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Friday, April 03, 2020

Como era minha rotina



Neufeld an der Leitha (já são mais de 1 milhão infectados)

Costumava acordar entre 6:30 e 7h da manhã, dependendo do horário que fora dormir. Na noite anterior teria lido um livro ou assistido um ou dois capítulos de série no Netflix. Poderia ter me sentado no computador para escrever textos como esse. Se dormira mais cedo era por que, após as estorinhas contadas ao Gabi e Keke, eu dormira junto.

Gostava de preparar o café da manha. Isso ainda nao mudou. Ainda. Misto quente pra mim, outro pela metade apenas com presunto e sem manteiga pro Gabi. Keke começou a gostar recentemente de queijo quente. Ele gosta de manteiga. Juliette sempre come seu Brei, uma espécie de mingau onde se adiciona água fervendo sobre um amontoado de cereais. Por cima ela colocava frutas vermelhas tais como framboesa, mirtillo e morango, além de linhaça, chia, semente de girassol e mel. Uma bomba de saúde logo pela manha. Ainda faz isso na casinha.

Ovos mexidos, apenas um, para dividir com o Keke. Iogurtes de bolinha, sendo as bolinhas coloridas de chocolate tipo M&M, de morango para o Gabi e natural para o levado Keke. Comecei a devorar geléia de mirtillo antes dessa confusao toda comecar. Felizmente continuo mantendo o hábito. Suco de laranja natural espremido numa máquina no supermercado e acondicionado em garrafinhas de meio litro. Se nao beber em 3 dias azeda. E meu iogurte natural com toda a parafernárlia adicionada ao Brei da Juliette além de aveia. Os meninos bebem também uma vitamina boa para imunizar o organismo. Essencial nos dias de hoje. Nós adultos variamos entre Omega 3 e 6. Nunca sei a diferenca entre eles. O #6 é mais caro e tem mais vitaminas, mas, sinceramente, nunca percebi nada na prática, além do preco. Vou comprar apenas o #3 a partir de agora.

Antes desse banquete dos deuses começar o Gabi sempre se sentava ao piano e tocava alguma coisa. Às vezes um pedaco de música clássica que está aprendendo rapidamente nas aulas. Tira as músicas de ouvido, escuta um trecho, cantarola, se senta no piano e simplesmente acha as notas. Impressionante! Já sabe os nomes de todos os compositores famosos e de muitos que eu nunca havia ouvido falar. Conhece Pachebel, Luigi Bocherinni e Leo Delibès?! E Edward Krieg, Aran Khachaturian e Prokofiev?! Esse último é o russo que compôs o ballet baseado no romance Romeo e Juliete de Shakespeare. Se você nunca ouviu falar desse famosíssimo poeta inglês, gentileza parar de ler e sair do meu blog. Obrigado.

O Keke, que se chama Rafael na certidao de nascimento, pedia pra ver galinha pintadinha no tablet. Os dois tem tablets, um vermelho e outro preto. Sao práticos e quebram um galho enorme quando a tensão entre os dois aumenta muito. É um sossega leão moderno. Mas não pode deixar assistir por muito tempo senão ficam agitados demais. O cérebro fica estimulado mais do que o desejável.

Bom, todos com a pança cheia era hora de trocar de roupa e partir rumo à escolinha. No inverno a troca de roupas é como uma dessas provas de programas de TV. Parece uma gincana. Um sai correndo pelado dando gargalhada enquanto o outro, já está pronto e com os dentes escovados, querer sair. Gabi já sabe se vestir sozinho, até os sapatos, gorro, cachecol e luvas. Um espertalhão. Mas às vezes gosta de fingir que não sabe só pra sentir o gostinho de alguém cuidando dele novamente. Faz parte. Colocar ceroulas no Keke é uma luta inglória. É como colocar meias numa girafa ou tentar enfiar as patas de um cachorro numa camisinha. Ele se mexe o tempo todo, vira de lado e quer se levantar da cômoda ainda em uso desde quando ele era um bebê. Essa fase está pra acabar.

Já nas ruas temos três opçoes de transporte que variam com o clima ou horário. Se estamos atrasados demais vamos de carro, mas os meninos detestam. Se sentem presos nas cadeirinhas e não interagem com a cidade. Coloco um CD do Tim Maia só com sucessos e vamos cantarolando:

Não está errado
Ser solteiro
Ou ser casado
O negócio
É saber viver em paz



Quer ser elegante
Quer ser forte, ser galante
Quer ser tigre
Quer ser cobra, ser leão



Se temos tempo vamos de bicicleta. Sim, os dois costumavam ir numa carretinha acoplados ao eixo traseiro da bike. É prático e mais rápido que o carro. Em 10 minutos chegávamos na escolinha. Perdia um tempinho até tirar a bike e carretinha do porão, subir a tralha toda, montar e acomodar os meninos, mas depois era bem rápido, o processo todo. E aproveitava pra fazer um exercício físico, nem que fossem apenas 20 min. De lá seguia para o trabalho que não é longe de casa. E continua não sendo, gracas a deus.

Poderíamos ir de ônibus também. O 4A para na outra ponta do Modena Park e nos deixava na Rasumofskygasse. Desse ponto andávamos uns 4 quarteiroes passando pela Hundertwasser Haus, a casa onde o famoso artista vienense de mesmo nome transformou em obra de arte. Ele é o chamado Gaudi austríaco. Logo a frente tinha, e ainda tem, uma parede baixa cheia de desenhos pintados com os 12 signos do zodíaco. Toda vez que ali passávamos íamos falando os nomes de cada um e quem da família havia nascido naquele signo. Acho que da segunda vez que falei o nome de todos, incluindo tios, tias, primos, sobrinhos, etc. o Gabi já sabia tudo de cor. Tem uma memória inacreditável.

O dia corria sem maiores sobressaltos. Às 15h Juliette buscava os meninos, invariavelmente. De lá
seguia para outras atividades como taekwondo, natação ou aula de piano. Ou simplemente ia pra casa mesmo caso eles estivessem cansados ou chovesse. Eu chegava lá pelas 18h ou um pouquinho depois. Não sem antes passar no supermercado da esquina pra comprar o que ficou faltando na listinha da Juliette ou algo esquecido.

O jantar era sempre a mesma coisa: macarrão com salsichinha ou com presuntinho, nuggets de
frango ou peixinho. Raramente aparecia algo diferente como arroz com feijão com alguma carne sobra do almoço. Eles precisam melhorar a alimentação deles. Na verdade, NÓS pais precisamos comer melhor e dar o exemplo para que eles nos vejam comendo de forma saudável e come
cem a se alimentar melhor por si próprios. Casa não é restaurante. A comida que vai pra mesa é a única opção. Se não quer comer aquilo pode comer uma fruta. Assim nos ensinou o Doutor Velhinho, o pediatra dos meninos que é um senhorzinho fora de série. Carinhoso e atencioso ao extremo.

Após o jantar dávamos um tempinho de brincadeira a eles para podermos arrumar a cozinha. Depois era banho, estorinhas e cama. Esse processo poderia ser muito rápido ou demorar 3 horas. Sim, 3 horas dependendo do nível de paciência dos pais e excitação dos filhos. Normalmente era rápido. Keke tomava banho de banheira e o Gabi no chuveirão brincando com seus super-heróis: homem aranha, batman, capitão gancho, bob esponja e um outro maluco qualquer sem nome. Quando lavavam os cabelos tínhamos que secar, pois no inverno não é bom dormir com as madeixas molhadas. Com os dentes escovados e pijamas nos corpinhos, íamos pra cama. Isso não mudou muito.

Muitas vezes eu fazia umas palhaçadas antes de me deitar pra contar estorinhas. Era o chubirubiru! Isso vem de um desenho animado em alemão chamado Kazimir Krähe, um corvinho atrapalhado que vivia se machucando por onde passava. Os meninos rolavam de rir. Além das falas imitando o corvinho cada um tinha que se fantasiar e cantar uma musiquinha de carnaval na frente aos outros que assistiam deitados na cama. Só quando os três faziam a sequência completa é que o ritual estava completo e podíamos nos deitar. Teve dia que fomos dormir as 22h!!!


Quando consiguia me levantar e não dormir direto poderia ler um livro ou assistir algo na TV. Ou perdia meu precioso tempo no celular. No dia seguinte começaria tudo de novo. Mas isso agora é tão distante e ninguém sabe quando voltará a acontecer. A nova rotina tem muitas semelhanças e acho que mudamos pra melhor.

Amanha eu conto. Agora vou assistir "Freud" com a Juliette.

Wednesday, November 14, 2018

Hoje fazem 8 anos sem o Guidão

Viena (como voa...)

Foi num 14 de Novembro de 2010 que meu Pai faleceu. Era domingo e o dia seguinte, a segunda 15, seria feriado da República. Morreu e não incomodou ninguém. Quem tinha que vir de longe chegou a tempo. Meu tio Renato mesmo chegou em New York quando soube da notícia e pegou o primeiro avião voltando imediatamente. Chegou.

O velório foi concorrido e o caixão vestindo seu corpo sem Vida saiu da área do velório rumo ao cemitério sob aplausos efusivos. Parecia uma celebridade. Uma unanimidade.

Nos jornais que cobriam o caixão quando a terra era jogada em cima a notícia do futebol não poderia ser melhor: Galo 4x0 Flamengo. Foi seu último jogo. Ouvimos juntos no radinho, ele meio sem entender direito e eu "traduzindo" os acontecimentos. Tardelli guardou o dele.

Muita coisa muda na Vida em 8 anos. Naquela época eu trabalhava na Ferrostaal e morava em Düsseldorf. Nem tinha entrado na Magnesita ainda. Apesar de estar quase tudo certo, dei a notícia ao Guidão em seu leito hospitalar. Gostou e me incentivou a aceitar o desafio. Já passei pela Magnesita, nos mudamos pra Viena, já saí de lá e sigo agora buscando por uma nova oportunidade.

Há 8 anos eu era casado com a Ju, ainda sou, mas não tínhamos filhos. Costumo dizer que nessa época éramos "solteiros" já que a Vida era tão mais fácil e descomplicada. A logística era uma mamata. Dormir era um verbo conjugado diariamente. Agora Gabriel e Rafael estão aqui nos tornando pessoas melhores. Infelizmente Guidão não pode conhecer nenhum deles. O Vovô Guigui só existe em fotos e na imaginação dessas duas cabecinhas férteis e inocentes.

Em 8 anos o mundo mudou bastante também. O Galo ganhou uma Libertadores em 2013, que eu saí da Alemanha pra BH por uma semana pra assistir ao vivo, e uma Copa do Brasil em 2014. Tem dedo do Guidão nessas conquistas, certeza. Vettel ganhou o primeiro dos quatro títulos justamente em 2010, no mesmo dia 14 de novembro. Hamilton ganhou outros quatro canecos nesse período. O Brasil deu vexame em casa na Copa de 2014 e tomou um chocolate belga esse ano.

Nesses 8 anos meu peso variou, mas não tanto. Me sinto melhor fisicamente hoje do que em 2010. A presença dos pimpolhos me faz cuidar melhor da saúde e me preocupar com o futuro. Tenho que estar em forma não só pra aproveitar tudo com eles, mas com meus netos também.

Após sua morte a casa de Lagoa Santa foi finalmente vendida e Janemamae se tornou independente financeiramente. Hoje tem segurança e faz o que dá na telha. Aliás, sempre fez. Continua trabalhando, pois sempre fez o que gosta mais. Sabe de tudo, lê bastante, assiste filmes e séries, tem uma rede de amigos impressionante, continua agindo com bom senso e sabedoria e é a matriarca da família. Todos a respeitam e admiram. Guidão lá de cima também.

Guidão poderia estar aqui, fisicamente. Curtindo seus seis netos, três meninas e três meninos. Marina, Bruna, Fernando, Gabriel, Maria Luiza e Rafael. Que tropa!!! Imagina o ataque dos seis pra cima dele?! A coluna ia arriar. Se sentaria no sofá entregando-se aos carinhos, amassos, beijos e abraços dos amados netinhos.

É uma pena ele não estar aqui. O que mais queria nessa hora é lhe dar um abraço apertado e um beijo no rosto.

Te amo Guidão!

Sunday, May 11, 2014

Gabriel

Meerbusch (gosto do quentinho da mamae)
Ainda nao sei falar, ler ou escrever. Mal consigo enxergar, mas escuto tudo. Aqui é escuro e sinto minhas maozinhas. Às vezes pego meus pezinhos e mordo um dedao. Me enrolo todo com essa cordinha engracada que deve ser muito importante. Se nao fosse, nao estaria aqui.
 
O escuro fica claro de vez em quando. Na verdade, vermelho. Sinto ondas de calor quando alguma coisa encosta na minha casinha. Esse calorzinho se mexe de um lado para o outro. Fica parado ali, no alto. Dou uns chutinhos pra avisar que estou aqui e ele muda de lugar. Depois some.
 
Meus ouvidos ainda nao estao totalmente desenvolvidos, mas sei bem quando uma onda sonora me satisfaz. Tem uma música complexa, com vários sons ao mesmo tempo, que sempre me acalma. Acho que é Mozart. Ainda saberei a diferenca entre ele Beethoven e Bach, mas por enquanto ele é suficiente.
 
Outro tipo de onda me faz feliz. É aquela dos meninos de Liverpool. Comeco a me mexer com os ombros de um lado para o outro quando escuto. Ouvi tantas vezes minha mamae falar o nome que nao esqueco mais. Beatles! Outro dia ficamos parados algum tempo diante de uma luz forte. As ondas sonoras eram as mesmas de outros dias. Escutei a palavra Antology algumas vezes. Pelo visto eles sao bons no que fazem.
 
Através dessa cordinha engracada consigo saber se é de manha, hora do almoco, lanche da tarde ou noite. Meu ritmo de dormidas já está bem estabelecido. Me desperto às 7:30 da manha ouvindo que sou um lindo fofinho. Logo após um gostoso banho e várias ondas de calor na minha casinha recebo meu precioso alimento pela cordinha. Minha mamae ficava sentada durante algumas horas. Às vezes falava, outras ficava em silêncio, concentrada. A cordinha me chamava e via mais comida.
 
Se o gosto é salgado - já sei a diferenca pra doce, mas nao conheco amargo ou azedo - é por que chegou a hora do almoco. Mamae se deita pra descansar depois dessa hora. Aproveito pra tirar um cochilo também. Ela volta a falar bastante, depois fica quieta de novo. Chega o leitinho da tarde e um pouco mais tarde a temperatura sobe na minha casinha. Escuto um som engracado. Parece água, mas é muita. As ondinhas de calor voltam a aparecer trazendo uma sensacao relaxante. Mamae se deita novamente e pouco tempo depois fica tudo preto e silencioso. Antes disso, a voz grave do papai vem me dar boa noite. Mamae canta um pouco dizendo que me ama e dorme. Fico esperando alguma coisa acontecer, mas pego rapidinho no sono. Depois comeca tudo de novo.
 
Quando a voz é aguda, sei que vem de cima. Mamae traz um carinho que me faz sorrir e protege. Sempre me acalmo com essa voz. De vez em quando as ondas sonoras sao graves, muitas vezes em volume mais alto. É o papai! Ele é engracado e mexe comigo toda vez. Disse que sou um gordinho vindo pra alegrar ainda mais a Vida deles.
 
Fui programado pra ficar nessa casinha por 40 semanas, mas querem que eu saia antes. Me disseram pra sair no dia 13 de Maio e cumprirei à risca o programado. Como sou um bitelinho pontual, já peso 3,7 kilos, vou poupar minha mamae do sofrimento e stress de um parto normal. Semana que vem um cara de branco vai me tirar daqui. Vou sair e respirar, agarrar o corpo da mamae e ganhar um beijo do papai. Depois é só alegria!
 
Alguns dias depois vao me levar pra casa. Vou estranhar o tamanho da minha nova casinha. A quantidade de estimulos, a temperatura, a comida, que agora virá pela boca, o tanto de curiosos me olhando, a claridade do dia e a escuridao da noite. Mas tenho certeza que as ondas sonoras manterao o bom nível, assim como a comida.
 
Como sei de todo o carinho e amor que me espera, e da seguranca de ser cuidado pela mamae e por papai, fico tranquilo.
 
Estou quase chegando. Sejam pacientes. Falta só mais um pouquinho.
 
Chutinhos na costela,
Gabriel

Tuesday, February 18, 2014

Janota

Meerbusch (momentos únicos)

Desde 1973 nao vivíamos momentos tao próximos e exclusivos. Duas semanas só pra mim! Sem a interferência de irma e irmaos. De netinhas sapecas. Da mana saudosa e dos sobrinhos queridos. Da ONG e dos problemas mundanos e cotidianos. Sem ter que dividir com ninguém.

Conversamos de tudo um pouco. Como dois bons amigos botando o papo em dia, passamos as famílias a limpo. Tanto a dela como a do Guidao. Fomos adentrando em detalhes, onde está fulando, por que sicrano se separou, quantos filhos mesmo tem beltrano?!

Entre um chocolate e outro biscoito os kilometros das Autobahnen testemunhavam os relatos. Pausa pra falar da Primeira e Segunda Guerra. E de Napoleao. Dos erros de Hitler e de como um cabo ferido, artista frustrado, biscateiro e reles pintor de paredes conseguiu convencer uma nacao arrasada e com o orgulho em frangalhos a se reerguer e quase dominar o Mundo!

Passamos três já programadas noites em Saarbrücken e sua simpática Altstadt. Até cerveja ela bebeu. Mais de uma vez e gostou. Ah daqui é muito melhor que a de lá. Acho que é por isso que vivo na Alemanha até hoje, sinceramente.

De lambuja cruzamos a Franca flertando com Strassburg. Nao foi dessa vez, uma pena. Rasgamos a Suíca do noroeste ao sudeste, até Lugano. Tomamos um espresso servido por uma simpática carioca que ali vive já fazem 20 anos e aprumamos vela de volta a Germania. Nao sem antes cruzar o Reno de novo, pela quarta ou quinta vez, passando pela Austria e chegando no Bodensee, vulgo lago Constanca. Lindau era nosso destino. Ilhota imperial cravada no leste do lago. Ensolarada e turística, construcoes do século XV e ruínas de termas romanas adornam seu porto. Inesperado, mas comigo é assim mesmo. Até dentro de usina siderúrgica na Bavária ela entrou. De capacete e tudo, dando palpite na producao. Hahaha, brincadeira. Ficou no carro lendo seu livrinho.

Veio curtir o netinho ainda na barriga da nora, Ela. Mas também veio para as celebracoes do meu aniversário de 40 anos. Quer presente maior do que esse?!

Falamos do Lucas e de Guidao. Da venda de Lagoa Santa, post prometido e nao escrito. Da idéia maluca de sair do caxixó, talvez pra ficar perto da mana mas travestido de "facilitar a minha Vida". As incertezas e certezas do momento foram destrinchadas e ponderadas. Viagens já sabidas, detalhadas. Situacoes mal explicadas ou até mesmo esquecidas vieram à tona.

Ainda passamos em Luxemburgo, terra do suposto predileto. Almocamos bem, cordon bleu. Um bife a parmeggiana metido a francês recheado com queijo e presunto e um talharim pra acompanhar. Perdi a chance de beber uma Bofferding por que iria dirigir logo em seguida.


Entre comprinhas aqui, restaurantes ali, uns 3.000 km rodados em duas semanas pudemos reapertar os lacos inquebrantáveis que sempre nos uniram.

Em Amsterdam, Rembrant e Veermer tiveram o privilégio de nos receber no Rijksmuseum recem aberto após 10 anos em reformas. Só na Europa mesmo pra se cruzar tantos países em tao pouco tempo.

Do lado de lá o resto da ninhada reclamava saudades, com razao. Nunca tiveram, e me arrisco a dizer que jamais terao, o privilégio que tive. Exclusividade total de minha amada mae.

Janota, eu te amo!

Tuesday, December 10, 2013

Tip Top

Mettmann (saufen ist auch gut!)

Tib Tap eh um Kneipe em Mettmann, pacata cidade ao lado de Düsseldorf. Ali cidadaos alemaes pacíficos, serenos e aposentados sorvem diariamente vários litros da melhor cerva local. Nunca estive no Tib Tap. Nem sei onde é, apesar do endereco clara e cristalinamente indicado no folder. Folder esse estrategicamente posicionado no lobby do hotel onde me encontro para treinamento sobre vendas. Sim, fazemos treinamentos sobre vendas. E sobre compras também. Cada um defendendo o seu pedaco.

Me lembrei do Tip Top, bar tradicional da rua Rio de Janeiro em Lourdes, Belo Horizonte. Quando eu tinha lá pelos meus 12 a 14 anos me lembro do meu pai, o Guidao, frequentando o local. Ia encontrar os amigos. Seja lá quem fossem, eram amigos do Guidao. Do trabalho?! Provavelmente. Colegas de faculdade?! Acho difícil, Guidao nao era tao fácil assim. Da turma da Barroca?! Mais provável do que os dois anteriores. Cultivava as amizades verdadeiras, formadas lá atrás. Nao que novos amigos fossem impossíveis de ser feitos ou adquiridos, mas ele era de poucas, e boas, palavras. Fiel a si mesmo. E consequentemente aos felizardos eleitos seus amigos.

Ali, no Tip Top, Guidao bebia chopps. Comia junto com a turma as iguarias locais. Chegava cedo pra nao voltar tao tarde. Respeitava a esposa e os cinco filhos. Sempre foi assim. Morria de curiosidade de conhecer o Tip Top. Mas só teria sentido se fosse com ele.

Fui lá bem depois, mais velho, mas nem tanto. Talvez tivesse 20 ou 22, tanto faz. Me sentei, junto de amigos fiéis, e pedi um chopp. Olhei pra um lado. Mirei o outro. A maioria eram homens mais velhos, dos seus 40 e poucos até 50 e tantos. A idade do Guidao naquela época. Me senti mais moleque do que já era. Fui em frente e pedi outro chopp. O garcon olhava com desdém, como se duvidasse que aquela dívida instantânea fosse honrada. Eu e meus amigos, assim como o Guidao e os dele, apenas jogávamos conversa fora. Meio tensos, é verdade. Talvez querendo a aprovacao da turba de beberroes. Mas nao se consegue isso assim, da noite para o dia. É preciso frequência religiosa e disciplina.

Olhamos o cardápio. O que será que o Guidao pedia quando olhava essas páginas gastas?! Tudo parece saboroso. Frango a passarinho?! Pode ser. Queijo paxá?! Nao combina com ele. Ou seria um salsichao com salada de batatas?! Provavelmente sim. Pra relembrar seus dias em Rothenburg ob der Tauber e os anos trabalhando em empresas alemas e com alemaes.

Pedimos uma. Tensao na mesa. "E aí, parece ser o prato certo." "Vi umas duas mesas pedindo o mesmo." Acertamos na mosca, mesmo sem saber. Esse era o prato preferido dele. Repetimos aqui na Alemanha, em Düsseldorf. Comeu com a melhor cara do mundo. Bebia goladas da famosa Altbier local como se todas as cervejarias da Alemanha fossem fazer greve de três meses no dia seguinte.

Três anos se passaram, desde o dia 14 de Novembro, que sua presenca física nao mais nos alegra. Aquele abraco cabeludo e o sorriso falando "Pedrao" nao é mais ouvido. Mas é como se nada tivesse acontecido. A saudade aumente absurdamente a cada dia, semana, mês e ano que passa.

A vontade de te abracar nao tem tamanho.

O Tip Top continua lá, no mesmo lugar: http://www.bartiptop.com.br/

E você também, no meu coracao.

Monday, November 14, 2011

Há um ano atrás...

Düsseldorf (... saudades...)

Há exatos 365 dias atrás eu estava em Belo Horizonte. Vivia talvez a experiência mais forte da minha Vida. E ao lado do meu irmao, Rato.

Juntos cuidamos para que nosso Pai partisse com o máximo de conforto e o mínimo de sofrimento. Sua alma se libertou do cárcere chamado corpo e flutuou. Na verdade, sublimou. Livrou-se da carcaca que por 69 longos anos a acolheu. Subiu leve e solta. Pronta pra outra missao. Dessa vez mais nobre, talvez.

Por aqui, o que havia de ser feito tinha sido. Cinco filhos criados, esposa fiel e companheira leal, exercício da profissao de engenheiro honrada com competência, honestidade e solidariedade com os colegas que acabaram virando amigos. Na família nao era diferente. O do meio era querido pra cima e pra baixo.

Nao era de muitos amigos. A timidez falava mais alto. Mas a família e a Vida caseira mais ainda. Gostava de ver novelas com o do meio, engracado isso, tomar seu whisky com castanhas na sexta assistindo a um bom filme. Consertava as "coisas" da casa de Lagoa Santa. Tratava todos os funcionários com respeito e justica. E muita solidariedade. Ajudava quando podia. E se nao tinha jeito, arrumava um.

Nao teve Pai, aliás, teve sim mas o perdeu com apenas 6 aninhos. Viu no sogro, meu xará, um substituto a altura. Melhor, impossível.

Falava alemao. Ganhou passagens da Lufthansa num sorteio da empresa. Sempre soube que era sortudo. Morou 3 meses em Rothemburg ob der Tauber, no norte da Bavária. Saia de casa às 5h da matina quando queria fotografar a cidade. A horda de japoneses nao permitia chapas em horários comerciais.

Dependurava os queijos Polenguinho no telhado, pela janela do sótao, e quando a fome apertava na alta madrugada ali estavam eles. Fresquinhos e prontos pra escorregar até o estômago.

Dirigia bem, apesar das várias encostadinhas e arranhoes. Já arrancou um incauto condutor de Kombi ao sofrer uma batida traseira em sua Belina zero. Nos levava até Joaíma numa epopéia que durava entre 12 e 15 horas, dependendo da estrada e do número de paradas. Uma vez, o do meio caiu pra trás num almoco em Governador Valadares. Um corre-corre danado, mas nao foi nada. Só susto.

Nasceu em Campo Belo, filho de caixeiro viajante. De nome Tonico Sapeca. Já fomos a Candeias, logo ao lado, na fazenda da Dona Elza. Era Elza mesmo?! Íamos visitar a Marli, amiga de Janemamae. Me lembro da camionete C10 do Adelino. Era bom andar na carroceria, sentir o vento no rosto.

Ele nunca teve uma camionete, mas gostava dos Fords. Depois dos Fiats. E já teve Fuscas, como quase todo mundo. Aprendeu a dirigir num deles. Andou muito na garupa de Lambrettas no tempo da Turma da Barroca. Era chamado de Professor, pois dava aula de Latim e Matemática. Jogava no gol do Bangu, o time do bairro.

Nunca foi bom de bola, pelo menos nunca fez pose, mas era louco pelo Galo. Alucinado. Desses que nao perdia um jogo, seja pelo rádio ou televisao. Ficava puto na hora, mas depois tava tudo bem. Aguentava a zoacao das marias, mas soltava das suas. Sempre com um humor sutil. Rachava de rir ao ler a tirinha do AFO. Sempre me mostrava, às gargalhadas.

Fazia um cafezinho maravilhoso quase toda tarde, lá pelas 5 horas. Pegava um copo lagoinha, enchia pela metade, cortava uma fatia de Canastra e ia pra janela. Ali, ficava olhando pro nada. Apreciando a vista que conhecia como a palma da mao. Talvez observasse o movimento, apenas. Ou olhasse para o céu, procurando alguém.

Nao sabia cozinhar, mas comia que era uma beleza. Janemamae às vezes o advertia, mas levemente. Ele sempre se defendia dizendo que "mas tá bom demais!" Seu prato preferido?! Macarrao à bolonhesa. Foi ao Bolao no Santa Teresa uma última vez. Comeu feito um lobo afonso, como se referia a quem era glutao. Tinha uma barriguinha saliente, charmosa. Acumulando as latinhas de Skol que bebia aos sábados após dar uma geral na casa de Lagoa Santa. Sexta, whisky. Sábado, cerveja. E nao mais. Tinha hábitos de um japonês.

Às vezes passava da conta, mas era muito engracado. Ficava leve e solto, como todo bêbado. Contava piadas, ria alto, abracava todo mundo. E no final, caia no sono dos justos. Mais do que merecido.

Me ensinou a dirigir. Explicou os mistérios do outro sexo e como fazer pra ter sucesso nessa área. Orientou na escolha da profissao. Ouviu meus problemas e ajudou-me a resolvê-los. Nunca os solucionou pra mim. Até andar de bicicleta foi com ele. No apartamento da Santa Rita Durao. Me lembro como se fosse hoje. Achei que ele ainda tava segurando, mas eu já andava sozinho naquela bicicletinha verde.

Conversava de tudo. Era ponderado. Sabia ouvir. Uma de suas maiores qualidades, senao a maior. Nao entrava em discussao besta. Fingia-se de surdo, mesmo quando comecou a ouvir menos, pra escutar apenas o que lhe interessasse. Isso se chama sabedoria.

De vez em quando, parecia que nao estava na Terra. Era como se tivesse sublimado. A alma pegara um elevador e tava dando umas bandas lá em cima. De repente ouvia-se um "hein". Era a senha da alma retornando. Continuava de onde havia parado.

Apanhei muito dele, merecidamente em 95% das vezes. Os outros 5% coloco na conta das vezes em que nao fui descoberto. Na verdade, acho que merecia mais. Apesar disso, foi o suficiente. Aprendi a licao. As licoes. Continuo aprendendo, mas agora sem ele pra orientar, ponderar, ajudar, conversar, ouvir, alimentar, me fazer sonhar.

Tentei ficar triste umas vinte vezes hoje, mas nao consegui. Ao ler tudo isso, sinto que é impossível. A única coisa que fiz foi assistir a uma missa, em alemao, e agradecer pela sorte única de ter sido seu filho. Precisa mais?!

Guidao, eu te amo!

ATUALIZANDO: Informacoes futebolíticas sobre o passado do Guidao chegaram agora através do Rato, emissário oficial da FIFA. Segundo ele, num fôlego só, "Papai não jogava no gol e sim na zaga, era zagueiro de recurso, orientado pelo gênio Cambão, saia jogando de cabeça erguida e soltava para o meia fazer a ligação com o ataque, em bola alçada na area nunca cabeceava para o meio da área, espanava para a lateral do campo para que não houvesse rebote, fez alguns gols de cabeça em jogadas de corner e ja fez o gol que pelé nunca chegou a fazer, emendando do meio campo e encobrindo o goleiro desavisado!!"

Tuesday, August 09, 2011

Hoje tem Festa no Céu (e na Terra também)

Hilden (nada como um dia depois do outro)

Hoje Guidao faria 70 anos se ainda passeasse pela Terra com sua calma e sabedoria. Tem festa no céu com certeza. Ele vai se juntar ao tio Wagner, um de cada lado da Dona Ermíla, minha vó. Se derem sorte ainda trombam com Tonico Sapeca pra fuzarca ficar maior ainda.

Meu irmao Murgas e seu ótimo blog também fazem anos, 34, seguindo firme em sua revolucao interna. Mudar nao é fácil, nunca foi. Ele achou que fosse ficar sem companheiro de aniversário, mas eis que ontem de manha, 8 de agosto de 2011, nasce Bruna trazendo alegria, felicidade, renovacao e paz para todos nós.

Parabéns mamae Helena, papai Leocádio e Marinoca. A família agradece mais uma vez por essa bencao.

Comemorem esse dia, aliás TODOS os dias, por que só se vive uma vez.

Wednesday, November 17, 2010

Guidão 69

Beagá (você está sempre sorrindo pra mim)

Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem, ficam encantadas.

Você Guidão, criador de uma Vida encantadora não poderia fugir dessa frase.

Esteve presente desde os primeiros instantes da minha Vida. Ajudou Janemamãe, minha vó Zuzu e o vovô xará Pedro a me criarem. Me deu os primeiros banhos, me ensinou a dar os primeiros passos. Me lembro nitidamente de quando aprendi a andar de bicicleta ali na Santa Rita Durão. Aquela magrela verde que você segurava no banco e de repente me soltou e segui sozinho.

Na Pampulha a bagunça descendo a rampa de velotrol com meus irmãos, as árvores que subi pra te olhar lá de cima e ver seu olhar orgulhoso. Quantas viagens fizemos juntos ou que você me proporcionou fazer. Aquela a Porto Seguro quando vi o mar pela primeira vez lá do alto num fim de tarde na praia ainda selvagem. Uma cena inesquecível. Depois ao Rio onde fui ao Corcovado pela primeira vez. E as tantas viagens a Joaíma pra visitar Tia Vânia e os primos e amigos. Você criou uma cama na tampa sobre o porta-malas do carro pra nos dar mais conforto, lembra?! Tampa essa que virou tendência obrigatória nos carros de hoje.

Guidão, você foi me ensinando ao longo da Vida conceitos importantes como respeito, admiração, Amor, liberdade, humildade, simplicidade, honestidade, sinceridade, solidariedade entre tantas outras "dades". É difícil medir tudo isso. Só saberei o valor de todos estes ensinamentos ao longo da minha Vida inteira. Em cada situação boa ou ruim que enfrentar você estará ao meu lado me mostrando exatamente o que fazer, como agir.

Você que quase virou padre frequentando o seminário no Rio de Janeiro na rua Almirante Alexandrino entre os 9 e 15 anos, mas graças a Deus desistiu da idéia. Entrou no Maracanã num desses encontros da Igreja Católica levando uma imagem santa. Você tinha apenas 9 aninhos. E depois voltou pra BH se matriculando no Estadual Central aproveitando da liberdade imensa e inédita que o colégio te dava. Caiu na gandaia, seu desempenho escolar foi lá embaixo, mas você percebeu que o caminho certo não era esse. Foi de um extremo ao outro, balançou como um pêndulo até se equilibrar no meio. Talvez isso explique um pouco por que meu comportamento varia entre extremos, do silêncio ao exagero, de 8 a 8000. Você também era um exagerado incorrigível.

Equilíbrio talvez seja a palavra que melhor defina sua personalidade. Equilíbrio pra criar CINCO filhos tão bem criados. Equilíbrio para começar, manter e cultivar um relacionamento com uma pessoa de personalidade tão diferente da sua como Janemamãe. Equilíbrio por estar sempre presente em casa, mesmo sendo um Engenheiro que normalmente viaja muito. Dia desses no hospital, Guidão, você me contava das propostas de trabalho que recebeu para sair de BH, mas recusou todas por que seria bom só pra você e não pra família inteira.

A maior obra que um Homem pode criar é sua família, seus descendentes. É a continuação da sua própria Vida, seus valores, suas crenças e fisicamente a extensão do seu corpo. Somos uma família unida e feliz. Estável, equilibrada, sensata e sábia. Como você, Guidão!

Sta. Rita Durão 1 e 2, Pampulha, Nunes Vieira, Pampulha de novo e rua da Bahia. E passando por Lagoa Santa, sempre. Estes foram nossos lares ao longo dos 36 anos e 10 meses em que tive o privilégio de conviver com você. Ser filho de um mestre é uma dádiva!

Decidi ser Engenheiro Mecânico pra continuar seus passos. Fiz o Doutorado que você tanto me incentivou por que sonhava em morar na Europa. Hoje, por coincidência ou não, vivo na Alemanha trabalhando para e com alemães. Falo o idioma que via e ouvia você falar pensando ser algo impossível de aprender. Te achava e continuo achando um cara genial. Sigo seus passos entre Dusseldorf e Essen a cada manhã quando vou trabalhar. Você, Guidão, que trabalhou para e com os alemães na maior parte da sua carreira. Culturas e idiomas diferentes, maneiras de pensar ou atacar um problema completamente opostas, mas a sabedoria e a diplomacia em lidar com as situações é que fizeram e continuam fazendo a diferença.

Tive o privilégio este ano de estar aqui com você em quatro oportunidades. Nos vimos em Abril durante três semanas. Você me repreendendo, mas ao mesmo tempo rindo por dentro, quando me via chegar do Mercado Central num sábado a tarde chumbado, como você dizia. Depois em Agosto passamos seu aniversário e do Lucas e o dia dos Pais juntos. Vim rapidamente em Setembro, só por uma noite e uma manhã, mas o suficiente pra matar a saudade. Guidão, quando eu ia viajar cedinho você acordava às 4 e meia da manhã só pra fazer café pra mim me acompanhando ali, naqueles momentos silenciosos no escuro da madrugada de uma manhã que ainda demoraria a nascer.

E quando cheguei no dia 30 de Outubro te vi diferente, magro como nunca, meio abalado. Fiquei preocupado, mas achei que você sairia dessa de novo, como sempre saiu. Já dava sinais de que a doença traiçoeira tinha te pegado de vez, mas recusei-me a acreditar. Fui ao Rio dia 04 de Novembro quando você foi internado. Na praia do Leme conversava com Daniel, o Rato, mais um de seus filhos queridos. Eu dizia que você não merecia mais sofrer, que tinha um orgulho imenso de ser seu filho e que sabia do orgulho que você sentia e sente por mim. Já estávamos antevendo o que aconteceria.

Dos dez dias no hospital, dormimos seis noites juntos. Depois de tanto cuidar de mim, o mínimo que eu poderia fazer era retribuir a altura. Vimos TV, jogos do Galo, conversamos, te dei água e outras bebidas, mingau, iogurte e vi você recebendo uma incontável quantidade de remédios: Plasil, Dramin, Nauseadron, Dipirona, Dimorf, nomes que ficarão na minha cabeça ainda um bom tempo. Te dei banho uma manhã. Foi um dos melhores momentos desses 10 dias. Temperei a água quentinha como você gostava, lavei sua cabeça e seu corpo já cansado e diferente. Esfreguei cada canto da sua pele, como você tantas vezes fez em mim. Depois fiz sua barba, com sabão mesmo. Você ficou lindo, Guidão!

Fiz também massagens nas suas costas com a pomada milagrosa do Vovô Pedro e também nos seus pés. Fiquei pensando na infinidade de lugares por onde você andou e pisou, em cada passo que deu pra chegar aonde chegou. Olhei para suas mãos, fortes, lúcidas, hábeis, inteligentes. Nos cálculos que fez como engenheiro, nas palavras que escreveu ou digitou, nos gestos, nas infinitas vezes em que lavou a louça da cozinha, nos consertos das casas, principalmente em Lagoa, nos quilos e malas que carregou, e até nas palmadas que me deu merecidamente.

Na quarta você me deu um susto com aquela dor lancinante na coluna que insistia em ficar.  Nem as massagens com a pomada Vovô Pedro adiantaram, mas conseguimos superá-la. Você começou a tremer em seguida morrendo de frio. Estabilizou-se após ser medicado, mas foi assustador.

Na quinta passamos a noite mais tranquila de todas. Você dormiu feito um justo de 20h as 6h do dia seguinte e nem acordava pra receber os remédios na veia. Lembra dos conselhos sobre amizade e liberdade que você deu ao Marcão e a mim?! Jamais esqueceremos.

Na última sexta de sua Vida, o último dia útil da sua carreira, você comentou uma proposta técnica do trabalho orientando o pessoal, como sempre fez. Realmente, Guidão, você cumpriu o prometido: trabalhar até o último dia que conseguisse!

No sábado à noite escutamos juntos o jogo do Galo contra o Flamengo, nosso arqui-rival. Pedi aos deuses do futebol uma última vitória pra você. A cada gol você me perguntava quem tinha feito e vibrava em seguida. Obina, Renan Oliveira, Tardelli e Renan de novo. Goleamos o urubu por 4x1 e as marias perderam roubado no mesmo dia para o Corinthians. Na hora do penalty no Gordo, que me pareceu inexistente, você disse "melhor ainda!" com um sorriso no rosto. Missão cumprida Guidão, mais uma.

Janemamãe me pediu pra ficar naquela noite novamente com você ajudando o Rato. E quando ele chegou pra dormir trazendo um colchonete você perguntou ironicamente se faríamos ali um acampamento. O Rato chegou com a camisa do Galo e te mostrou os gols na internet. Você vibrou mais uma vez. Acho que se sentiu confortável ao ver dois de seus filhos ali com você.

As cenas seguintes durante a noite foram como num teatro. Tudo parecia estar muito bem ensaiado. A cada desconforto que você sentia Guidão, levantávamos prontamente pra te ajudar a sair da cama e se sentar na cadeira. Quinze minutos depois você queria voltar da cadeira pra cama e lá estávamos pra te auxiliar. A verdade Guidão, é que você não tinha mais lugar, não encontrava mais uma posição neste Mundo. Sua respiração ofegante, auxiliada pelo oxigênio, já mostrava que sua alma precisava respirar outros ares. Às duas da manhã você perguntou que horas eram. Respondi e você falou que tava muito cedo. Depois entendi que era cedo demais pra partir. Daria muito trabalho pra todos se fosse naquela hora. Me disse que tinha que ir ao Detran retificar uns documentos. Respondi que era domingo e no dia seguinte feriado. Só assim pra você parar de se preocupar.

Seu intestino já havia parado alguns dias atrás. Depois foi o rim dois dias antes. Quando sua glicemia baixou às 3h da matina e você ganhou uma dose cavalar de glicose comecei a pensar no fígado que estava se desligando. O Dr. Alexandre, na verdade um anjo que veio te buscar, explicava o quadro clínico com clareza e sinceridade, mas sempre escolhendo as palavras certas com uma sensibilidade impressionante. Parecia parte da família. Desconheço o quanto ele sabe de medicina e oncologia, mas de relações humanas, carinho e psicologia é um mestre. Menino novo que vai longe, tenho certeza absoluta.

Às 5h da manhã, finalmente, você encontrou uma posição e dormiu um pouco. Acordou e pediu pra se sentar na cadeira. Quis ir ao banheiro pela última vez e foi caminhando amparado pelo Rato. Se sentou, disse que queria trocar a fralda e o short do pijama. Levantou-se e voltou caminhando pra cama. Subiu com dificuldades, deitou-se ajeitando o calção do pijama e encontrou uma posição confortável rapidamente. Te perguntei se tava tudo bem, se sentia alguma dor. Você disse que não, não sentia nada. Então peguei um copinho da água espiritual que tia Lucy trouxe na sexta e te dei. Falei que te faria bem se bebesse. Foi a última coisa que você bebeu Guidão.

Depois disso seus olhos miraram pra cima. Ficaram arregalados, olhando alguma coisa no alto. Talvez minha avó Ermíla já te esperando. Talvez nos novos ares que você queria respirar. Ficou nessa espécie de transe por uns 15 minutos. Aos poucos sua luz foi diminuindo, a bateria acabando. Não reagia mais às nossas perguntas. Dr. Alexandre chegou e ainda tentou uma nova dose de glicose, mas foi em vão. Vi seu último suspiro e percebi que sua barriga já não subia nem descia mais. O médico conferiu os sinais vitais. Olhei para o relógio: 6 e 50 do dia 14 de Novembro de 2010, domingo. O dia seguinte era um feriado. Até com isso você se preocupou.

Guidão, te agradeço eternamente por ter dado ao Rato e a mim a honra de estar com você nos momentos finais.

No velório e enterro confirmei o que já sabia: que você era uma espécie de unanimidade, mas que dessa vez não tinha nada de burra, pelo contrário. Achava que você não tinha amigos, mas vários da turma da Barroca de 40 anos atrás apareceram pra te cumprimentar. Sabia do seu apelido de Professor, criado após seu retorno triunfante do seminário quando começou a ensinar Matemática, Latim e Português pra turma. Me disseram também que era chamado de Gambá por que comia tudo e muito. Como a tigela de arroz doce que vovó fez num sábado a noite como sobremesa para o almoço de domingo e você, chegando mais cedo em casa, comeu metade.

Pessoas de todas as partes de todos os lados da família, dos vários lugares onde você trabalhou, mas também onde Janemamãe, Helena, eu, Lucas, Marcos e Daniel trabalhamos. Amigos de todos nós. Vizinhos da rua da Bahia, do Amendoeiras, coroas de flores dos amigos ausentes que não puderam vir. Guidão, por um momento pensei que você fosse um político famoso ou artista de cinema. Até o veterinário do Led, nosso cachorro de Lagoa Santa, apareceu. E o Agnaldo, caseiro da casa?! Era como outro filho dizendo que ninguém nessa Vida o havia ajudado tanto quanto você!

A frase que mais me marcou foi a do Bernardinho que chegou me abraçando e dizendo "Pedrinho, parabéns pelo Pai que você teve!"

Me senti muito mais aliviado do que triste durante a cerimônia. Olhava para o alto e te via sorrindo pra mim, como se estivesse dizendo: "Pedrão, você fez tudo certo.". Estive leve e sereno o tempo todo por que sabia das dores que sumiram, do alívio que você sentia, da Paz em que seu coração se encontrava.

A salva de palmas na saída para o cemitério e depois quando a lápide foi fechando foram mais do que justas, merecidas, maravilhosas. E começou a cair uma garoa fina exatamente no instante seguinte à colocação da pedra. Agora você realizou seu desejo de ficar para sempre ao lado do Vovô Pedro.

Guidão, sempre te disse isso e não tenho a menor dúvida de que você é o MELHOR PAI DO MUNDO!