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Thursday, November 24, 2022

Zebra nipônica come chucrute no jantar

Viena (a zebra é amiga da girafa)

 


Contra tudo e contra todos os japoneses emplacaram a segunda grande zebra nessa Copa.

Os 2x1 de virada contra os alemaes já entraram pra História. E olha que o time tedesco é bem arrumado e treinado por Hansi Flick, ex-assistente do comedor de meleca Lowe.

As casas de aposta pagaram 52x o valor apostado. Tem muito japinha rico neste momento comprando o melhor saquê do mercado e gastando os tubos com atum de primeira comemorando o feito inédito.

Merecido!!!

 

Monday, December 23, 2019

Düsseldorf Anno VI

Viena (mais um dia e férias)

Escrevi o texto abaixo dia 01.03.2012 e nao sei por que cargas d'água nao publiquei. Um relato sobre nossos primeiros dias em Düsseldorf em Marco de 2006 e comentários simpáticos a uma certa Frau Rouxinol, que o diabo já carregou faz tempo.


"Hilden (o implacável Sr. Tempo ataca novamente)

Foi num vôo da Air Berlin aterrisando as 8h da matina que nos trouxe para Alemanha. Vindos de Viena, capital austríaca e melhor cidade do Mundo para se viver, chegamos em Düsseldorf cheios de incertezas. Uma coisa certamente mudaria imediatamente para melhor: o apartamento maior, mais confortável e bem localizado.

Na capital austríaca a Gumpendorfer Straße 32, 1060 (6. Bezirk) nos acomodou por dois meses após a lua de mel em Paris no já distante Dezembro de 2005. Acomodou é modo de dizer. Era o studio que um artista austríaco amigo meu Leo Schatzl nos emprestou por dois meses. Demos uma geral antes dele embarcar para o Brasil por quatro meses para que Ela nao estranhasse assim tantas mudancas ao mesmo tempo. Ela havia chutado o balde, literalmente, no Brasil. Largara a sociedade num escritório de advocacia, a família feliz e contente, a cidade onde nascera, o sol e calor brasileiros que tanto amava, o português e qualquer outro apego emocional. Era um tiro no escuro, mas havia uma estranha certeza no ar. De ambos os lados. Ela se juntaria ao conhecido, dos melhores amigos da agora ex-amiga. Após míseros 19 dias juntos curtindo um sonho de verao europeu que com certeza nao duraria para sempre.

O studio do artista tinha várias prateleiras recheadas de livros de arte, um Mac antigo, som stereo de ótima qualidade e uma cama mezzanino, dessas com escadinha pra se chegar em cima. O problema era a cozinha. Ficava em outro cômodo, do outro lado do corredor do prédio. E dentro dela uma outra porta te levava ao chuveiro e pia. Em outra porta no corredor do prédio ficava o vaso sanitário. No início do ano Viena recebe toneladas de neve e um inverno pesado. O corredor dava para porta de saída e nao tinha aquecimento. A noite, com vontade de ir ao banheiro, tínhamos que descer da cama alta, vestir um mínimo de roupa e enfrentar o General Inverno. Fui várias vezes com Ela na alta madrugada “curtir” essa aventura.

Ele, no caso eu, estudante de Doutorado que detestava o que fazia. Cheio de sonhos e planos de abracar o Mundo, como sao os aquarianos, acabou conquistando Ela, seu antigo desejo. Pediu ajuda divina, colocou velas na Stephansdom, a magnífica catedral austríaca. Prometeu ao seu deus que tentaria fazê-la feliz de todas as formas. Parece que deu certo. Pelo menos até agora, passados pouco mais de seis anos.

 Foto: Pedro Bresson

Mas a chegada na Alemanha recebeu um golpe negativo logo nas primeiras horas. Uma brasileira, carioca, colega de trabalho que só conseguira o posto gracas a mim, jogou um balde de água fria. Morava no nr. 1 e seria nossa vizinha de porta. Achamos ótimo no início, mas depois mudamos de idéia. A mulher era um poco de pessimismo. TUDO, simplesmente TUDO estava ruim a sua volta. Reclamava o tempo todo. Se chovia elar queria o calor do Rio ali, na sua janela. Se era verao tinha saudades do inverno, dos casacos chiques e do flair europeu. Quando chegava a estacao fria voltava a reclamar do tempo gasto para se vestir, dos dias escuros pela manha e completamente negros já ás 5h da tarde. E no outono, minha estacao preferida, era o caos para ela. Nao era nem frio nem calor. Fim do verao e prenúncio do inverno. Uma espécie de purgatório para jovem senhora que vivia com um sinal de menos na testa.

“Ah, o apartamento é muito pequeno. O piso é de cerâmica e faz um frio desgracado. O aquecedor nao esquenta direito. Temos que sair do prédio pra lavar a roupa na lavanderia do edifício ao lado. O Straßenbahn (bonde) faz barulho e incomoda. Tem uns tipos esquisitos morando lá, alguns fumam e jogam bitucas no jardim. A área comercial ao redor tem de tudo, mas sinto falta de um correio mais próximo. Os restaurantes sao caros. Vocês nao vao dar conta de pagar o aluguel. A situacao aqui no instituto é bem diferente de Vienna.” E continuou desfilando todo seu arsenal negativo enquanto caminhávamos serelepes e inocentes rumo ao nosso proimeiro almoco na Telekon.

A comida desceu quadrada, claro. Comecei a pensar “onde foi que amarrei minha égua?!”. Tinha alugado o apê pela internet. Um amigo morava perto e disse ser ótima a localizacao. As fotos eram boas, o banheiro era dentro de casa com pia, vaso e chuveiro juntos, coisa rara na Europa. O piso era desses laminados, nao a cerâmica fria da casa de nossa “amiga” víbora de sarcófago de faraó, como dizia Nelson Rodrigues.

Nao era nada disso. Chegamos no apê novo e mobiliado com tudo perfeito e no lugar. Até a roupa de cama estava feita. Era como chegar num hotel. A cozinha era minúscula, mas quem se importava?! A localizacao era realmente perfeita. Chegávamos em 20 min a pé no centro da cidade. Metrô e bonde na porta. Lojas e restaurantes de todos os tipos num raio de três quarteiroes. Cinco supermercados nos serviam. Barbeiro, correio (que mudou para mais perto), loteria, lojas de roupa, choperias e o escambau. Tudo ao nosso alcance.

E a Frau Rouxinol (eu a chamava assim por que era metida a cantar árias e óperas nos finais de semana trincando nossas janelas e vasos com seus timbres agudos e insuportáveis) continuava só reclamando. Falava com ela que essa energia negativa só atraia coisas ruins. Ela dizia que nao acreditava nisso, só na ciência e no que pudesse ser provado por A + B. Nao deu outra. Teve o apartamento onde vivia com marido, outro chato de galocha apesar de gênio, arrombado em plena Viena, talvez a capital mais segura da Europa. Levaram tudo, menos o feijao no freezer. Quase virei pra ela na manha seguinte e disse: “Frau Rouxinol, A + B =... se fode”. Hahahaha.



Tuesday, February 26, 2019

Neuzo fez 30 anos

Viena (quem espera, sempre alcança)

No dia 23 de junho de 2018 o Neuzo, meu Trabant ou Trabi para os íntimos, completou 30 anos. Fazem mais de três décadas que ele deixou a fábrica de Zwickau na Saxônia e saiu por aí enfeitando o mundo. É agora considerado um carro clássico. Um placa preta no Brasil ou um Oldtimer aqui na Europa. Ainda não tomei as providências para registrá-lo assim, mas tomarei. Um dia.

O Trabant é aquele carrinho icônico da Alemanha Oriental, um dos símbolos daquela época difícil dos irmãos do Leste. Algumas famílias esperavam meses, até mais de um ano na fila pra conseguir comprar um desses. E pagavam caro, muito caro. Era artigo de luxo, apesar do carro em si não ter luxo algum. Por coincidência, o meu Trabi é do modelo "601 De Luxe" que de luxuoso mesmo só a capa do encosto de cabeça feita de um tipo de veludo. Costumo dizer que é o "Winter Pakett", ou "opcional de inverno" em português.

Um carrinho assim desperta emoções e faz os corações baterem mais rápido por onde passa. Especialmente em Viena, capital da Áustria, colada no Leste Europeu. A presença de muitos polacos, tchecos, eslovacos, eslovenos, croatas, romenos, húngaros e, por que não, alemães nascidos no lado oriental faz com que o Neuzo chame mais a atenção nas ruas do que um Porsche 911 Targa último tipo. Em menos de uma hora de carro ou trem chega-se em Bratislava, atual capital da Eslováquia, antiga Tchecoslováquia. Basta pegar um barco no Donaukanal e deixá-lo seguir a correnteza pelo Danúbio e chegamos lá.

Hoje mesmo saí pra dar umas bandas lá no 22, o 22° distrito de Viena que é o maior da cidade correspondendo por 25% da área. Fui levar um panelão usado pra transportar a feijoada do meu aniversário. A Cléa fez sob encomenda e foi um sucesso. O conjunto de prédios onde ela mora está em reforma. A construção civil aqui é composta basicamente por cidadãos do leste europeu e turcos. Quando me viram de longe ficaram parados só observando o Neuzo vindo vagarosamente pela rua com sorrisos nos rostos emocionados. Me senti numa Ferrari zero desfilando em Monte Carlo. Desci do carro e dois caras já chegaram elogiando dizendo que era um "cooles Auto" ou seja, um carro bacana. Perguntaram o ano de fabricação e outros detalhes.

Por onde passa o Neuzo desperta reações. Seja um jóia tímido, um sorriso maroto, um pescoço virado, tchauzinhos das crianças nos outros carros e mesmo inspeções minuciosas de curiosos e admiradores quando o carro está estacionado. Nunca me perguntaram se eu venderia. "Por dinheiro nenhum do mundo" seria a resposta, na ponta da língua.

O Friedrich, meu mecânico vienense, tem uns 8 Trabis. Fora outros 40 ou 50 e tantos carros, a maioria Fuscas e Kombis. É um doido varrido acumulador e não um colecionador já que no máximo uns 10 carros desse total estão em bom estado. Ele vive quebrando meus galhos, fazendo inspeção anual, comprando pecas e trocando o que precisa ser consertado. Sempre cobrou só a mão de obra e o valor das pecas. Faz por que gosta e foi com a minha cara desde o início. Em 2017 importei um Fusca Itamar Série Ouro pra ele, vermelho Dakar. Uma beleza! Quer agora uma Kombi 1974, 75 ou 76. Não sei exatamente por que desses anos específicos.

Abaixo Neuzo e um dos Trabis do Friedrich. Acho que esse é um que ele comprou batido na Bavária com 3.800 KM. Uma raridade!


Desconfio que Friedrich seja herdeiro de uma rica família ou tenha ganho na loteria ou a esposa morreu num pavoroso acidente de lancha e ele embolsou o polpudo seguro de Vida. Não tem explicação um cara morar no 3° distrito, numa cobertura, com uma mega garagem pra mais de 20 carros e viver dos ganhos de sua oficina mecânica dedicada a consertar principalmente Fuscas e carros populares. Ele me convidou pra festa dos seus 50 anos, mas infelizmente eu tinha outro programa. Tenho certeza que foi uma noite memorável ao aroma de óleo dois tempos e muita conversa sobre quatro rodas.

Alguns dos carros da garagem do Friedrich no 3° distrito. Esse Karman Ghia tá sem estofamento e tapeçaria, mas a parte mecânica tá ok. Desde 2014 ele fala que vai terminar de restaurar...


Quando o Trabant fez 60 anos no dia 7 de novembro de 2017 a Deutsche Welle publicou esta reportagem especial. E no dia 30 de abril de 1991 o último Trabi foi fabricado. Segundo esta outra reportagem da DW "Exatamente 3.069.099 unidades foram fabricadas até as 14h51 do dia 30 de abril de 1991, quando a montadora Sachsenring encerrou a produção do lendário veículo.

Ele já foi chamado de "Porsche de plástico" por causa da carroceria e Duraplast que solta gases tóxicos quando pega fogo e não pode ser reciclada. Dizem que para se consertar um Trabi basta ter tesoura e cola em maos. E assim segue a história desse carinho carismático e amado pelo mundo.

Um carro antigo é como uma Máquina do Tempo. Toda vez que entro no Neuzo e dou a partida ele sempre pega de primeira, mesmo nos dias mais frios do inverno. Claro que o afogador ajuda, mas preciso dele até no verão. Ali dentro volto alguns anos no passado e fico imaginando os trabalhadores que gastaram horas de suor, dedicação e, por que não, amor na sua construção. Penso nos testes da linha de montagem tao simples e ao mesmo tempo toscos visto em videos no youtube. Nos seus outros pouco mais de 3 milhões de irmãos espalhados pela Europa principalmente. Hoje em dia esse número é menor já que muitos foram sucateados sendo usados como peca de reposição para outros nobres irmãos.

Fico viajando e especulando por onde ele andou, quem transportou, o que as pessoas que nele andaram falaram, fizeram, sentiram. Será que alguém já namorou dentro do Neuzo? Houveram brigas? Crianças foram transportadas felizes da Vida no banco de trás? Quantas vezes os bancos ficaram sujos de suco de uva e biscoitos Leibniz dos moleques?! E os apertos nas estradas? Queria muito saber quantas vezes Neuzo teve os pneus furados e quais foram os motivos. Será que Neuzo já participou de alguma tentativa de fuga da Cortina de Ferro tentando atravessar a fronteira do lado Oriental com o Ocidental na calada de uma noite de lua nova na floresta da Turíngia?! Já bateu ou bateram nele?! Tinha seguro?!

Jamais saberei, mas um dia vou perguntar. Quem sabe entre uma marcha e outra ele me conta.

Wednesday, July 11, 2018

Todas as Copas - 1974 Alemanha

Vienna (abrindo a boca...)

Nasci em Janeiro de 1974, portanto minha primeira Copa do Mundo de Futebol foi neste ano. O mesmo ocorreu com meu filho Gabriel nascido em 2014. Por sorte ele tem dupla nacionalidade, brasileiro e alemão, e o 7x1 foi a seu favor, dependendo do ponto de vista.

Em 1974 na Alemanha o Brasil vinha do tri no México com aquela seleção inigualável. Pelé se aposentara em 1971 e desde 1958 iríamos disputar uma Copa sem ele. E também sem Gérson, o capitão Carlos Alberto Torres, Tostão e Clodoaldo, mas novamente dirigido por Zagal.

Estreamos com um frustrante 0x0 contra a então Iugoslávia comandados por Jairzinho e Rivellino seguido por outro empate em 0x0 contra a poderosa Escócia e, por fim, uma vitória de 3x0 frente ao Zaire na primeira fase. Apenas no 3° jogo marcamos o 1° gol. Na fase seguinte vencemos a Alemanha Oriental por 1x0 e depois a Argentina em 2x1 nos classificando para as semi-finais.

O carrossel holandês veio com tudo e nos atropelou por 2x0 no Westfalenstadion do Borussia Dortmund, justíssimo. A final seria contra os donos da casa, a Alemanha Ocidental de Gerd Müller. Jogamos a disputa do 3° lugar no Olímpico de Munique, mas o polonês Lato ajudou sua seleção a levar o honroso 3° lugar pra casa.

Eu tinha entre 4 e 5 meses de idade e só queria saber de peito, dormir, chorar, cagar e tomar banho com a ajuda de alguém. Vivíamos na Santa Rita Durão, se não me engano, e a Vida era bela.

A seguir um compacto da Final entre Alemanha x Holanda vencida por 2x1 pelos anfitriões com narração de Osmar Santos:

Sunday, May 11, 2014

Düsseldorf​er Marathon

Meerbusch (um green sempre desce bem!)
 
 
Quando Pheidippides (ou Fidipedes) correu os 233 km de Atenas até Esparta, em dois dias, para pedir ajuda aos atenienses para derrotar os persas, nao sabia que estaria criando uma modalidade esportiva que hoje em dia movimenta a Vida de milhares de pessoas. Os atenienses se negaram a ajudar antes do fim do Festival de Artemis que ocorria na ocasiao. Fidipedes correu de volta os mesmos 233 km trazendo a péssima notícia. Foi entao que os comandantes da capital grega decidiram fazer um ataque surpresa ao acampamento dos persas, localizado a exatos 40 km dali, no vale de Maratona. Com um preparo físico invejável, mesmo após percorrer a distância e sendo minoria, os atenienses venceram a batalha.
 
 
Nos primeiros jogos olímpicos da era moderna, em 1896 na mesma Atenas, Fidipedes foi homenageado com a criacao de uma prova de longa distância com 40 km ganhando o nome de Maratona. Por obra e graca da realeza britânica, quem mais, a distância original foi alterada na Olimpíada de 1908 na Inglaterra. A organizacao da prova aumentou o percurso em 2.195 metros para que a família real pudesse acompanhar a largada da prova sem ter que sair do palácio de Windsor. E assim tudo comecou.
 
 
Sempre dei minhas corridinhas por aí, mas o máximo que havia corrido até entao foram os 18 km da Volta da Lagoa da Pampulha em 2003. Isso foi uma semana depois de voltar dos meus dois primeiros meses pela Europa onde bebi literalmente todos os dias. Acabei terminando a volta esbaforido em quase duas horas. Agora a distância seria mais que o dobro. E a identidade acusava 11 anos a mais, nao só de Vida como também de golo.
 
 
Minha "preparacao" comecou em janeiro deste ano, mas logo foi interrompida. Peguei uma gripe braba e minha mae chegou para as comemoracoes do meu aniversário, 29 de janeiro. Fiquei um mês sem fazer exercício físico. Meu personal trainer à distância e fisioterapeuta do Galo nas horas vagas, Bebeto, ia me passando os treinos semanais com distância e ritmo. Antes disso, pediu que eu fizesse alguns testes para descobrir meu limiar anaeróbico. Entao descoberto, partimos pras esteiras e ruas da Vida.
 
 
Sempre fui um mal aluno e disciplina nao é o meu forte. Nao consegui cumprir um único programa semanal, excecao feita as duas últimas quando a corda estava no pescoco. Fiz ainda pelo menos três viagens que impossibilitaram um avanco mínimo no treinamento, tanto em termos de distância percorrida como em velocidade.
 
 
Duas semanas antes o Bebeto me pede pra chamà-lo no skype. Com o semblante visivelmente preocupado comecou dizendo pra eu correr sem pensar no tempo. Pra ir me divertindo nas ruas até onde pudesse. Que se conseguisse completar a prova seria em mais de cinco horas, talvez seis. Disse que a fadiga muscular seria tao devastadora que impediria meus movimentos mecânicos básicos. Passou as duas últimas semanas de treino, que segui à risca finalmente, dicas de alimentacao na semana antes da prova, na véspera, café da manha e após a bendita. Pediu pra mantê-lo informado e qualquer coisa estaria a disposicao.
 
 
Pois bem, a distância máxima que havia corrido nos treinamentos havia sido 26 km. Nessas duas semanas antes da prova fiz dois tiros longos de 15 km e alguns dias depois outro de 20 km mantendo firmemente o ritmo de 10 km/h. Seria loucura tentar o mesmo na maratona. Bebeto disse pra segurar ao máximo no início e tentar manter entre 9 e 9,5 km/h. Comer tudo que me oferecessem e sempre beber água nos pontos de hidratacao.
 
 
Mal dormi a noite anterior, sábado passado. A expectativa antes da prova e a adrenalina só aumentavam. Fiz tudo direitinho, alimentacao, evitei álcool e carnes no churrasco de despedida do Alfredo e Raissa no dia anterior, dormi cedo e acordei mais cedo ainda pra tomar o desjejum programado. Já estava tudo preparado na véspera: tênis com meias adrede preparadas, short estilo ciclista com o bolso traseiro lotado de gel carboidrato, o número 4914 escolhido a dedo (49 da casa onde moramos e 14 o nosso da sorte) já pregado na camisa da Choke, multinacional fabricante de kimonos para jiu jitsu e artigos esportivos, a roupa seca na sacola da organizacao pra me trocar no final.


Amanheceu e vi as ruas molhadas e frias, nada convidativas. Pelo contrário, seria muito mas fácil voltar a dormir ali no quentinho e escurinho agarrado com Ela e Gabriel pra esquecer aquela maluquice. Perderia a grana da inscricao e pronto. Mas fiz questao de avisar a deus e o mundo no dia anterior via whatsapp sobre o evento. Já era. A maioria duvidou ou comecou a rezar pra eu chegar vivo no final. Uns poucos desejaram sorte e acreditaram em mim. Dois amigos que já correram maratona, Quinho e Nadinho, deram dicas valiosas. A principal veio do Nadinho, futuro CEO da AB Inbev, contando que no KM 30 uns ursos de 300 kg pulam nas costas dos corredores e seríamos obrigados a levá-los até o final.
 
 
Estacionei o carro em Oberkassel já que o centro estaria bloqueado. Peguei o metrô rumo a Tonhalle e no ponto bati papo com um, pra mim, quase profissional. O cara ia correr sua 16a maratona! Comecei a me alongar, 45 min antes da largada, e ele disse que de nada adiantaria a nao ser pra reduzir a tensao. Recomendou me esticar 15 min antes, no máximo. Deixei a sacola da organizacao no Garderobe, passei estrategicamente na casinha pra aliviar o peso e a tensao e fui chegando perto da largada. Nem vi os atletas top, geralmente quenianos. Os caras sao ETs que correm a 21 km/h de média. O vencedor terminou a prova em 2h e 8 min, um absurdo. Acho que nem de bicicleta consigo manter esse ritmo.
 
 
Sozinho e deus precisava de um golo d'água antes de partir. Vi uma garrafa ali pela metade, no canto, esquecida, e nao tive dúvidas. Às 9h em ponto foi dada a largada. A turma do gargarejo veio logo em seguida. A grande maioria corria num ritmo mais rápido que o meu. Deixo todos passar, cordialmente, me lembrando de segurar a onda no início. Afinal, nao estava apostando corrida com ninguém. A nao ser comigo mesmo. Meus objetivos eram: 1° terminar a prova e 2° completar em menos de 5 horas.
 
 
Durante a corrida alguns corredores-personagens se destacam dos demais. Aquele negao patola com um boné e uma Go Pro acoplada nele. Estava de amarelo e preto. Seria torcedor do Borussia Dortmund?! Por que se submetia àquela extenuante prova?! Alguma promessa?! Ou aposta?! Ele pigarreava muito logo no início, antes do KM 10. Até ali foi tudo muito bem e tranquilo. Apenas curticao, reparando nas pessoas e a cidade ao redor. De uma certa forma uma maratona deixa a cidade a sua disposicao. Exclusiva, sem trânsito, para que as ruas sejam percorridas à moda antiga. Tudo parado pra te ver passar. Com o nome escrito abaixo do número colado na camisa tornei-me uma celebridade por algumas horas. "Pedro, weiter, weiter!!!", algo como Pedro, continue, continue. Era o mantra da multidao quando eu passava. Sempre agradecia a todos que me incentivavam. Vez ou outra apareciam umas criancas com as maozinhas levantadas esperando você passar e bater fazendo high five.

 
No KM 14, o primeiro terco da prova, minhas pernas já arriavam. No posto de abastecimento seguinte caminhei e bebi a água com calma. Logo depois, um isotônico. E bananas! Nao sei se somos todos macacos, mas me tornei um chipanzé nessas quase cinco horas. Daniel Alves deve ter sido maratonista antes de jogador de futebol. Passei por baixo da ponte de Oberkassel pensando nao na distância que faltava, mas sim na que já tinha corrido. O negao ariete de amarelo ficara pra trás com sua Go Pro gravando pigarros ofegantes.
 
 
Correr a maratona foi a forma que encontrei de me solidarizar com a gravidez dEla. Como se eu tivesse que sofrer ao longo daqueles 42,2 km parindo no final minhas expectativas, dúvidas e falta de disciplina. E, quem sabe, uma merecida medalha. Mas o verdadeiro motivo era outro. No final vocês saberao.
 
 
Ali no KM 21, metade da prova, coincidentemente ao lado do consultório da ginecologista que tao bem nos atende, pensei: acabou a subida, agora é só descer a montanha! Naquele instante amarraram duas bolas daquelas de guindaste de demolicao em cada tornozelo. Os incentivos continuaram. Nunca ouvi tanta gente gritando Pedro, Pedro, Pedro! A cada caminhada bebendo água e nova arrancada comendo banana as perninhas de sabiá doíam cada vez mais. Cruzei a barreira mágica do KM 26, meu recorde pessoal até entao, e nada senti. Achei que entraria numa nova dimensao, veria anjos com harpas flutuando ao meu redor, mas nada disso ocorreu. No KM 28, com o segundo terco da corrida completo, me animei. Mantinha o lap pace em menos de 7 min por km. Faltava um terco!
 
 
Passei na esquina da casa de Floriano Peixoto e segui firme rumo ao Max Planck. Me lembrei das tantas vezes que ali cheguei pela manha de bike para mais um dia de cientista louco. Durante o doutorado foram várias as vezes em que nao via a luz no fim do túnel e queria jogar tudo pro alto. Mas nao sei por que tenho uma perseveranca nata que nao me deixa desistir de nada. Quase uma teimosia genética. Agradeco sempre a ela por tudo que fiz até hoje. Virei a esquina e avistei o fatídico KM 30. Os famigerados ursos estavam ali, atrás dos postes. Todos vestidos com as cores da BMW. Faziam propaganda de lancamento de um carrinho elétrico. Cada corredor que passava recebia um desses nas costas pesando 600 kg cada. Vamos em frente.
 
 
Vislumbrava o fim da prova. Era voltar pro centro, dar um rolé no Hafen e cruzar a linha de chegada. Os kilômetros demoravam cada vez mais a aparecer. Comecei a sentir dificuldades em respirar. Passando pelo Hofgarten os gritos de PEDRO, PEDRO, PEDRO ficaram ensurdesedores. Com um braco levantado agradecia, com o outro tampava um dos ouvidos evitando a surdez. Rasgamos a Immermannstraße e me lembrei que passaríamos em frente a Mövenpick. Roteiro melhor, impossível. Era como se visitasse todos os lugares que tanto frequentei ao longo desses 8 tantos anos.
 
 
Avistei o KM 35 dessa vez pensando nos sete restantes. Um japinha de azul seguia no meu ritmo. Às vezes mais rápido, outras ficando pra trás bebendo água. Acho que o ultrapassei no final. Já no Hafen o safado do Henrique, que corria a parte final do revezamento - míseros 9,3 km - me viu e gritou "Weiter Pedro, weiter." Xinguei o safado e voltei a me concentrar. Os incentivos da galera eram tao intensos e sinceros que o cansaco sumia e as pernas corriam sozinhas. Achava que teria problemas em me manter concentrado durante tanto tempo, mas tem sempre alguém ao seu lado te lembrando do objetivo final. Vi vários casais de 40, 50 e até 60 anos correndo juntos. Grupos de corrida batendo papo enquanto as pernas trabalhavam. Amigos contando casos e as distâncias passando. Uma festa!
 
 
Quando vi a placa do KM 40 foi como se tivesse vendo Moisés dividindo o mar Vermelho em dois. Ali, justamente naquele ponto, amarraram na minha cintura uma corrente com âncora de navio na ponta. E eu achando que nada mais haveria de acontecer. Serviram coca-cola no final, glicose na veia. Bebi os últimos goles antes da glória ali na Königsalle e segui rumo ao sprint final. Que no meu caso foi no mesmo ritmo capenga de sempre. Às vezes olhava pra trás conferindo pra ver se nao era o último! Hahaha.
 
 
Avistei o rio e vi a linha de chegada. PEDRO, PEDRO, PEDRO!!! Consegui, sobrevivi e venci a desconfianca que tinha de mim mesmo. Sensacao única que fez valer a pena cada passo dado desde a largada. Agora era chegar até a área de descanso e tomar uma bela cerveja. Dizem que é das melhores coisas pra se recuperar após as corridas. Acho que sempre soube disso, só faltava comecar a correr antes de tomar tanto golo.
 
 
Peguei minhas coisas e segui até a Tonhalle com um sorriso débil no rosto. Tomei dois bondes errados até chegar no carro. Achei que nao conseguiria dirigir, mas segui tranquilo pra casa da Rê e Albert. Ela estava lá me esperando, assim como meu amigo com um macarrao a bolonhesa e uma pale ale. Nao ia comer sem antes tomar um banho, dos melhores que já tomei na Vida. A maioria chegou a duvidar de mim. Nao recomendo duvidar de mim. Vocês vao se dar mal na maioria das vezes.
 
 
Querem saber o verdadeiro motivo de correr essa maratona: me despedir de Düsseldorf. Foi a forma que encontrei de homenagear a cidade percorrendo os vários lugares onde frequentei. A cidade parada, a minha disposicao, com muita gente gritando meu nome.
 
 
Vamos voltar pra Viena. Mas isso é uma outra estória.

 

Tuesday, February 18, 2014

Janota

Meerbusch (momentos únicos)

Desde 1973 nao vivíamos momentos tao próximos e exclusivos. Duas semanas só pra mim! Sem a interferência de irma e irmaos. De netinhas sapecas. Da mana saudosa e dos sobrinhos queridos. Da ONG e dos problemas mundanos e cotidianos. Sem ter que dividir com ninguém.

Conversamos de tudo um pouco. Como dois bons amigos botando o papo em dia, passamos as famílias a limpo. Tanto a dela como a do Guidao. Fomos adentrando em detalhes, onde está fulando, por que sicrano se separou, quantos filhos mesmo tem beltrano?!

Entre um chocolate e outro biscoito os kilometros das Autobahnen testemunhavam os relatos. Pausa pra falar da Primeira e Segunda Guerra. E de Napoleao. Dos erros de Hitler e de como um cabo ferido, artista frustrado, biscateiro e reles pintor de paredes conseguiu convencer uma nacao arrasada e com o orgulho em frangalhos a se reerguer e quase dominar o Mundo!

Passamos três já programadas noites em Saarbrücken e sua simpática Altstadt. Até cerveja ela bebeu. Mais de uma vez e gostou. Ah daqui é muito melhor que a de lá. Acho que é por isso que vivo na Alemanha até hoje, sinceramente.

De lambuja cruzamos a Franca flertando com Strassburg. Nao foi dessa vez, uma pena. Rasgamos a Suíca do noroeste ao sudeste, até Lugano. Tomamos um espresso servido por uma simpática carioca que ali vive já fazem 20 anos e aprumamos vela de volta a Germania. Nao sem antes cruzar o Reno de novo, pela quarta ou quinta vez, passando pela Austria e chegando no Bodensee, vulgo lago Constanca. Lindau era nosso destino. Ilhota imperial cravada no leste do lago. Ensolarada e turística, construcoes do século XV e ruínas de termas romanas adornam seu porto. Inesperado, mas comigo é assim mesmo. Até dentro de usina siderúrgica na Bavária ela entrou. De capacete e tudo, dando palpite na producao. Hahaha, brincadeira. Ficou no carro lendo seu livrinho.

Veio curtir o netinho ainda na barriga da nora, Ela. Mas também veio para as celebracoes do meu aniversário de 40 anos. Quer presente maior do que esse?!

Falamos do Lucas e de Guidao. Da venda de Lagoa Santa, post prometido e nao escrito. Da idéia maluca de sair do caxixó, talvez pra ficar perto da mana mas travestido de "facilitar a minha Vida". As incertezas e certezas do momento foram destrinchadas e ponderadas. Viagens já sabidas, detalhadas. Situacoes mal explicadas ou até mesmo esquecidas vieram à tona.

Ainda passamos em Luxemburgo, terra do suposto predileto. Almocamos bem, cordon bleu. Um bife a parmeggiana metido a francês recheado com queijo e presunto e um talharim pra acompanhar. Perdi a chance de beber uma Bofferding por que iria dirigir logo em seguida.


Entre comprinhas aqui, restaurantes ali, uns 3.000 km rodados em duas semanas pudemos reapertar os lacos inquebrantáveis que sempre nos uniram.

Em Amsterdam, Rembrant e Veermer tiveram o privilégio de nos receber no Rijksmuseum recem aberto após 10 anos em reformas. Só na Europa mesmo pra se cruzar tantos países em tao pouco tempo.

Do lado de lá o resto da ninhada reclamava saudades, com razao. Nunca tiveram, e me arrisco a dizer que jamais terao, o privilégio que tive. Exclusividade total de minha amada mae.

Janota, eu te amo!

Tuesday, August 20, 2013

O Álcool, ou a falta dele, e a Sociedade

Saarbrücken (quanndo aqui vier vá na Gasthaus Zahn)

Por causa do post abaixo fiz uma promessa. Durante o intervalo da final, ainda 0x0 e o Galo nao jogando grandes coisas, sentenciei mentalmente: se ganharmos o título vou ficar 40 dias sem beber. Uma quaresma fora de época.

Ganhamos, como todo o Universo já está careca de saber, e estou cumprindo o prometido. Depois aumentei pra 42 dias, um pra cada ano sem o Atlético Mineiro ganhar um título importante. O primeiro, e único, foi o Brasileiro em 1971.

As últimas gotas de álcool vieram das latinhas, ou melhor, latoes frios de Brahma em frente a sede do Galo em Lourdes. Os 4,5% já nao faziam efeito algum. A adrenalina nao deixava.

O dia seguinte, uma quinta e ainda incrédulo, ocorreu sem bebidas. Nem no encontro fugaz com a cunhada, o cunhado, namorada e cia. no restaurante do ano, o 2013, resistiu. Poderia muito bem iniciar a promessa na sexta. Aliás, essa era a combinacao mental original. Enquanto eles bebiam coquetéis mirabolantes eu só olhava me sentindo um excluído.

Na sexta de manha a confusao do vôo cancelado e a remarcacao da volta via Guarulhos para o sábado a tarde me deram um dia a mais de Brasil. Agradeci os vouchers de taxi oferecidos pela Azul e me mandei de volta pra casa. Lucas me conta a boa notícia: ganhei de brinde uma festa de aniversário do tio querido, o Renato. Lá chegando me oferece um whisky. Ou mesmo uma cervejinha pra refrescar. Quem sabe um vinho português, aquele que eu adoro?! Nao tio, obrigado. Explico a promessa, ele sorri e diz: mas logo hoje?! Nao era pra eu estar aqui, e conto sobre a péssima manutencao das aeronaves celestes. Também, uma cia. aérea com esse nome nao poderia me transportar com o manto alvinegro.

No quinto ou sexto dia seguido vestindo uma camisa do Galo, incluindo a de 85 surrupiada do irmao com a desculpa de que "depois devolvo", parti pra Guarulhos de Azul. Normalmente em aeroportos procuro um pub ou restaurante e por lá fico. Bebendo e lendo um livro que trouxera ou acabara de comprar. Me sentei no bom restaurante cujo nome nao me lembro e o garcom pergunta se quero comemorar o título com uma caipirinha ou uma cerveja. Digo que ficarei no suco e seus olhos quase caem na mesa. Abstêmios se tornam sem educacao por natureza.

No aviao peco sempre uns dois ou três copos de vinho tinto acompanhando o jantar. Durmo antes da metade do primeiro filme. Dessa vez nao. Suco de laranja. Revira daqui e dali, mas dormir que é bom, nada. Na Suíca o passeio pelo freeshop foi uma tortura. Comprei os shampos que Ela encomendou, o creme para a pálpebra e chocolates na promocao. Depois fiquei ali olhando aqueles nomes tao familiares: Ardberg, Glenmorangie, Lagavulin, Laphroaig, Cardhu. Sem poder sorvê-los pareciam nomes de tribos celtas já extintas.

Já em casa na Alemanha, Ela me recebe aos beijos e abracos. O calor pede uma cerveja ou um bom branco alemao no jantar. Nada disso. Água ou suco. Sinto um olhar de aprovacao na promessa. Me sinto manco. Falta alguma coisa. Mesmo de banho tomado e vestindo roupas confortáveis sinto falta de algo. Visceralmente.

Após alguns dias comeco a me sentir melhor fisicamente. Mas psicologicamente nao me lembro de nada relevante que tenha acontecido. Nenhuma piada, discussao, encontro, zero. Adiciono exercicios aeróbicos a quaresma futebolística. Bicicleta, natacao e corridas. Comidas leves a noite. Frutas e iogurtes no meio das manhas e tardes. Emagreco facilmente. Ela gosta, embora comece a me estranhar. Me pergunta "quem é você?!"

Vem a primeira prova de fogo: um almoco na casa do amigo mais cachaceiro de todos. Ao saber ele provoca, me chama de boiola, diz que estou perdendo tempo e que o vinho tá ótimo. Masoquistamente, pego o copo dela e sinto o aroma. Realmente excelente. O gosto tá melhor ainda, retruca o sacripanta. Depois do almoco, whisky japonês. Aquele que os bons bebedores sabem qual é. Suntori, Hibiki ou Yamazaki. "Comprei naquela lojinha bacana que te falei", alfineta. Vejo-o em delírio profundo sentando no sofá rodando o copo nas maos. E eu com cara de paspalho tentando achar graca de mim mesmo. Me senti manco, agora mudo.

Ela pergunta se tá tudo bem. Diz que fiquei triste. E nos últimos dias tímido. Logo eu. Vamos em frente! Promessa é pra ser cumprida.

No final de semana seguinte, novas provacoes. Primeiro um almoco com o citado cachaceiro, Herr Bock, e o Luis na Altstadt. Justo num restaurante com Pilsner Urquell na bomba!!! Pedi suco de laranja (sic). Na saída, um passeio pela agradável tarde de sábado na cidade velha. Paramos onde?! Na Uerige Brauerei, a cervejaria de Altbier mais tradicional da cidade. Herr Bock é sádico por natureza. Fiquei olhando o vazio, falando pouco, gargalhadas só dos outros. Estou me adaptando, penso.

No dia seguinte, almoco com a turma. Outros dois cachaceiros adicionados ao grupo apenas pra me espezinhar. Mas me surpreendi com a reacao deles. Nada falaram, aceitaram respeitosamente minha situacao e pouco provocaram o pagador de promessas. Mais uma vez, suco de laranja enquanto copos de pils e altbier fluiam pela mesa com leveza.

Mas o pior ainda estava por vir. Encontro em Paris com o Emi Pê que passeava pela Europa. Chegamos na sexta a noite e cansados saímos pra beber alguma coisa. Na brasserie da esquina eu normalmente pediria uma cerveja. Ela nao quis beber e pediu um chá de menta. Resolvi acompanhar. Me senti um mulcumano numa mesquita parisiense. Nem sei se mulcumanos parisienses bebem chá de menta a noite, mas foi assim que me senti. Podem ser marroquinos também, tanto faz nesse caso. Eles adocam com mel?!

No sábado picnic em Versailles com direito a quitutes da Epicerie de Paris e vinhos tintos. Após insistentes pedidos, continuei no suco de laranja apesar da ocasiao pedir o contrário. A noite no restaurante que depois virou boate foi pior. Emi Pê e Chanel mandando ver nos tintos e as meninas na champa. Eu na água mineral. Com gás! Depois vieram os drinks e coquetéis. A turma ia se animando, comecando a dancar, fazer gracinhas, rir fácil. E eu lutando contra o sono. Balada sem bebida é uma merda. Foi aí que o Emi Pê contou do escocês que namorou a cunhada dele. Certa vez ele trouxe de presente uma garrafa do Monkey Shoulder, whisky venerado por vários branquelos de saiote. Nunca ouvi falar, respondi. E nao é que na prateleira do bar da boate tinha uma garrafa?! Ampola essa que nunca havia atravessado meu olhar. Ela olhou pra mim me seduzindo. Um copo vazio com apenas uma pedra de gelo repousava no balcao. Resisti bravamente a tentacao. Queria um café, mas nao tinha. Lutei contra o sono balancando o esqueleto enquanto o Emi Pê provocava um china dancando melhor do que ele. Cenas hilárias.

Hoje é o 27° dia sem beber e a promessa termina na quinta, 5 de Setembro. Serao 42 dias de desintoxicacao tentando ver a Vida por outra ótica. Percebendo o quanto somos dependentes do álcool. A única vantagem talvez seja poder dirigir sem preocupacao com blitz. Mesmo assim raspei o retrovisor do carro na parede saindo do estacionamento da boate em Paris e quase catei um meio-fio. Tava bêbado de água.

A bebida te inclui. Faz o individuo ser aceito no grupo. Ou discriminado e rechacado. Alivia as tensoes e diminui os problemas. Ou estes pelo menos sao esquecidos por uma tarde ou noite. A conversa flui leve e solta. As risadas saem naturalmente. O corpo responde automaticamente aos estímulos musicais. Fala-se alto. Bobagens e coisas importantes. Dizem que ficamos mais verdadeiros quando bêbados. Acho que eliminamos as máscaras e pudores. Amores nascem e morrem. Filhos sao feitos. Negócios comemorados. Títulos celebrados. Amizades fortalecidas. Momentos eternizados.

Ser sóbrio e sisudo demais nao faz bem a saúde. Voltarei em grande estilo bebendo menos, mas com mais qualidade ainda.

Wednesday, March 06, 2013

Brasil vs. Alemanha - Seguranca

Meerbusch (quem é o prisioneiro?!)

O Rheinpark se esparrama entre a Tonhalle, casa dedicada a concertos de música clássica, e a Theodor-Heuss-Brücke, uma ponte ligando Düsseldorf ao seu bairro mais nobre, Oberkassel. Fica a 10 min caminhando da Altstadt, a cidade velha e centro.

Nao sei exatamente quantos metros quadrados de área verde este pulmao da cidade possui. Nao é o único, talvez apenas o mais usado por seus cidadaos. Tem também o Hofgarten, Jardim da Esperanca, literalmente no coracao de Düsseldorf. E também o Volkspark, Parque do Povo, o Südpark, o Nordpark e até o Wildpark ao leste. Mas esse tá mais para floresta do que parque.

Sentados nos banquinhos casais namoram, velhinhos proseam, jovens dao suas primeiras tragadas e beijos, descolados fazem pic nic com paes, queijo e vinho branco. Amigos tomam algumas cervas combinando a próxima viagem ou relatando a última. O Reno logo em frente com suas barcacas movimentando a economia é testemunha de tudo. Ao ar livre

Nos finais de semana, jogos de futebol em campos improvisados dos mais diversos tamanhos celebram a paixao dos alemaes pela bola. Churrascos se iniciam nas horas mais variadas. Numa vez, durante as comemoracoes do doutorado do Pedro Brito e do Federico, comecamos um às 6 da tarde e varamos a madrugada até 4 da matina. Quem passava oferecia as sobras de suas parrillas, basicamente carne e cerveja. Aceitávamos tudo e a municao da festa nunca acabava.

No verao, centenas aproveitam o sol como podem. Seja lendo, jogando vôlei, brincando com cachorros, passeando com filhos, pais, maes, sogros, primos e amantes. O Biergarten fechado entre novembro e marco dá o ar da graca oferencendo litros e mais litros de pao líquido.

Ciclistas e corredores amadores e profissionais queimam a adiposidade acumulada no inverno. Pais de bike rebocando os filhos nas carretinhas, inline skates seguindo a ciclovia que continua após o parque, lentas caminhadas dos avós aconselhando os netos. O gramado e as árvores assistem a tudo isso, entra ano, sai ano. No verao montam uma tela imensa de cinema ao ar livre. Durante um mês tem-se uma experiência única de ver um filme com as luzes da cidade e o Reno ao fundo. Assistimos Shine a Light em 2012, Thomas, Juju e eu. Invariavelmente chove, fazer o que. Estamos na regiao de menor incidência solar da Alemanha.

A imensa maioria dos prédios nao tem garagem. Isso é luxo por aqui! Mas faz uma puta diferenca quando se mora em bairros movimentados onde achar uma vaga é mais difícil do que um assalto a mao armada. No inverno entao, pior ainda. Todo dia de manha o mesmo ritual. Limpar os vidros com a vassourinha e raspar o gelo das janelas. Tudo isso a 0° C ou menos. Mas é divertido por aqui nao neva muito.

A praca principal da cidade é utilizada o ano inteiro. Seja para feiras de vinho, encontro de carros antigos. celebracoes do 14 de Julho homenageando os franceses com barraquinhas de comidas típicas, um festival de outono com teatro e palco para shows, o Japanische Tag, dia dos japoneses - a segunda maior colônia dos nisseis fica em Düsseldorf - e até uma etapa do campeonato de ski já passou pela praca. Neste inverno uma roda gigante foi montada ali. Logo ao lado dela, chega-se na prefeitura com uma praca menor, mas também usada com frequência. Festival de jazz, mercados de arte, Karnival e tantos outros eventos. Alguns mendigos moram ali perto.

Seja rico ou pobre, sao eventos democráticos. Vai quem quer e tem vontade. Ao ar livre.

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No Parque Municipal de Belo Horizonte a mulher vinha calmamente caminhando com sua filha. Parou pra comprar algodao doce. Nesse curto intervalo, uma senhora chegou perto da menina e a segurou pelo braco. Ela reagiu tentando se desvencilhar. A mulher tentou agarrá-la de novo. A mae percebendo o perigo chegou perto. A possível sequestradora viu seus planos acabando e se mandou.

A reacao imediata é de nunca mais voltar no Parque mesmo sendo ele bem cuidado e policiado.

Desconheco casa ou edifício em BH sem garagem. E nenhum louco que deixa o carro dormir na rua. Os prédios tem áreas de lazer com churrasqueira e piscina. Ficam todos ali seguros aproveitando a folga do final de semana. Na ponta de cima, espacos e varandas gourmet garantem o alto nível da festa. Vistas estonteantes da cidade "dominada" embelezam mais ainda o visual. Cerva importada, carne idem, mostarda também, ketchup e molho barbecue obviamente que vem de fora também. Uma linguicinha marota aparece por ali balancando a bandeira verde amarela tentando participar da farra. Vinhos argentinos e chilenos sao presenca constante. Nada contra eles, pelo contrário. Acho ótimos!

Na outra ponta da corda, Gilberto assa alguns espetinhos numa lata de óleo em cima da laje. A turma faz a festa no pagode e samba de roda. Tem arroz e carne de segunda a rodo. Cachaca também. Aproveitam da mesma forma a folga do final de semana. A cerveja tem mais milho do que cevada, mas o que importa se tiver gelada?!

Carros andam com os vidros fumê, fechados no preto, sempre cerrados. Ar ligado, tá calor lá fora! Se puder blindar, melhor ainda. Mas é pra poucos. As lojinhas de bairro vao minguando lentamente cedendo lugar aos shoppings. Lá tem estacionamento coberto vigiado 24 horas, embora o estabelecimento nao se responsabilize por qualquer dano ao seu veículo.

E os cinemas?! Na Franca é uma festa ver tanto cineminha, cine clube e cinemao nas ruas. Um barato! Dá vontade de aprender francês só pra ir ao cinema. Os luminosos com os dizeres e horários dos filmes, posters e nomes dos artistas. Em BH o último que resiste é o Belas Artes. Até quando?!


A falta de seguranca gera tudo isso. Cada um cria a fortaleza que pode pra proteger-se da sociedade. Acham-se livres, mas sao prisioneiros de si mesmos. Nao podem andar por aí livremente com uma câmera registrando a arquitetura e as pessoas da cidade. Até podem, mas sempre com o pé atrás.

As empresas de seguranca eletrônica ganham rios de dinheiro por causa disso. Trancas, alarmes, seguradoras, segurancas particulares, guarda-costas. Um rio de dinheiro canalizado para combater algo que nao deveria existir. O medo da violência.

Aquele andar descompromissado, apreciando o por do sol de bracos dados com a pessoa amada é cena do interior. Mas bem interior mesmo, nos grotoes do país. As cidades médias brasileiras já estao perdendo esse charme. 

Solucao: sentencas padrao para crimes semelhantes.
Roubou um carro = 1 ano de cadeia;
Matou alguém = 20 anos de cadeia;
Crime hediondo = pena de morte;
Assalto a mao armada com vítima = 25 anos de xilindró. Uma tabela de crimes e punicoes a ser aplicada exemplarmente.

Desburocratizar a justica também ajudaria muito. Processos teriam direito a no máximo um recurso. Depois de julgado e a sentenca promulgada no Twitter do juiz o réu seria imediatamente preso e a pena iniciada na penitenciária mais próxima.

Presídios divididos em várias categorias iriam separar o joio do trigo. Assaltante de banco nao pode ficar preso com estuprador e muito menos com quem cometeu crime passional. Escolas e trabalho para os meliantes que pudessem ser recuperados garantiriam um retorno digno a sociedade.

Como o Brasil é o país de cotas, cria-se logo uma para as empresas empregarem 5% de ex-presidiários em seus quadros. Já seria um comeco.

A pergunta é: quem é o prisioneiro?!

Tuesday, March 05, 2013

Brasil vs. Alemanha - Mobilidade urbana

Meerbusch (explode tudo e comeca de novo)

Antes de entrar no carro hoje na ensolarada e fria manha alema já senti a brutal diferenca. O ar é mais puro e cristalino. O som do motor, imperceptível. Inseri o SD card e selecionei a música.

As rodas comecaram a girar num asfalto liso e impecável. Feito pra durar pelo menos 20 ou até 30 anos com as devidas e regulares manutencoes. Ruas limpas. Espaco para ciclistas, caminhantes e corredores ao lado da estradinha de acesso a Autobahn.

Os freios fizeram um barulho estranho. Talvez tenham ficado travados no frio do inverno de duas semanas atrás e as pastilhas grudaram nos discos. Isso pode ter causado alguma saliência. Amanha vejo isso.

No trânsito, nenhum sobressalto. Tudo perfeito e organizado. Peguei o primeiro túnel em direcao ao aeroporto. Logo alcancei a ponte sobre o Reno. Barcacas trafegavam subindo o rio com matéria prima essencial como combustível, areia, sucata, carvao. Outras desciam o Velho Chico alemao com produtos manufaturados como tratores, carros ou containers contendo os mais diversos bens de consumo durável e nao durável. Destino: Rotterdam ou Antuérpia.

Alguns metros depois, o aeroporto. Fica a quinze minutos do centro de Düsseldorf. Chega-se de carro e taxi, mas também de S-Bahn, o trem rápido, ônibus, trem regional, trem intercity ou mesmo os rápidos ICEs (Inter City Express) que chegam a 300 km/h. Dá pra ir de bicicleta também, mas carregar mala assim nao é muito inteligente.

Segui pela A44 passando pelo túnel que liga a estrada às vias de acesso ao aeroporto. Todas muito bem sinalizadas e fluindo. Passei antes por um radar limitador de velocidade a 100 km/h. Quase em ritmo de tartaruga quando se pensa na ausência de limites nas perfeitas autoestradas de todo o país. E que nao cobram pedágio. Sim, tudo de graca! Sao mantidas e renovadas com o dinheiro dos impostos.

Passei pela entrada da A52 a direita onde os Pendler, pessoas que moram numa cidade e trabalham noutra, seguem em direcao a Essen, Oberhausen e outras cidades. Na Renânia do Norte e Vestfália, ou Nordrhein Westfalen (NRW) tem-se a maior quantidade de Pendler da Alemanha. Isso se deve ao fato da maior conurbacao urbana do país cervejeiro ser aqui mesmo. O direito de ir e vir é garantido a todos.

Entre o túnel do aeroporto e o próximo nao há limite de velocidade. Passo pelo terceiro túnel e reduzo a 110 km/h, um pouquinho acima dos 100 permitidos. Vejo um cavalo num mini haras a minha direita. Me lembro que metade dos nossos engenheiros de campo possuem cavalos para diversao familiar nos finais de semana. Todos tem as carretinhas pra puxar o animal e o guardam e alimentam em fazendinhas apropriadas e acessíveis a seus bolsos. Sao trabalhadores da classe média.

Na entrada da A3 o trânsito se intensifica todos os dias. Basta que os carros se acomodem e o ritmo vai aumentando gradativamente. No trevo da A46 entro a direita em direcao a Hilden. Carros e caminhoes dividiram suas manhas comigo em perfeita harmonia. Nenhuma buzina ou piscadela sexy de farol.

Ao som de Otis Redding chego em Hilden. Trânsito inexistente também. Gastei 25 minutos para percorrer pouco mais de 40 km. Estaciono o carro na vaga do chefe que está de férias e fico pensando como seria essa mesma manha no país onde ele está.

O Brasil.

Para os sortudos que tem carro gasta-se facilmente uma hora pra sair da zona sul até o centro da cidade. Os engarrafamentos comecam já na saída dos bairros. Buzinas, filas duplas de colégios, as batidas ocasionais de sempre, obras com caminhoes saindo com terra e chegando com material, ônibus aos montes nas faixas exclusivas e fora delas. Motoboys, os que fazem a Vida dos brasileiros ser mais "prática" e "rápida" entopem as avenidas e ruas. Pedestres atravessam onde dá, até na faixa. Sinal vermelho é só decoracao. Mas confesso que também furei alguns nesses 15 dias.

Aleluia! Vi uma faixa exclusiva para ciclistas em plena Lourdes e Savassi!

E quem nao tem carro?! Se vira, mermao! A senhora que trabalha na casa da minha mae fazem 30 e tantos anos, fruto ainda da mentalidade escravagista do país, sai de casa normalmente às 5 da matina pra chegar às 8 no trabalho. Na volta é um pouco mais rápido por que ela sai mais cedo, lá pelas 4 da tarde. Me disse que fura a fila sim, que cansou de ser trouxa. Sempre respeitou, mas nao aguentava mais perder tantos ônibus e chegar mais tarde ainda em casa no bairro Sevilha por causa dos engracadinhos furoes. Me disse também que os jovens se sentam nos lugares dos mais velhos. E estes ficam ali, admirando a juventude ordinária.

O metrô de Belo Horizonte atente o leste e norte da cidade. Já tira muito carro e ônibus da cidade e fico imaginando como seria sem ele. Outro dia vi uma protecao na rua tampando o que seriam furos de sondagem para uma futura expansao. Em plena zona sul! Será?!

A qualidade do asfalto também é digna de nota. Entende-se facilmente o aumento nas vendas de SUVs, jipes e afins no Brasil após algumas horas transitando pelos bairros da cidade. Deveriam incluir BH no roteiro do Dakar 2014. Seria uma das etapas mais difíceis. Quando se asfalta uma via os bueiros sao esquecidos e ficam num nível mais baixo. Como se já nao bastassem os buracos existentes, criam-se outros novinhos em folha.

A Linha Verde que liga a cidade ao aeroporto de Confins, distante 45 km do centro, é nova e funciona bem. As duas principais vias de acesso a ela, Av. Cristiano Machado e Antônio Carlos + Pedro 1° seguem em obras de alargamento com viadutos variados. Estao quase prontas e já melhoraram bastante o tráfego. Finalmente desligaram aquele sinal estúpido que ficava quase no final da Cristiano, após a trincheira do Vilarinho. Travava tudo e todos criando centopéias gigantes diariamente.

Outro dia gastamos, Tavinho e eu, uma hora e meia pra ir da Av. Amazonas até Lagoa Santa pelo o Anel Rodoviário. Este já virou uma avenida da cidade. Todo mês um caminhao despenca lá de cima dos Olhos D'Água e sai catando quem tiver pela frente. De nada adiantam os redutores de velocidade. Tavinho disse que fomos rápido até.

Depois precisei de duas horas pra sair do mesmo ponto na Av. Amazonas pra chegar em Betim. Fomos ao Kartódromo Internacional com os gringos, era sexta-feira após seis da tarde, hora do rush. Mas a explicacao era outra: um caminhao tombou na entrada de Betim fechando a estrada e consequentemente a Amazonas. A maioria desviou pra Via Expressa e a bloqueou também.

O BRT (bus rapid transportation), nos moldes de Curitiba, é um ônibus elétrico que vai percorrer essas duas avenidas, Cristiano e Antônio + Pedro. As faixas centrais se destinam a isso.

Pergunta: por que nao fizeram um canteiro central mais largo na Linha Verde para instalacao futura de um BRT?! Ou mesmo de um trem regional ligando aeroporto à combalida e degradada rodoviária?!

Será que as sondagens para o metrô sao eleitoreiras ou verdadeiras?!

De nada adiantam essas solucoes paliativas. Jamais vao acompanhar o ritmo da producao automobilistica que inunda as cidades todos os dias com novas placas. E as antigas e ilegais continuam rodando. Carros sem condicoes mínimas de tráfego nao fazem a inspecao veicular e seguem por aí como barreiras impedindo o fluxo normal.



O grande problema, nesse caso e em tantos outros, é a falta de planejamento. Quando o temos dura no máximo 4 anos. O período entre uma eleicao e outra. Nao existe um Plano Nacional, Estadual ou Municipal dos Transportes. Nao se prevê o aumento de carros e pessoas e o impacto futuro nas cidades. Se fazem essa conta e nao a usam dá no mesmo.

As obras de hoje darao problema daqui no máximo 1 ano. Manutencao cara para o municipio e donos de veículos. Obras feitas para enriquecer as empreiteiras e suas poderosas famílias controladoras e os políticos que as aprovaram nas "licitacoes". O bem comum é sempre preterido em prol dos interesses pessoais. É e sempre foi assim no Brasil, com as raras excecoes de sempre, desde que Cabral por aqui aportou.

Solucao: como já cantaram os Titas, é alugar o Brasil! Para os alemaes, de preferência. Pelo menos no quesito transportes e infraestrutura urbana. Faríamos apenas os aportes mensais e participaríamos como ouvintes das reunioes de planejament, geralmente uma fase mais longa do que a execucao. E também no controle dos pagamentos. Os funcionários brasileiros viriam das melhores empresas do país com competência e principalmente caráter comprovados. Receberiam bons salários e benefícios, nos mesmos níveis das grandes multinacionais, e trabalhariam no mesmo ritmo e afinco.

Aos alemaes restaria o planejamento, execucao e treinamento dos brasileiros para manutencoes futuras.

Acho que 10 anos renováveis por mais 10 daria pra fazer muita coisa.

Frohes neues Jahr

Meerbusch (meu pós barba é óleo de peroba)

Ser cara de pau: desejar feliz ano novo em pleno mês de marco. Nao ficarei aqui remoendo os motivos do abandono bloguístico. Nem mesmo chorando as pitangas pela falta de Tempo.

Vamos direto ao assunto: Brasil vs. Alemanha e as improváveis comparacoes altamente pessoais.

Passei duas semanas em terra brasilis, mas parece ter sido um mês. O velho macete de acordar bem cedo pra ficar mais tempo à toa funcionou de novo. Dormir tarde, lá pelas uma da matina no mínimo, também ajuda na sensacao de expansao temporal. Einstein sabe tudo!

O treinamento foi interessante, mas cansativo. Conhecer os especialistas foi mais importante do que os assuntos. Visitar a caótica usina alema em solo carioca valeu pela experiência.

Pra dar volume ao blog falarei de Minas vs. Nordrhein Westfalen no próximo post.

Wednesday, December 12, 2012

Detesto ouzo

St. Ingbert, Saarland (pacata cidadezinha na fronteira com a Franca)

Lá fora fazem -3° C. Vi três pinguins batendo queixo no ponto de ônibus. Mais adiante, uma morsa de cachecol e gorro.

Entrei no hotel e do quarto nao saí mais. Quase, pois precisava comer. Antes havia pegado as chaves na recepcao que ficava no restaurante grego. Akropolis, pra variar.

Ao ronco do estômago, saí encapotado até os dentes rumo ao Panthéon. O salao estava vazio. Duas mesas. Uma senhora com a filha, provavelmente. Dois caras estranhos planejando um atentado, talvez.

O maitre gorducho e fedido, parecendo o Seu Barriga com cabelos mais brancos, me indicou a mesa ao lado da lareira. Sim, um luxo. "O sr. vai precisar de luz", me disse ele ao perceber o livro. "Aqui tá bom".

Nas paredes, Mykonos, Santorini, Lesbos, Ios e Kreta. Palmeiras artificiais ornavam o salao. Mais brega, impossível. Os possíveis terroristas agora falavam de carro. Discutiam a potência de determinando modelo. Supostas mae e filha eram amigas de geracoes distintas.

Uma grande mesa com um reserviert na ponta era constantemente checada pelo Barriga. Mexia num garfo e ia buscar uma cerveja. Voltava e melhorava a posicao do guardanapo.

Pergunto se eu queria beber algo. "Entrada, prato principal?!". Estava com tempo e nao gosto que ditem meu ritmo. Fiz hora com ele, mas pedi um goulash enquanto decidia o que beber.

Ao lado do fogo crepitando, estátuas brancas. Na verdade, mini estátuas. Seriam Adonis e Arthemis?! "Tem vinho?!", questionei. "Claro, branco ou tinto. Seco, semi-seco ou suave." Quase pedi uma coca-cola.

Comecei a ler o livro ao som de cancoes athenienses. Me lembrei do bardo Chatotorix, personagem do Asterix. O autor das músicas teria tido o mesmo fim em outros tempos.

Chegou o vinho, depois do goulash. E um copinho com um líquido transparente. Perguntei se era água. A menina disse apenas "Ouzo". É a cachaca grega. Senti o cheiro de anis, mas resolvi experimentar assim mesmo. Detesto anis. Desceu quadrado. Encostei o copinho e provei o vinho. Um losango escorregou por meu esôfago, mas cortou o sabor do ouzo. Antes assim.

Com os goles, o vinho melhorou. Fiz questao de nao guardar o nome. Era grego. Nao sei de qual ilha. Pode ser do continente também.

Após dar a última colherada, mais pressao do Barriga. "Posso recolher o cardápio?!". "Nao, ainda vou pedir", disse calmamente. O restaurante estava vazio e eu nao entendia o por que da insistência.

Após algumas páginas e goles, pedi um Schnitzel. Nao tem erro. Mesmo se for mal feito ainda assim é bom. E até que estava gostoso, com fritas e uma saladinha. Veio rápido, assim como a coca que finalmente pedi.

Passados alguns minutos, entendi o motivo da tensao do Barriga. Uma matilha de velhinhos, em plena quarta-feira numa pacata cidadezinha do interior alemao, adentra o recinto. Se acomodam na mesa reserviert alegremente.

Barriga todo feliz corre a anotar os pedidos. "Gyros para o senhor?!". "Com ou sem tzaziki?!" "Pra mim pode ser com." "Ah, mas pra mim é sem viu", reclama a velhinha de 92 anos. É impressionante como a populacao idosa aproveita a Vida na Alemanha. Na Europa de modo geral. Quero me aposentar aqui.

Pensei que o encontro fosse os preparativos para o Baile da Saudade em St. Ingbert, mas me lembrei que a palavra saudade só existe em português.

O copinho com ouzo gratuito e abominável chegou nas doze maos. Os seis casais brindaram a noite gelada lá fora e agradável aqui dentro.

Detesto ouzo.



Monday, March 26, 2012

As Ovelhas do Reno

Düsseldorf (sozinho é ruim...)

O inverno acabou, a primavera chegou e o horário de verao europeu também. Está aberta a temporada de churrascos. Impressionante como muda tudo em uma semana. O astral das pessoas principalmente. É como se saíssem de uma camisa-de-forca.

A idéia era sair um pouquinho mais cedo pra chegar em casa, pegar a bike e dar um rolé. Ela tá em Lisboa resolvendo assuntos jurídicos mirabolantes. Como gosto de ficar sozinho só quando tenho companhia, resolvi me mandar. No caminho já vi a bola laranja vagarosamente descer. Achei que daria tempo. Larguei tudo, peguei as luzinhas e a bike, e o remédio do chefe, e me mandei na direcao da claridade. Ainda via a borda superior ir calmamente mergulhando numa rua qualquer entre os prédios.

Cheguei na praca principal, cheia, e só uma alaranjado me esperava. Vi tiradores de retrato, a turma da escadaria, dois velhinhos e uma senhora proseando. E uma velha puxando com dificuldades um carrinho de supermercado lotado de latinhas vazias. Ela tava de verde.

Passei pelo Eis Cafe do Altair e virei na Ratinger Straße. Ali temos um altar do lado de fora da igreja. Fiz o sinal da cruz em respeito e observei a sombria igreja. Por que gosto tanto de catedrais?! Do seu silêncio?! Das pessoas que ali vao orar?! Da arquitetura e obras de Arte?!

No gramado em frente a Kunstakademie os alunos faziam arte literalmente. Quis ser um deles. De jogar tudo pro alto e ali sentar. E conversar, em alemao, sobre os rumos do Mundo, o sentido da Arte e por que ninguém nao lê mais. No Brasil por que aqui a indústria editorial e literária só cresce. Com transporte público de qualidade a coisa mais fácil e prazeirosa de fazer o Tempo passar, que coisa estúpida, é ler um bom livro. Ou revista. Tenho saudades.

Continuei pela orla do Reno. Ou Rhein. Der Rhein, O Reno. Tá pensando o que?! Napoleao já o atravessou triunfante e desfilou pela cidade. O antigo castelo se derreteu em chamas lá pelos idos de 1800 e guaraná com rolha. O que ficou foi a solitária torre. A ponte estaiada refletia roxa em Oberkassel. Desci as rampas passando por grupinhos de estudantes. Soltos no verde, conversavam, faziam fogueira, soltavam fogos, namoravam os primeiros beijos, bebiam os parcos e únicos goles de sua Existência. E deixavam restos de sua presenca com bastante lixo.

Vi o rebanho de ovelhas lá do alto da ponte. Achei uma árvore parecida e encostei a bike. A cidade do outro lado, dividida pela água lentamente em movimento. Os cafés e casamatas na beira se iluminavam e convidavam para a primeira noite de primavera.

Acendi um cigarro e me senti numa cena de Palermo Shooting. No filme o fotógrafo frustrado tem uma conversa filosófica ali naquele mesmo local. Uma névoa leve tampava a cidade do outro lado, mas revelava os animais brancos em maioria. Só que a cena é ficcao e eu vivia a realidade. Ali fiquei pensando em liberdade. E o quao importante é a seguranca de ir, estar e vir numa sociedade.

Um casal passou por mim. Resolvi me mandar. Dei a volta por baixo da outra ponte e subi olhando o único carro da orla. Parecia ter um casal dentro. Ou dois amigos do lado de fora. Achei que fosse a polícia. Desci do outro lado e segui pelo calcadao. Achando que estava sendo seguido. Ou observado. Um casal de bicicletas vinha pelo passeio, mas pensei ser um carro andando ali sem poder.

Voltei pra praca principal, já sem a velhinha do carrinho, e virei na mesma rua. O altar me olhou e piscou de leve. Abaixei a cabeca e segui deslizando pelos paralelepípedos. Na esquina quase trombei com uma mulher parada. Mas nem encostamos. O buxixo dos bares apenas comecava. Alt bier é bom demais.

Atravessei a Heinrich-Heine-Allee e segui pelo Hofgarten. Escuro, na capital da Renânia do Norte. E eu o conheco como a palma da mao. O movimento ali era intenso. Indo e vindo. Mais rápido e menos lento. Me senti numa Autobahn de bikes. Com todos respeitando perfeitamente a sinalizacao. Até eu. Um casal seguia em dois modelos. Um pra uma pessoa e outro com uma carretinha. Era uma Scania na minha frente dando seta pra abastecer. Errou a entrada da praca, mas depois me seguiu.

E ali algo aconteceu. Da escuridao pedalávamos todos em linha na direcao de uma luz intensa.Os galhos desabrigados das árvores eram iluminados por bancos feitos com lâmpadas fluorescentes. E ali, como naves espaciais rumo ao branco infinito, atravessamos pra outra dimensao.

E demos de cara com o Goethe Museum. Segui meu caminho até chegar numa esquina. Ali vi mais uma vez um belo exemplo de respeitar o trânsito, as regras, as leis. Ser um cidadao. A moca parou no sinal. Eu também. Ela seguiu após o verde. Eu fui junto. Ela seguiu pelo passeio pra esperar o sinal do outro cruzamento abrir. Eu simplesmente atravessei a rua, por que nao vinham carros, e segui. Passaram-se segundos e ela me ultrapassou.

Já em casa e de bike guardada, futebol, cerveja e comida me aguardavam. Uma omelete acompanhada de Duvel me fizeram pensar de novo nos privilégios em se poder atravessar o parque da cidade a noite. Local seguro e bem cuidado. Público, sem cercas ou muros. Ali para todos usarem e abusarem. Desde que respeitem as regras e os outros. E nao castelos egoisticamente construídos pra recriar ali dentro o que só se encontra lá fora.

Seriam as ovelhas, soltas admirando o Reno e a cidade, um símbolo da Liberdade?!

Wednesday, March 07, 2012

Ligeirinho

Saarbrücken (minha base avançada nas margens do Saar)

Por esse carrinho eu empataria uma grana. Deve ser uma maravilha nas estradas sinuosas e montanhosas da Europa Central. E nas Autobahnen entao...

Thursday, March 01, 2012

Saarlouis e a adega de 800 garrafas

Düsseldorf (ah, os clientes...)

Crônica originalmente escrita por este que vos bloga em Saarbrücken no dia 23 de Fevereiro deste ano.

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Saarbrücken (mais dois amigos pra colecao)

Depois de um certo tempo morando na Alemanha comecamos a conhecer melhor os hábitos e diferencas culturais dos germânicos. Sao frios e distantes no início. Empurram a mao que apertam na  direcao contrária após os primeiros encontroos. Nunca falam da Vida privada em ambiente de trabalho, mas sao fofoqueiros profissionais em particular. Colegas de trabalho se tratam por Sie, versao formal igual a Senhor seguida do nome de família, por anos a fio. Nao importa o nível de intimidade. Até que um belo dia, 20 anos depois, um olha pra cara do outro e pergunta: "Posso te chamar de Walter?! Claro. Mas só se eu te chamar agora de Stefan!" Sem sacanagem, presenciei essa cena e rachei de rir na frente dos dois.

Saí hoje com um cliente e sua esposa. Ela deveria ter vindo, mas me enganbelou bonito. Disse que tinha um evento em Hamburg, nao ocorrido, e me deu um bolo. OK, kein Problem! Fomos ao restaurante preferido de Herr B. em Saarlouis, cidade franco-prussiana na regiao de Saarland. Bem próximo a Luxemburgo e colado na fronteira francesa. Por fora a casinha nao tinha nada demais, mas por dentro uma ótima comida, vinhos de respeito e um atendimento de primeira. Assim me relatou Herr B., observado por sua senhora, Frau H., que balancava a cabeca afirmativamente a cada três frases do marido.

Se conheceram no coral da igreja. Achei que tivesse sido no pré-primário ou maternal. Sao desses casais que já nasceram juntos. Parecem inseparáveis, unha e carne. Se conhecem como a palma da mao e um olhar basta pra dizer dois parágrafos. Nasceram aqui perto mesmo em cidadezinhas satélite. Dois filhos já crescidos e devidamente despachados do doce lar. “O silêncio em casa às vezes fica alto demais”, me conta Herr B

Por isso, saem quase toda quinta-feira pra jantar. Ou ir a alguma ópera, teatro, ballet ou mesmo cinema. O interesse de ambos pelas Artes surgiu exatamente nos tempos do coral. Scala de Milao, festival Richard Wagner em Bayreuth, Wiener Staatsoper em Viena e tantas outras salas de espetáculo famosas já acomodaram em suas confortáveis poltronas de veludo o casal B e H (leia-se Bê e Rá) e suas rechonchudas buzanfas. E agora, segundo discurso empolgado e ansioso de Herr B., os assentos do Teatro la Fenice em Veneza terao o prazer de ser esmagados recebendo-os. Compraram os ingressos ontem e hoje já chegaram pelo correio. Ficaram espantados com a honestidade e rapidez dos italianos, apesar da crise do Euro, desemprego, Máfia, lixo atômico, etc..

Descambamos a falar de vinhos após Herr B. fazer questao de pedir um branco já conhecido seu. Deixei-o a vontade, claro. Anste mesmo de olhar a carta já havia ordenado um campari com suco de limao para si e o mesmo suco, sem o campari, pra Frau H. Ela iria dirigir, me disse ele gargalhante e bonachao. Aceitei o Cremant sugerido pela garconente, vulgo Kellnerin em alemao. Um vinho do Val del Loire aterrisou em nossa mesa e logo em seguida no copo de Herr B.. Provou-o, como se precisasse, e aprovou. Realmente, uma delícia.

Ao pedir minha entrada, um foie gras, recomendou-me um vinho de sobremesa. “Um Eiswein?!” perguntei-lhe?! “Você conhece?!”. Respondi que sim invocando a degustacao no Markus Molitor. Nao entrei em detalhes caxemirescos, mas ele aprovou e disse conhecer também.

Falamos mais de Vienna, dos cafés, óperas e música clássica. E de Berlin e da vez em que fiz uma surpresa para minha mae e tia levando-as a um concerto na Berliner Philarmonie, uma das casas mais famosas do gênero. E do Japao, China e Hong Kong, visitados pelo casal saarlouisiano, mas nao por mim. Ainda. New York, Luxemburgo e suas bebidas e combustível baratos. Das várias regioes vinícolas ao nosso redor. Do vale do Ahr, pertinho de Düsseldorf, onde encontra-se um excelente tinto.

Aí contei do meu amigo Weinfreak, ou maluco por vinhos em bom português. Nao citarei seu nome em vao por que estamos em negociacoes. Ele pode ser o mais novo colunista do Truta... a ver. Discorrerá sobre assuntos variados como fabricacao de fósforos, rock antes de Elvis, vinhos chilenos envelhecidos e em como dar papinha sem o neném chorar. Mas isso é assunto para vários outros carnavais.

Falando nisso, me lembrem de escrever a estória do melhor Carnaval da minha Vida. Em 2003. Comecou em Tiradentes num sábado a tarde chuvoso e terminou em Cabo Frio com a macacada reunida, nao sem antes passar pela Sapucaí e desfilar pela Beija-Flor.

E me lembrem também da Cracóvia, Novembro de 2004. Era pra dormir no hotel, mas me virei de outro jeito. Tem até video comprovando o fato. Ou loucura inconsequente mesmo.

“Deve ter umas 200 garrafas”, contei todo garboso sobre a adega do meu amigo, como se fosse minha. Um sorriso estampou-se imediatamente no rosto de Herr B. Parecia o gato da Alice no País das Maravilhas  colorido na minha frente. Só nao voava. “Tenho também minha própria adega, mas com 800 garrafas”. Ganhei o cara, pensei. Contou-me suas preferências pelos italianos do Vêneto e Piemonte. Barolos e Barbarescos. Seu amor pelos franceses de Bordeaux e Val del Loire. E sua idolatria pelos vinhos da Toscana, em especial o Sassicaia.

De trabalho mesmo falamos muito pouco. Reclamou da nossa última proposta. Os precos estao caros. Novidade. Vender barato qualquer um vende. Contou-me que a producao vai aumentar com a entrada de novos pedidos. E que o embargo americano ao Iran está fudendo meio Mundo, eles em particular.

Meu Entrecôte tava uma maravilha acompanhado de legumes no vapor e “hausgemacht” fritas. Herr B. me contou ser esse um dos motivos do restaurante figurar entre seus preferidos. “Já nao se encontra mais batatas fritas caseiras. Todo mundo manda comprar industrializado”, disse entre uma garfada e outra de satisfacao.

Pulamos a sobremesa e o espresso veio com leite quente separado com uma espuma perfeita em cima. E um bolo mármore, que tem o mesmo nome aqui na Alemanha. Me lembrei de Janemamae e Titas fazendo seus bolos idênticos no nome, mas maravilhosos. Paguei enquanto bebiam o segundo espresso, esse por conta da casa.

Agradeceram, falaram que da próxima vez minha mulher tem que vir, e que vamos combinar uma próxima vez em breve. Aliás, disseram isso sobre Ela umas três vezes.

Antes de sair, ganhei duas dicas de lugares interessantes aqui perto para visitar. “Come-se bem e tem ótimos vinhos. Além de serem cidades pitorescas e românticas”. Só nao falo os nomes por que quero conferir eu mesmo. Mas prometo escrever os diários de viagem. Ficam no médio Reno. Mais nao digo.

Ganhei mais dois amigos!

Thursday, February 09, 2012

Riesling da Caxemira

Düsseldorf (mantenha a mente aberta)

A Europa tem dessas coisas. Voltando de reunioes ocorridas em Saarland, sudoeste da Alemanha, passamos pelo Mosel. E lembramos de um excelente produtor local de Riesling, Markus Molitor. Olhamos no GPS e estaríamos lá cinco pras cinco da tarde. Ligamos pra saber até quando ficaria aberto: 17h na pinta. "A senhora pode ficar mais uns dez minutinhos aberta pra gente comprar algumas garrafas?!". Diante da resposta positiva, desviamos o rumo com um sorriso maroto no canto da boca.

Ao chegar a Frau nos pergunta se queremos provar os vinhos. Um olha pra cara do outro, um sou eu e o outro o Luis, meu chefe, e balancamos a cabeca afirmativamente. Como a sede principal da vinícula Molitor está em reformas, atendem agora provisoriamente numa outra casa. Que vem a ser a casa da sogra da citada Frau, uma funcionária da empresa e nao membro da família Molitor. Nao importa.

Sentamos na mesa da sala de jantar, no segundo andar da casa, com vista para o Mosel. Dois copos pra cada e a Frau some pra buscar as garrafas. Entra um sujeito, parecendo indiano, e se junta a nós. Disse nao ter provado todos os vinhos da casa ainda e usaria a oportunidade para tal. Acabara de comecar na casa, no início de Fevereiro. Viveu 20 anos na Franca, especialista em pinot noir da Borgonha. Quis mudar de ares, procurar "novos desafios" na carreira. E ali parou.

Frau chega e nos mostra as cinco primeiras garrafas. O primeiro justamente um pinot noir alemao, legítimo e sem sotaque. Pra surpresa do Luis, que só esperava Rieslings, o vinho desce como um veludo. Ariff Jamal, que era realmente indiano, também sorri após o primeiro gole. Mas nos conta que é uma uva complexa, precisa de tempo no copo pra respirar. Nos aconselha a deixá-lo de lado por um tempo. E que o melhor gole é sempre o último.

As garrafas de nr. 6 a 10 nos sao apresentadas. Cada uma com sua particularidade, ano de producao, vinhedo, tempo de colheita da uva e característica diferentes. Termino um 2010 Graacher Domprobst, apenas pra citar o nome do vinho fingindo que sou entendido - na verdade, acabo de olhar na lista de precos - e leio a descricao de sabores e aromas de um outro vinho da casa. Comento com a Frau que das duas uma: ou ainda nao desenvolvi sensibilidade suficiente pra perceber os odores e sabores descritos ou tudo aquilo é pura cascata de marqueteiro. Ela reconhece ser mesmo um exagero. O texto fala de aromas de nectarina, damasco, pêra e pêssego branco da regiao. Pra mim só existia o amarelinho.

Jamal diz que leva tempo pra perceber tudo isso, mas também acha um exagero. Diz que cada um sente e percebe cheiros e sabores de formas diferentes. Um vinho fabuloso pra uma pessoa pode nao ser tao apreciado por outra.

Mas acho meio viagem. Por exemplo, a opiniao do distinto enólogo após provar um champagne Pierre Gimonnet:


Ao mesmo tempo muito rico e delicadamente cítrico, desenvolve um fundo sutil de notas florais e minerais, eis um Champagne magnífico. Na boca é amplo, cremoso e aerado, este vinho de exceção deixa ao degustador uma grande lembrança enófila.

Muito vago e subjetivo. "Delicadamente cítrico", mais para limao, laranja, lima ou abacaxi?! "notas florais e mineirais", quais deles?! Margarida, orquídea, dama-da-noite, lírio ou papoula pra te enlouquecer?! E os minerais?! Sulfatos, carbonatos, óxidos ou fosfatos?! Cremoso pra mim é requeijao ou o próprio creme de leite que a Nestlé nao vende na Europa. Mas, vamos em frente.

Frau vai empolgando e enfiando um vinho atrás do outro na gente. Lá pelas tantas, Jamal remete a sua infância. Nos conta que vem da Caxemira e fora forçado a aprender os idiomas dos dois lados, Índia e Paquistao. Disse que certos vinhos sao tao inesquecíveis como a primeira palmada que ganhou do pai. Se mudou pra Délhi e ali, além do inglês, aprendeu os dialetos da regiao. Depois veio pra Europa e aprender francês e alemao foi moleza.

Nessa brincadeira Jamal comeca a explicar que os processos de fabricacao no Molitor sao todos manuais devido aos terrenos íngrimes ao redor do Mosel. Máquina nao entra, só a mao humana. E que o processo de fermentaçao, que nos americanos é todo controlado por computador nos tanques de inox brilhantes do Napa Valley, ali sao regidos pela Natureza. O nome em alemao de um desses processos é simples: "Thermokontroliertevergärungsabwicklung". Como 2 + 2 = 4. Isso nada mais é do que o processo de fermentacao controlado por temperatura. Sao tantos os parâmetros regendo os micro-climas dessas regioes e seus impactos nas safras que brinco dizendo ser como um malabarista com 12 bolas no ar. Se uma cair o vinho nao sai mais perfeito.

Garrafas nr. 11 a 15 na mesa da empolgada Frau a postos. Um tal Trockenbeerenauslese, ou TBA para os íntimos, nos é garbosamente mostrado. Aprendemos depois que num mesmo cacho das videiras centenárias de Herr Molitor, o Auslese é a uva madura com bastante suco, a Spätlese (spät = tarde) é ela bem mais madura e quase apodrecendo com um teor de acúcar maior, e a TBA é a uva seca, quase como uma uva passa com pouco suco, mas muito mais acúcar que as outras. Por isso a producao da TBA é bem menor, mais rara e, evidentemente, mais cara. O vinho que sai dela é um néctar dos deuses, fabuloso.

E pra fechar Frau traz um Eiswein, ou vinho gelo em traducao literal. Sao as uvas que nao sao colhidas na primavera e congelam no inverno mantendo um teor de acúcar nas alturas. Uma combinacao de temperatura e duracao do inverno tem que acontecer pra se conseguir colher o Eiswein. E nao é todo ano que isso acontece. Por isso as garrafas sao mais limitadas ainda que o TBA. Tem um de 1998 custando € 1.190,60. É mole?!

Bem, Jamal nos deu várias outras dicas, comparou vinhos a mulheres dancando com ventos esvoacantes balancando seus vestidos vermelhos nas estepes da Caxemira. Mesmo com 20 anos de Borgonha o álcool ainda faz um bom efeito nele. Nos convidou pra visitar o stand da família Molitor na ProWein, feira de vinhos que acontece todo mes de Março em Düsseldorf, e pra continuar visitando a regiao sempre que passarmos por ali.

Os dez minutinhos da Frau viraram hora e meia, mas saímos todos satisfeitos com os aromas, sabores, conversas e garrafas do Mittel Mosel.

Bom que fica no caminho. Quando acabar é só passar ali e encher o tanque.