalado. Fiquei preocupado, mas achei que você sairia dessa de novo, como sempre saiu. Já dava sinais de que a doença traiçoeira tinha te pegado de vez, mas recusei-me a acreditar. Fui ao Rio dia 04 de Novembro quando você foi internado. Na praia do Leme conversava com Daniel, o Rato, mais um de seus filhos queridos. Eu dizia que você não merecia mais sofrer, que tinha um orgulho imenso de ser seu filho e que sabia do orgulho que você sentia e sente por mim. Já estávamos antevendo o que aconteceria.

Dos dez dias no hospital, dormimos seis noites juntos. Depois de tanto cuidar de mim, o mínimo que eu poderia fazer era retribuir a altura. Vimos TV, jogos do Galo, conversamos, te dei água e outras bebidas, mingau, iogurte e vi você recebendo uma incontável quantidade de remédios: Plasil, Dramin, Nauseadron, Dipirona, Dimorf, nomes que ficarão na minha cabeça ainda um bom tempo. Te dei banho uma manhã. Foi um dos melhores momentos desses 10 dias. Temperei a água quentinha como você gostava, lavei sua cabeça e seu corpo já cansado e diferente. Esfreguei cada canto da sua pele, como você tantas vezes fez em mim. Depois fiz sua barba, com sabão mesmo. Você ficou lindo, Guidão!

Fiz também massagens nas suas costas com a pomada milagrosa do Vovô Pedro e também nos seus pés. Fiquei pensando na infinidade de lugares por onde você andou e pisou, em cada passo que deu pra chegar aonde chegou. Olhei para suas mãos, fortes, lúcidas, hábeis, inteligentes. Nos cálculos que fez como engenheiro, nas palavras que escreveu ou digitou, nos gestos, nas infinitas vezes em que lavou a louça da cozinha, nos consertos das casas, principalmente em Lagoa, nos quilos e malas que carregou, e até nas palmadas que me deu merecidamente.

Na quarta você me deu um susto com aquela dor lancinante na coluna que insistia em ficar.  Nem as massagens com a pomada Vovô Pedro adiantaram, mas conseguimos superá-la. Você começou a tremer em seguida morrendo de frio. Estabilizou-se após ser medicado, mas foi assustador.

Na quinta passamos a noite mais tranquila de todas. Você dormiu feito um justo de 20h as 6h do dia seguinte e nem acordava pra receber os remédios na veia. Lembra dos conselhos sobre amizade e liberdade que você deu ao Marcão e a mim?! Jamais esqueceremos.

Na última sexta de sua Vida, o último dia útil da sua carreira, você comentou uma proposta técnica do trabalho orientando o pessoal, como sempre fez. Realmente, Guidão, você cumpriu o prometido: trabalhar até o último dia que conseguisse!

No sábado à noite escutamos juntos o jogo do Galo contra o Flamengo, nosso arqui-rival. Pedi aos deuses do futebol uma última vitória pra você. A cada gol você me perguntava quem tinha feito e vibrava em seguida. Obina, Renan Oliveira, Tardelli e Renan de novo. Goleamos o urubu por 4x1 e as marias perderam roubado no mesmo dia para o Corinthians. Na hora do penalty no Gordo, que me pareceu inexistente, você disse "melhor ainda!" com um sorriso no rosto. Missão cumprida Guidão, mais uma.

Janemamãe me pediu pra ficar naquela noite novamente com você ajudando o Rato. E quando ele chegou pra dormir trazendo um colchonete você perguntou ironicamente se faríamos ali um acampamento. O Rato chegou com a camisa do Galo e te mostrou os gols na internet. Você vibrou mais uma vez. Acho que se sentiu confortável ao ver dois de seus filhos ali com você.

As cenas seguintes durante a noite foram como num teatro. Tudo parecia estar muito bem ensaiado. A cada desconforto que você sentia Guidão, levantávamos prontamente pra te ajudar a sair da cama e se sentar na cadeira. Quinze minutos depois você queria voltar da cadeira pra cama e lá estávamos pra te auxiliar. A verdade Guidão, é que você não tinha mais lugar, não encontrava mais uma posição neste Mundo. Sua respiração ofegante, auxiliada pelo oxigênio, já mostrava que sua alma precisava respirar outros ares. Às duas da manhã você perguntou que horas eram. Respondi e você falou que tava muito cedo. Depois entendi que era cedo demais pra partir. Daria muito trabalho pra todos se fosse naquela hora. Me disse que tinha que ir ao Detran retificar uns documentos. Respondi que era domingo e no dia seguinte feriado. Só assim pra você parar de se preocupar.

Seu intestino já havia parado alguns dias atrás. Depois foi o rim dois dias antes. Quando sua glicemia baixou às 3h da matina e você ganhou uma dose cavalar de glicose comecei a pensar no fígado que estava se desligando. O Dr. Alexandre, na verdade um anjo que veio te buscar, explicava o quadro clínico com clareza e sinceridade, mas sempre escolhendo as palavras certas com uma sensibilidade impressionante. Parecia parte da família. Desconheço o quanto ele sabe de medicina e oncologia, mas de relações humanas, carinho e psicologia é um mestre. Menino novo que vai longe, tenho certeza absoluta.

Às 5h da manhã, finalmente, você encontrou uma posição e dormiu um pouco. Acordou e pediu pra se sentar na cadeira. Quis ir ao banheiro pela última vez e foi caminhando amparado pelo Rato. Se sentou, disse que queria trocar a fralda e o short do pijama. Levantou-se e voltou caminhando pra cama. Subiu com dificuldades, deitou-se ajeitando o calção do pijama e encontrou uma posição confortável rapidamente. Te perguntei se tava tudo bem, se sentia alguma dor. Você disse que não, não sentia nada. Então peguei um copinho da água espiritual que tia Lucy trouxe na sexta e te dei. Falei que te faria bem se bebesse. Foi a última coisa que você bebeu Guidão.

Depois disso seus olhos miraram pra cima. Ficaram arregalados, olhando alguma coisa no alto. Talvez minha avó Ermíla já te esperando. Talvez nos novos ares que você queria respirar. Ficou nessa espécie de transe por uns 15 minutos. Aos poucos sua luz foi diminuindo, a bateria acabando. Não reagia mais às nossas perguntas. Dr. Alexandre chegou e ainda tentou uma nova dose de glicose, mas foi em vão. Vi seu último suspiro e percebi que sua barriga já não subia nem descia mais. O médico conferiu os sinais vitais. Olhei para o relógio: 6 e 50 do dia 14 de Novembro de 2010, domingo. O dia seguinte era um feriado. Até com isso você se preocupou.

Guidão, te agradeço eternamente por ter dado ao Rato e a mim a honra de estar com você nos momentos finais.

No velório e enterro confirmei o que já sabia: que você era uma espécie de unanimidade, mas que dessa vez não tinha nada de burra, pelo contrário. Achava que você não tinha amigos, mas vários da turma da Barroca de 40 anos atrás apareceram pra te cumprimentar. Sabia do seu apelido de Professor, criado após seu retorno triunfante do seminário quando começou a ensinar Matemática, Latim e Português pra turma. Me disseram também que era chamado de Gambá por que comia tudo e muito. Como a tigela de arroz doce que vovó fez num sábado a noite como sobremesa para o almoço de domingo e você, chegando mais cedo em casa, comeu metade.

Pessoas de todas as partes de todos os lados da família, dos vários lugares onde você trabalhou, mas também onde Janemamãe, Helena, eu, Lucas, Marcos e Daniel trabalhamos. Amigos de todos nós. Vizinhos da rua da Bahia, do Amendoeiras, coroas de flores dos amigos ausentes que não puderam vir. Guidão, por um momento pensei que você fosse um político famoso ou artista de cinema. Até o veterinário do Led, nosso cachorro de Lagoa Santa, apareceu. E o Agnaldo, caseiro da casa?! Era como outro filho dizendo que ninguém nessa Vida o havia ajudado tanto quanto você!

A frase que mais me marcou foi a do Bernardinho que chegou me abraçando e dizendo "Pedrinho, parabéns pelo Pai que você teve!"

Me senti muito mais aliviado do que triste durante a cerimônia. Olhava para o alto e te via sorrindo pra mim, como se estivesse dizendo: "Pedrão, você fez tudo certo.". Estive leve e sereno o tempo todo por que sabia das dores que sumiram, do alívio que você sentia, da Paz em que seu coração se encontrava.

A salva de palmas na saída para o cemitério e depois quando a lápide foi fechando foram mais do que justas, merecidas, maravilhosas. E começou a cair uma garoa fina exatamente no instante seguinte à colocação da pedra. Agora você realizou seu desejo de ficar para sempre ao lado do Vovô Pedro.

Guidão, sempre te disse isso e não tenho a menor dúvida de que você é o MELHOR PAI DO MUNDO!

Sunday, November 07, 2010

Hospital

Beaga (Galo respira)

Era pra escrever sobre don Diego Armando Maradona que apagou 50 velinhas dia 30 ultimo, mas contratempos me impediram.

Escrevo do quarto 555 de um hospital conceituado na capital mineira. Hospital eh ao mesmo tempo uma merda e bom demais. 555 em alemao eh funf hundert funfundfunfzig.

Eh uma merda por causa da sensacao de impotencia, pelo desconhecimento da medicina, pela cara de bunda de algumas enfermeiras, pelo clima de doenca e sofrimento no ar, por ver quem voce gosta sofrendo e nao poder fazer nada, pelo desconforto causado em todos e por ai vai. Nossas Vidas comecam e terminam num hospital e ja passamos pela primeira parte. Se voltamos eh por que algo de ruim esta pra acontecer. Infelizmente eh a ordem natural da Vida.

E um hospital eh bom demais exatamente pela medicina e seus avancos, pela simpatia e atencao de algumas enfermeiras, pelo cuidado e bom humor do jovem medico - que resolveu o problema - pelo quarto amplo e confortavel, por ser um medidor de carinho, se eh que existe um, para um ente querido, meu pai no caso. Eh bom tambem pela lanchonete que fica aberta ate as 7h de domingo e que tem um pao de queijo e uma coxinha com catupiry muito boas, pela TV onde pude ver ontem o treino da F1 e agora os jogos do campeonato brasileiro (apesar dos 50 reais de caucao e da diaria de 7 e alguma coisa), pelas comidas que as visitas trazem e pelo bom humor e a emocao do meu pai a cada historia lembrada ou piadas contadas.

Eu voltaria amanha pra Alemanha e para os bracos dEla, minha amada e adorada esposa, mas troquei pra sexta que vem. Chefe compreensivel eh outra coisa, ainda bem. Com telefone e internet resolvo 75% da minha Vida e consigo trabalhar tranquilamente.

Vou dormir aqui hoje. Ontem dormiu Janemamae, sozinha. Mas anteontem dormimos nos dois. Ela no sofa e eu no chao, sobre um edredon dobrado. Cochilava 20' e acordava. As 6h da matina me deitei no sofa e cochilei ate as 8, mas nao me cansei.

Ontem o acompanhei ate a tomografia. Corredores silenciosos, com um ou outro bistunto passando. Cores neutras, elevador de maca grande e silencioso, enfermeira com cara ruim fazendo por obrigacao. Apos a pequena espera ele entra e eu fico de fora. Pergunto se nao quer um cobertor, o ar condicionado tava frio. Diz que nao e que sera rapido. A porta se fecha e ruidos estranhos comecam. Uma voz diz ENCHA O PEITO DE AR E SEGURE. Imagino ele obedecendo e o que aconteceria se nao entendesse ou escutasse as ordens da maquina. Sairia uma mao mecanica pra lhe puxar a orelha ou dar um tapa?! Acho que nao, pelo menos nao neste pais. Talvez no Iran ou China. O exame foi mesmo rapido, a enfermeira-cara-de-nadegas eh que demorou. Nao me deixaram leva-lo para o quarto. Acharam que ia sequestrar meu proprio pai ou o que?!

Agora ele dorme tranquilo, gracas a Deus. Acho que na terca-feira tem alta, tomara! Ainda tem muitos anos pela frente, muita coisa pra ver e fazer nessa Vida.

Monday, May 17, 2010

A Belina do Guidao

Essen (nao tem internet em casa...)

Meu pai Guido teve uma dessas. Minha mae viu o carro pela primeira vez ja com duas batidas. A primeira logo na saida da concessionaria Ford na Av. Amazonas em BH. Guidao saiu feliz e contente com o carrinho zero e parou no sinal. Uma Kombi sem freios emendou a traseira. ele saiu cuspindo fogo, puxou o motorista pela janela e so nao aplicou uma surra no distinto ali mesmo pq teve pena.

Confusao resolvida, sangue na temperatura ambiente, Guidao se mandou pra casa, ainda puto. Numa esquina a poucos metros do lar nao viu um onibus vindo da direita e a segunda colisao foi inevitavel. Dessa vez sendo culpado, pediu desculpas ao motorista, esclareceu o sinistro e foi pra casa cabisbaixo. Jane desceu lepida e fagueira pra ver a perua, o carro, e quase nao o reconheceu, o marido. Feliz e triste ao mesmo tempo, inocente e culpado, meu pai lhe entregou as chaves e disse:

- Cuidado que ele o bicho eh brabo...


Atualizando: Neste mesmo dia em que escrevi o post, uma certa crianca de olhinhos azuis nascia algumas poucas décadas atrás pra fazer desse Mundo um lugar melhor pra se viver!