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Tuesday, February 26, 2019

Neuzo fez 30 anos

Viena (quem espera, sempre alcança)

No dia 23 de junho de 2018 o Neuzo, meu Trabant ou Trabi para os íntimos, completou 30 anos. Fazem mais de três décadas que ele deixou a fábrica de Zwickau na Saxônia e saiu por aí enfeitando o mundo. É agora considerado um carro clássico. Um placa preta no Brasil ou um Oldtimer aqui na Europa. Ainda não tomei as providências para registrá-lo assim, mas tomarei. Um dia.

O Trabant é aquele carrinho icônico da Alemanha Oriental, um dos símbolos daquela época difícil dos irmãos do Leste. Algumas famílias esperavam meses, até mais de um ano na fila pra conseguir comprar um desses. E pagavam caro, muito caro. Era artigo de luxo, apesar do carro em si não ter luxo algum. Por coincidência, o meu Trabi é do modelo "601 De Luxe" que de luxuoso mesmo só a capa do encosto de cabeça feita de um tipo de veludo. Costumo dizer que é o "Winter Pakett", ou "opcional de inverno" em português.

Um carrinho assim desperta emoções e faz os corações baterem mais rápido por onde passa. Especialmente em Viena, capital da Áustria, colada no Leste Europeu. A presença de muitos polacos, tchecos, eslovacos, eslovenos, croatas, romenos, húngaros e, por que não, alemães nascidos no lado oriental faz com que o Neuzo chame mais a atenção nas ruas do que um Porsche 911 Targa último tipo. Em menos de uma hora de carro ou trem chega-se em Bratislava, atual capital da Eslováquia, antiga Tchecoslováquia. Basta pegar um barco no Donaukanal e deixá-lo seguir a correnteza pelo Danúbio e chegamos lá.

Hoje mesmo saí pra dar umas bandas lá no 22, o 22° distrito de Viena que é o maior da cidade correspondendo por 25% da área. Fui levar um panelão usado pra transportar a feijoada do meu aniversário. A Cléa fez sob encomenda e foi um sucesso. O conjunto de prédios onde ela mora está em reforma. A construção civil aqui é composta basicamente por cidadãos do leste europeu e turcos. Quando me viram de longe ficaram parados só observando o Neuzo vindo vagarosamente pela rua com sorrisos nos rostos emocionados. Me senti numa Ferrari zero desfilando em Monte Carlo. Desci do carro e dois caras já chegaram elogiando dizendo que era um "cooles Auto" ou seja, um carro bacana. Perguntaram o ano de fabricação e outros detalhes.

Por onde passa o Neuzo desperta reações. Seja um jóia tímido, um sorriso maroto, um pescoço virado, tchauzinhos das crianças nos outros carros e mesmo inspeções minuciosas de curiosos e admiradores quando o carro está estacionado. Nunca me perguntaram se eu venderia. "Por dinheiro nenhum do mundo" seria a resposta, na ponta da língua.

O Friedrich, meu mecânico vienense, tem uns 8 Trabis. Fora outros 40 ou 50 e tantos carros, a maioria Fuscas e Kombis. É um doido varrido acumulador e não um colecionador já que no máximo uns 10 carros desse total estão em bom estado. Ele vive quebrando meus galhos, fazendo inspeção anual, comprando pecas e trocando o que precisa ser consertado. Sempre cobrou só a mão de obra e o valor das pecas. Faz por que gosta e foi com a minha cara desde o início. Em 2017 importei um Fusca Itamar Série Ouro pra ele, vermelho Dakar. Uma beleza! Quer agora uma Kombi 1974, 75 ou 76. Não sei exatamente por que desses anos específicos.

Abaixo Neuzo e um dos Trabis do Friedrich. Acho que esse é um que ele comprou batido na Bavária com 3.800 KM. Uma raridade!


Desconfio que Friedrich seja herdeiro de uma rica família ou tenha ganho na loteria ou a esposa morreu num pavoroso acidente de lancha e ele embolsou o polpudo seguro de Vida. Não tem explicação um cara morar no 3° distrito, numa cobertura, com uma mega garagem pra mais de 20 carros e viver dos ganhos de sua oficina mecânica dedicada a consertar principalmente Fuscas e carros populares. Ele me convidou pra festa dos seus 50 anos, mas infelizmente eu tinha outro programa. Tenho certeza que foi uma noite memorável ao aroma de óleo dois tempos e muita conversa sobre quatro rodas.

Alguns dos carros da garagem do Friedrich no 3° distrito. Esse Karman Ghia tá sem estofamento e tapeçaria, mas a parte mecânica tá ok. Desde 2014 ele fala que vai terminar de restaurar...


Quando o Trabant fez 60 anos no dia 7 de novembro de 2017 a Deutsche Welle publicou esta reportagem especial. E no dia 30 de abril de 1991 o último Trabi foi fabricado. Segundo esta outra reportagem da DW "Exatamente 3.069.099 unidades foram fabricadas até as 14h51 do dia 30 de abril de 1991, quando a montadora Sachsenring encerrou a produção do lendário veículo.

Ele já foi chamado de "Porsche de plástico" por causa da carroceria e Duraplast que solta gases tóxicos quando pega fogo e não pode ser reciclada. Dizem que para se consertar um Trabi basta ter tesoura e cola em maos. E assim segue a história desse carinho carismático e amado pelo mundo.

Um carro antigo é como uma Máquina do Tempo. Toda vez que entro no Neuzo e dou a partida ele sempre pega de primeira, mesmo nos dias mais frios do inverno. Claro que o afogador ajuda, mas preciso dele até no verão. Ali dentro volto alguns anos no passado e fico imaginando os trabalhadores que gastaram horas de suor, dedicação e, por que não, amor na sua construção. Penso nos testes da linha de montagem tao simples e ao mesmo tempo toscos visto em videos no youtube. Nos seus outros pouco mais de 3 milhões de irmãos espalhados pela Europa principalmente. Hoje em dia esse número é menor já que muitos foram sucateados sendo usados como peca de reposição para outros nobres irmãos.

Fico viajando e especulando por onde ele andou, quem transportou, o que as pessoas que nele andaram falaram, fizeram, sentiram. Será que alguém já namorou dentro do Neuzo? Houveram brigas? Crianças foram transportadas felizes da Vida no banco de trás? Quantas vezes os bancos ficaram sujos de suco de uva e biscoitos Leibniz dos moleques?! E os apertos nas estradas? Queria muito saber quantas vezes Neuzo teve os pneus furados e quais foram os motivos. Será que Neuzo já participou de alguma tentativa de fuga da Cortina de Ferro tentando atravessar a fronteira do lado Oriental com o Ocidental na calada de uma noite de lua nova na floresta da Turíngia?! Já bateu ou bateram nele?! Tinha seguro?!

Jamais saberei, mas um dia vou perguntar. Quem sabe entre uma marcha e outra ele me conta.

Monday, November 14, 2011

Há um ano atrás...

Düsseldorf (... saudades...)

Há exatos 365 dias atrás eu estava em Belo Horizonte. Vivia talvez a experiência mais forte da minha Vida. E ao lado do meu irmao, Rato.

Juntos cuidamos para que nosso Pai partisse com o máximo de conforto e o mínimo de sofrimento. Sua alma se libertou do cárcere chamado corpo e flutuou. Na verdade, sublimou. Livrou-se da carcaca que por 69 longos anos a acolheu. Subiu leve e solta. Pronta pra outra missao. Dessa vez mais nobre, talvez.

Por aqui, o que havia de ser feito tinha sido. Cinco filhos criados, esposa fiel e companheira leal, exercício da profissao de engenheiro honrada com competência, honestidade e solidariedade com os colegas que acabaram virando amigos. Na família nao era diferente. O do meio era querido pra cima e pra baixo.

Nao era de muitos amigos. A timidez falava mais alto. Mas a família e a Vida caseira mais ainda. Gostava de ver novelas com o do meio, engracado isso, tomar seu whisky com castanhas na sexta assistindo a um bom filme. Consertava as "coisas" da casa de Lagoa Santa. Tratava todos os funcionários com respeito e justica. E muita solidariedade. Ajudava quando podia. E se nao tinha jeito, arrumava um.

Nao teve Pai, aliás, teve sim mas o perdeu com apenas 6 aninhos. Viu no sogro, meu xará, um substituto a altura. Melhor, impossível.

Falava alemao. Ganhou passagens da Lufthansa num sorteio da empresa. Sempre soube que era sortudo. Morou 3 meses em Rothemburg ob der Tauber, no norte da Bavária. Saia de casa às 5h da matina quando queria fotografar a cidade. A horda de japoneses nao permitia chapas em horários comerciais.

Dependurava os queijos Polenguinho no telhado, pela janela do sótao, e quando a fome apertava na alta madrugada ali estavam eles. Fresquinhos e prontos pra escorregar até o estômago.

Dirigia bem, apesar das várias encostadinhas e arranhoes. Já arrancou um incauto condutor de Kombi ao sofrer uma batida traseira em sua Belina zero. Nos levava até Joaíma numa epopéia que durava entre 12 e 15 horas, dependendo da estrada e do número de paradas. Uma vez, o do meio caiu pra trás num almoco em Governador Valadares. Um corre-corre danado, mas nao foi nada. Só susto.

Nasceu em Campo Belo, filho de caixeiro viajante. De nome Tonico Sapeca. Já fomos a Candeias, logo ao lado, na fazenda da Dona Elza. Era Elza mesmo?! Íamos visitar a Marli, amiga de Janemamae. Me lembro da camionete C10 do Adelino. Era bom andar na carroceria, sentir o vento no rosto.

Ele nunca teve uma camionete, mas gostava dos Fords. Depois dos Fiats. E já teve Fuscas, como quase todo mundo. Aprendeu a dirigir num deles. Andou muito na garupa de Lambrettas no tempo da Turma da Barroca. Era chamado de Professor, pois dava aula de Latim e Matemática. Jogava no gol do Bangu, o time do bairro.

Nunca foi bom de bola, pelo menos nunca fez pose, mas era louco pelo Galo. Alucinado. Desses que nao perdia um jogo, seja pelo rádio ou televisao. Ficava puto na hora, mas depois tava tudo bem. Aguentava a zoacao das marias, mas soltava das suas. Sempre com um humor sutil. Rachava de rir ao ler a tirinha do AFO. Sempre me mostrava, às gargalhadas.

Fazia um cafezinho maravilhoso quase toda tarde, lá pelas 5 horas. Pegava um copo lagoinha, enchia pela metade, cortava uma fatia de Canastra e ia pra janela. Ali, ficava olhando pro nada. Apreciando a vista que conhecia como a palma da mao. Talvez observasse o movimento, apenas. Ou olhasse para o céu, procurando alguém.

Nao sabia cozinhar, mas comia que era uma beleza. Janemamae às vezes o advertia, mas levemente. Ele sempre se defendia dizendo que "mas tá bom demais!" Seu prato preferido?! Macarrao à bolonhesa. Foi ao Bolao no Santa Teresa uma última vez. Comeu feito um lobo afonso, como se referia a quem era glutao. Tinha uma barriguinha saliente, charmosa. Acumulando as latinhas de Skol que bebia aos sábados após dar uma geral na casa de Lagoa Santa. Sexta, whisky. Sábado, cerveja. E nao mais. Tinha hábitos de um japonês.

Às vezes passava da conta, mas era muito engracado. Ficava leve e solto, como todo bêbado. Contava piadas, ria alto, abracava todo mundo. E no final, caia no sono dos justos. Mais do que merecido.

Me ensinou a dirigir. Explicou os mistérios do outro sexo e como fazer pra ter sucesso nessa área. Orientou na escolha da profissao. Ouviu meus problemas e ajudou-me a resolvê-los. Nunca os solucionou pra mim. Até andar de bicicleta foi com ele. No apartamento da Santa Rita Durao. Me lembro como se fosse hoje. Achei que ele ainda tava segurando, mas eu já andava sozinho naquela bicicletinha verde.

Conversava de tudo. Era ponderado. Sabia ouvir. Uma de suas maiores qualidades, senao a maior. Nao entrava em discussao besta. Fingia-se de surdo, mesmo quando comecou a ouvir menos, pra escutar apenas o que lhe interessasse. Isso se chama sabedoria.

De vez em quando, parecia que nao estava na Terra. Era como se tivesse sublimado. A alma pegara um elevador e tava dando umas bandas lá em cima. De repente ouvia-se um "hein". Era a senha da alma retornando. Continuava de onde havia parado.

Apanhei muito dele, merecidamente em 95% das vezes. Os outros 5% coloco na conta das vezes em que nao fui descoberto. Na verdade, acho que merecia mais. Apesar disso, foi o suficiente. Aprendi a licao. As licoes. Continuo aprendendo, mas agora sem ele pra orientar, ponderar, ajudar, conversar, ouvir, alimentar, me fazer sonhar.

Tentei ficar triste umas vinte vezes hoje, mas nao consegui. Ao ler tudo isso, sinto que é impossível. A única coisa que fiz foi assistir a uma missa, em alemao, e agradecer pela sorte única de ter sido seu filho. Precisa mais?!

Guidao, eu te amo!

ATUALIZANDO: Informacoes futebolíticas sobre o passado do Guidao chegaram agora através do Rato, emissário oficial da FIFA. Segundo ele, num fôlego só, "Papai não jogava no gol e sim na zaga, era zagueiro de recurso, orientado pelo gênio Cambão, saia jogando de cabeça erguida e soltava para o meia fazer a ligação com o ataque, em bola alçada na area nunca cabeceava para o meio da área, espanava para a lateral do campo para que não houvesse rebote, fez alguns gols de cabeça em jogadas de corner e ja fez o gol que pelé nunca chegou a fazer, emendando do meio campo e encobrindo o goleiro desavisado!!"

Friday, July 30, 2010

Traição Capitalista

Düsseldorf (guardando livros, dobrando roupas... a mudanca comecou)

O Governo alemao deu um jeito de fazer os fiéis admiradores dos Trabis, apelido carinhoso do Trabant, trair o Movimento.

A reportagem abaixo, que saiu no UOL só para assinantes (espero nao ser processado pela Espelho por torná-la pública), conta que o número desses carrinhos rodando pelas estradas e ruas alemas caiu mais de 95% em relacao a 1993.


Quem frequenta esse ßlog já sabe das imensas alegrias proporcionadas por Gerd a esse que vos bloga. Gerd é o Trabant nascido em Leipzig enviado ao Uruguay para férias tropicais. Agora é propriedade de um nababesco colecionador brasileiro e piloto de corridas mequetrefe. Deixou o carrinho mofando por lá, dizem que próximo a fronteira. Se deu ao trabalho de desligar a bateria e só. Um tapinha no capô e um "já volto" e nada mais. Já fazem sete meses...

Ficou por aqui um tempo suficiente pra viajar da antiga DDR pra Alemanha capitalista e sua avenida chic mic, como dizem os alemas, chamada Königs Alle. Em bom germânico, a Alameda dos Reis em Düsseldorf.

Sem falar na homenagem que fiz para comemorar os 20 anos da queda do muro de Berlin quando fui trabalhar com Gerd passeando pela Autobahn 52 que liga Düsseldorf a Essen, onde trabalho. Recebi saudacoes, buzinas, piscadas de farol, tchauzinhos e jóias pelo caminho que valeram o ano.

E ainda levei uma colega de trabalho alema, nascida e criada na Berlin Oriental, para um passeio na hora do almoco. Ela dizia que o som característico do motor e o cheiro da fumaca lhe trazia lembrancas imediatas da infância, quando passeava com seu pai pela Unten den Linden mirando o portao de Brandenburgo lá na frente em Berlin.

Preciso comprar meu Gerd logo. Antes que acabe.

ps. É inacreditável, mas olha o nome desse Doutor alemao.

30/07/2010

Automóveis Trabant da Alemanha Oriental rumam para a extinção

Der Spiegel
Eric Kelsey
  • Carreata de Trabants durante comemoração do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, em Sofia (Bulgária). Carreata de Trabants durante comemoração do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, em Sofia (Bulgária).
O amado Trabant, uma marca registrada da comunista Alemanha Oriental, está desaparecendo rapidamente. O número desses automóveis que ainda chacoalham pelas estradas alemãs caiu de cerca de um milhão, logo após a reunificação da Alemanha, para os atuais 35 mil. O programa de governo para comprar carros velhos e retirá-los de circulação parece ter persuadido vários proprietários de Trabants a traírem a lealdade à marca.

Depois da queda do Muro de Berlim, duas décadas atrás, eles viraram moda. A impressão que se tinha era que todo mundo queria um Trabant, e que todos os que já possuíam um não queriam desfazer-se dele. O pequeno carro de plástico, com o seu motor fumacento de dois tempos, transformou-se em um objeto destacado de adoração para os entusiastas mais fanáticos de automóveis – e também para aqueles que sucumbiram à “Ostalgie”, uma espécie de nostalgia dúbia pela vida na comunista Alemanha Oriental, quando os “Trabis” se constituíam em uma fonte limitada de liberdade e as pessoas tinham que esperar dez anos pela entrega do carrinho.

Atualmente, porém, os Trabis estão rumando lentamente para a extinção, e o número desses veículos registrados na Alemanha diminui com rapidez.

Grande parte deste fenômeno, é claro, deve-se a um processo de seleção natural. Os veículos são feitos de Duroplast – uma mistura de pó de resina e algodão – e estão literalmente caindo aos pedaços. Alem disso, no entanto, muitos proprietários deixaram de lado a lealdade à marca no ano passado, quando o governo alemão ofereceu um bônus de 2.500 euros (R$ 5.744) por cada um destes veículos, com o objetivo de persuadir as pessoas a comprarem carros novos a fim de estimular a economia desaquecida.

Apenas 35 mil Trabis encontram-se ainda registrados no Departamento Federal alemão de Veículos Automotivos (KBA, na sigla em alemão), o que representa um decréscimo de mais de 95% em relação a 1993, o ano referente às estatísticas mais antigas do KBA.

“Naturalmente, os carros estão simplesmente velhos demais”, disse a “Spiegel Online” o porta-voz do KBA, Stephan Elsner. A fábrica na cidade de Zwickau, no leste da Alemanha, que fabricou o primeiro Trabi em 1957, produziu o último desses automóveis na sua linha de montagem em 1991, pouco após a reunificação do país.

“Atualmente isso é apenas um hobby”

“O número de Trabis na estrada está diminuindo constantemente”, disse a “Spiegel Online” Uwe Tautz, que restaura os velhos Trabants na sua oficina em Marzahn-Hellersdorf, um distrito na zona leste de Berlim. “Atualmente isso é apenas um hobby”.

Mesmo assim, quem fizer uma pesquisa informal, constatará que o número de pessoas que pretendem continuar com o carro não diminuiu. “A nossa base de clientes tem se mantido constante no decorrer dos anos”, afirmou a “Spiegel Online” Andreas Trull, um mecânico da Trabant Oasis, uma oficina na cidade de Hoppegarten, perto de Berlim. “O motivo pelo qual algumas pessoas não dirigem mais o veículo são as zonas ambientais de baixa emissão de poluentes que algumas cidades instituíram”.

Mas os carros continuam sendo uma característica das ruas da capital alemã, pelo menos na zona leste da cidade, e as autoridades berlinenses estão conscientes de que esses carros se constituem em uma atração turística. Em 2009, a prefeitura da cidade declarou que o Trabant havia se transformado em uma marca de renome internacional para a Alemanha Oriental e decidiu proteger essa espécie ameaçada de extinção, estabelecendo padrões mais flexíveis de emissões para os Trabis.
Os carros também rendem várias piadas sobre os veículos. A Trabi Safari, uma companhia que aluga Trabants por hora em Berlim, em Dresden e em Potsdam, obtém peças sobressalentes para os carros em uma fábrica na Hungria que ainda produz esses componentes. Ao todo, cerca de três milhões de Trabants foram produzidos, e muitos deles encontraram lares definitivos em vários países do bloco oriental.

“Muitos deles quebram”

A frota da Trabi Safari é atualmente composta de mais de 90 desses automóveis subcompactos, e quase todos eles estão registrados em Berlim. Isso representa mais ou menos 10% da quantidade total de Trabants da capital. “Nós obtemos os carros principalmente de proprietários particulares, e mesmo assim muitos deles quebram”, disse a “Spiegel Online” Michaela Drepte, uma assistente da companhia de locação de automóveis. No entanto, a empresa tem que acrescentar uma peça especial a todos os seus Trabants a fim de atender aos padrões de emissão estabelecidos pelas autoridades de Berlim.

Porém, apesar de serem cada vez mais raros, os Trabants ainda são relativamente baratos. Com apenas mil euros (US$ 1.300, R$ 2.290) é possível comprar um desses automóveis, segundo os anúncios publicados nos classificados online, os lugares mais fáceis para se encontrar um Trabant, segundo Tautz.

Entretanto, em breve poderá haver até alguns Trabants novos disponíveis. A IndiKar, uma fábrica de automóveis que fica perto de Zwickau, está querendo dar uma nova vida ao Trabant. No ano passado a companhia revelou planos no sentido de fabricar um carro elétrico no estilo do Trabant. A IndiKar acredita que o carro estará rodando nas estradas alemãs em 2012, e que custará cerca de 25 mil euros (US$ 32,5 mil, R$ 57 mil).

Tuesday, October 20, 2009

Quem não acredita em cegonhas?!

Düsseldorf (ficou grande demais...)


















Tirei livre a tarde de segunda para executar a Missão München. Com o chefe sabendo e achando graça, a mulher dando apoio e Amor e o dono assinando embaixo, só não iria se fosse belga. Os belgas sofrem com as piadas dos holandeses e alemães assim como os portugueses com a nossa ironia.

Mochila nas costas, saio do trabalho, atravesso o parque, pulo no U-bahn, chego na estação central, vejo o ICE me esperando, caminho ate o vagão 21, entro e acho o assento 65 janela, mas com uma coluna imensa tampando a visão, troco de lugar, me acomodo e aguardo os vagões saírem da inércia.

Planejei trabalhar no trem lendo sobre um futuro projeto, procedimentos de gerenciamento e outros assuntos igualmente interessantes e fantásticos. Trem vazio, sem maiores emoções, saindo de Essen e passando por Duisburg, Düsseldorf onde moro, Köln (Colônia para os incautos), Frankfurt, Aschafenburg (não sei por que o ICE para nessa vila), Würzburg, Nürnberg e finalmente München ou Munique pra quem nunca teve o privilegio de visitar a capital da Bavária. Ligo pra Juju algumas vezes.

Na chegada logo me veio na lembrança a Oktoberfest. A Hbf (estação central) sempre lotada de turistas, bêbados, fantasiados, perdidos, ressaqueados, tristes, felizes, jurando nunca mais voltar, contando as semanas pra próxima edição. No caminho para o metro, olhei pra direita e vi o estacionamento de onde duas semanas atrás havíamos partido de volta pra casa depois de comparecer pela quinta vez nessa festa medieval e brutal para o fígado que os bávaros fazem todo ano em Outubro.

Comprei o ticket do U5 e esperei na plataforma. Entrei no vagão, sentei, tirei meu livro Conversa na Catedral, do Vargas Llosa, e fui lendo como se morasse em Munich desde sempre. Após cinco anos de Europa, as novidades não são tantas. É tudo muito parecido, em todos os países. Mais do mesmo, sempre. É confortável, mas ao mesmo tempo um saco. Era hora do rush, mas sem movimento algum que o caracterizasse. Os europeus gostam de ler, em particular os alemães. São donos do maior mercado e da maior feira editorial do mundo. Todo mundo lê em todos os lugares. Um silêncio absoluto entrecortado apenas pelo condutor anunciando, em bayerisch impossível de entender, as paradas e avisando que as portas se fecham após o sinal.

Desço na Quiddestraße pra pegar o ônibus 192 ate a Feldbergstraße 2 onde Gerd repousava desde a partida do dom Gomes dia 9 de Outubro. Desci do balaio filmando o momento. Escurecia e fazia um frio de rachar. Vi a placa da rua e uma casa com uma van branca na porta. Pensei: deve ser aqui perto o numero 2...

- Don Peter, é você?!

- Fala Gerd, claro que sou eu.

- Você vai me tirar daqui?! Não agüento mais olhar pra essas bicicletas velhas.

- E por isso que vim aqui. Vou entrar na casa, tomar um banho e caímos no cerrado, beleza?!

- Graças a Deus. Esse povo aqui é muito mercenário.

- E no mais, sofreu com a partida do Flavio?!

- Claro. Ele é demais. Meio doido também, você sabe. E volúvel. Vira e mexe se apaixona, mas sei como mantê-lo por perto.

- Acho que você saberá sim, mas a concorrência é grande.

- Não me preocupo com isso, só quero sair desse freezer ao ar livre.

- Isso é fácil.

Toquei a campainha da casa da Fátima, que me alugou os apartamentos pra Oktoberfest e quebrou o galho do dom Gomes e do Gerd durante esses 10 dias. Havia combinado de tomar um banho. O marido holandês abriu a porta. Falei “Wie geht es Ihnen”, sem resposta. Perguntou se viria buscar o carro, respondi que sim e ele “Gott sei Dank!” (Graças a Deus). Otário, pensei. Vou cagar no seu banheiro inteiro. Como sou educado, limitei-me ao meu combinado banho. Saindo do banheiro, Jan, o holandês babaca, me perguntou quando eu queria ir embora. Respondi, agora. Ele tirou sua van da frente da garagem enquanto eu entrava no Gerd. Conferi tudo, virei a chavinha de gasolina pra posição A (auf), puxei o afogador, dei a partida e... pegou de primeira, claro. Enquanto o holandês se afogava na nuvem azul, ajeitei os espelhos, arredei pra trás o banco colado no volante pra acomodar o pequeno polegar Gomes, puxei o cinto, engatei a ré e vamo simbora Gerd. Dei tchau pro holandês travestido de alemão e rua.

O mapinha indicava para seguir a avenida em frente ate o fim em direção a München Ostbahnhof. No caminho os bávaros olhavam curiosos pelo carrinho. Senti Gerd muito mais macio do que em Leipzig quando o busquei, sem folgas e trancos na direção. A oficina do Herr Drösser fez muito bem a sua saúde. Chegamos sem errar no terminal da DBahn chamado Autozug (auto-trem). No check-in o cara da DBahn disse nunca ter visto um Trabi por aquelas bandas. Dois trens partiriam naquela noite, um para Düsseldorf, outro para Hamburg. Eram vários vagões-cegonha gigantescos com dois andares. Capacidade para uns 80 carros acho eu. Ameacei entrar e Gerd morreu...

- O que foi?!

- Nunca andei de trem.

- E daí, tem sempre a primeira vez.

- É perigoso?!

- Claro que não. Deixa de ser fresco e entra logo. Você vai gostar.

- Capitalismo tem lá suas vantagens, né.

- Ah, tá começando a gostar. Vai ser frio, mas você agüenta fácil.

- Então vamos. Gira logo essa chave.

Entramos pela traseira da grande ave no segundo andar, de camarote segundo Gerd me contaria já em Düsseldorf (como aprendem rápido). O frio continuava trincando os ossos e me restavam quase duas horas até a partida. Tiro fotos de Gerd. Boa viagem. Pra você também. Procuro algo pra comer e nada. Só as infinitas variedades de pães alemães. Queria um salsichão. Saio da estação pelas ruas procurando um bar ou café e nada. Que lugar mais fracassado. Uma menina pega sua bike, tira o cadeado e se manda no frio escuro da noite bávara. Só me resta o Burger King.

Peço um Big King Menu com coca e mayo (alemão chama maionese de mayo, que meigos), sento numa mesa e começo a comer. Observo uma mãe com seus dois filhos e um casal de idosos. O velho é a cara do Doc de “De Volta para o Futuro”. O cabelo branco e esvoaçante e a cara de louco estão ali. A velha come com a mente em seu mundo. O marido da mãe dos meninos chega e começa a comer. Pego alguns papéis e vou anotando fatos do dia, seguindo recomendação de famoso escritor. Doc tem sono. Levanta a cabeça olhando pro teto, apoiando-se no próprio pescoço para trás, e cai no sonho. Penso: poderia ter comprado um sanduba maior. Os meninos terminam o lanche. Vou ficar com fome a noite, que merda. Vejo um clip do Muse. Duas velhinhas amigas, irmãs ou gêmeas se sentam ao meu lado. O pai dos meninos também acompanha o clip do Muse. Vai dar tempo de passar na livraria?! O olho é maior que a barriga, sempre. E no supermercado?! Satisfeito, levanto, deixo minha bandeja no local apropriado, não sei antes deixar cair, junto o lixo do chão, pego minhas coisas e me mando pra livraria da estação. Folheio algumas revistas, compro uma edição comemorativa de 100 anos da Audi com direito a poster e DVD, em alemão é claro, reparo na repercussão negativa da guerra civil carioca na imprensa mundial, passo no supermercado pra comprar o biscoito igual ao do adesivo no vidro traseiro do Gerd só que com cobertura de chocolate meio amargo, e caminho para a plataforma.

Vagão 265, Platz 103. Almofada, protetor auricular e água são a garantia de uma noite tranqüila. Entro na cabine e dou de cara com uma família. Pai alemão que trabalha na indústria química fabricando produtos para airbags, mas também para plataformas petrolíferas. Falo do Brasil, ele da Petrobrás. A mãe irlandesa conversa em inglês com suas duas filhinhas lindas e loiras. Devem ter sete e cinco anos, imagino eu. Não sou bom de contas para essas idades. Conto onde moro, eles também são de lá. Os quatro olhinhos azuis me olham curiosos, envergonhados, felizes, sinceros. São cinco camas e digo logo para escolherem os lugares que quiserem. Decidem que a do terceiro andar seria a minha. Ótimo, penso. E a escada pra subir ate lá? Perguntam o que fui fazer em Munich. Eu e o alemão procuramos pela escada, e nada. Conto do Gerd, eles caem na risada me achando simpático ou sendo apenas educados. Subo, arrumo minha cama, me acomodo, pego o livro. Tem lençol, coberta e travesseiro. Amo a Alemanha. A mais velha olha pra mim e diz ter encontrado uma cabine vazia lá na frente. Dou um sorriso e ela repete a frase indicando querer ficar a sós com sua família. Penso em mudar, mas, e se um gordo escroto e fedido tiver a mesma idéia?! E começar a roncar e peidar durante a noite?! Ela acha a escada debaixo da cama. O medo do desconhecido me ajudou. Coloca-a na posição ajudada pela mais nova e depois se deitam. Decido ficar. Mando um SMS de boa noite pra Juju. Quieto tentando não incomodar, apenas lendo meu livro e escutando a interação familiar em alemão e inglês. Quando será minha vez?!

O som dos trilhos me faz lembrar o filme Stalker do Tarkovsky. Vai só aumentando e martelando a sua mente, mesmo com o protetor. Uma sensação de descarrilamento me invade o pensamento. E se os vagões-cegonha, mais pesados, saírem de traseira numa curva levando toda a composição?! Durmo tranqüilo em seguida. O café da manhã seria as cinco da matina. O pai alemão recusou, ainda bem. Ele diz que já estamos em Köln. Passou muito rápido. Como estará Gerd?! Nunca andou por essas bandas.

Acordamos. Olho pra baixo e quatro olhinhos azuis devolvem na direção contrária. Pergunta em alemão onde moro. Respondo e quero saber onde ela vive. Diz, sorri e sai da cabine. Junto minhas coisas e saio no frio. Sou o último do trem. Alemão é um bicho meio impaciente. Quer ser produtivo o tempo todo. Encontro eles esperando no relento pela liberação dos carros. Idiotas. Ou então gostam de frio. São seis e meia, ainda escuro. Fico impaciente, contagiado pelos germânicos. Percebo que viajamos acompanhados de dois ilustres passageiros, um italiano e outro teutônico. Vieram de segunda classe ou andar térreo, me explicou Gerd. Abrem os portões e a turma avança por entre os carros nos dois andares. As mulheres e restante das famílias ficam aguardando pelos ansiosos companheiros. Caminhando entre o corrimão de aço e desviando dos retrovisores, chego no Gerd.



- Porra, me tira daqui.

- Hahaha, por quê?! Não gostou?!

- Quem vai rir sou eu quando tentar me ligar. Tá tudo congelado, brrrrr.

- Nada que um afogador não resolva.

- Veremos. Anda logo.

Guardo a mochila no porta-malas, entro, puxo o cinto, ligo o rádio e espero. Os carros da frente vão sendo liberados aos poucos. A cegonha chacoalha como se tivesse parindo. Abro a torneirinha. Acendo os faróis. Um funcionário tira as travas das rodas e me manda seguir. Puxo o afogador e dou a partida. Nada. Porra Gerd, não queria ir embora?! De novo e ele liga. Engasga pra sair, mas vai. Na saída ganha um tchauzinho da mãe e das duas princesinhas. Viramos a curva ainda no pátio de descarregamento e uma senhora olha e sorri.

Gerd vira celebridade instantânea por onde passa.

No ainda escuro caminho de casa, nada de especial. Acho uma vaga na porta. Uma menina em seu Toyota me olha curiosa. Tiro minhas coisas, fecho a porta e caminho pra porta de casa.

- Quero conhecer seu castelo.

- O que?! Como assim?!

- Me leva pra Essen com você hoje.

- Como sabe que vou pra lá?

- Sei tudo sobre você.

- Não duvido. Tudo bem. Espere meia hora.

- Bis bald.


Entro em casa. Largo tudo na sala, tiro a roupa e pulo na cama pra me esquentar na Juju. Pobre Gerd...

Tomo um banho, troco de roupa, pego minhas coisas e volto pro carrinho. Já é dia claro. Pego a Autobahn 42 no já conhecido ritmo noventaporhora. Os apressados alemães não perdem tempo olhando para Gerd. Só querem chegar logo no trabalho, ser produtivos, não perder um segundo sequer. Quase chegando em Essen, Gerd engasga e morre. Viro a chavinha para posição R de reserva, jogo terceira pra pegar no tranco, mudo pra quarta e seguimos em velocidade de cruzeiro. Um belo sol nasce iluminando o vale do Ruhr. Acho uma rua com estacionamento livre e paro. Pergunto a outro motorista se ali é de graça mesmo. Diz que sim e tiro minhas coisas. Vou saindo quando escuto:

- E o castelo?!

- Mais tarde. Na hora do almoço te levo lá.

- Tudo bem. Quero conhecer BeNeLux também. Soube que os castelos por lá são igualmente magníficos.

- Te levo na Villa Hügel primeiro, aqui ao lado. Era da família Krüpp. Essen foi a capital do aço alemão.

- Quero conhecer a Ligne Maginot.

- Meu irmão mora em Luxemburgo, fica perto. Onde aprendeu essas coisas?!

- Livros contrabandeados, clandestinidade. Você não sabe o que é isso.

- Estou atrasado.

- Levarei chocolates belgas pro Flavio.

- Sim, claro. São os melhores.

- E a tal erva?!

- Que erva?!

- Já falamos de Be e Lux. Falta Ne.

- Ah! Pirou?! Ou quer pirar?!

- Os dois.

- Lembre-se do protetor solar.

- Tá no porta-malas.

- Ótimo. Depois a gente combina BeNeLux.

- Faço questão de ir. Senão hoje você volta a pé pra casa.

- Isso é uma ameaça?!

- Não, uma negociação.

- Combinado então.

- Bom trabalho.

- Obrigado.

Saturday, October 10, 2009

Gerd, der Trabi

Düsseldorf (os elefantes estao chegando)

Berlin, 12. Setembro 2009 - Sábado, GP Monza

Antes de falar sobre Gerd, vi essa miragem parado ao lado da East Side Gallery, os grafites naquele pedação do muro ainda de pé em Berlin. Um Melkus, motor de Wartburg e mecânica misturada desde com o Trabant. Waltinho + Gerd = Melkus. Apenas 101 unidades foram feitas segundo a Wiki. Coincidência ou destino?!













Na volta desse passeio, faltavam 15min pra terminar a classificação em Monza. Fingia tranquilidade ao lado da Juju e do Pedrão. Disse que estava com fome. Desculpa esfarrapada pra entrar num bar com TV. Achei um turco vendendo frango assado. Uma Samsung brilhava em cima da porta num suporte. Antes de pedir qualquer coisa, perguntei se poderia ligar a TV e sintonizar na RTL. Pedido atendido, peguei uma cerva e subi pro segundo piso. A visão era melhor. 

Leipzig, 13. Setembro 2009 - Domingo, GP Monza (Hamilton pole)

Saímos muito cedo de Berlin, às 7h da matina. Eu e Juju, companheira e amante inseparável, seguimos da Ostbahnhof em direção à mega Hauptbahnhof, vulgo Hbf. De lá, pulamos num regional até Leipzig onde Heiko - marido de Pia - dona do Trabi, nos pegaria às 10h. Às 9:30h chegamos na belíssima estação central esperando por Heiko, o ainda proprietário do Trabant ano 1988 comprado há quase 6 meses pelo jornalista e doido varrido Flavio Gomes, don Gomes para os íntimos.

O McDonalds era o ponto de encontro. Sugestão do Heiko. A antiga DDR realmente não é mais a mesma. Entrei no furgão com minha bagagem com destino a uma cidadezinha nas redondezas. Juju preferiu ficar com a amiga Cris para um passeio pela cidade. Um obscuro galpão guardava o carrinho desde o começo de Setembro por módicos 30 EUR. No caminho contei ao Heiko e seu filho sobre Waltinho, irmão mais velho e sofisticado do Trabi, da exportação para o Brasil, a coleção de +/- 26 carros e 3 motos do don Gomes, a volta em Interlagos, o blog, entre outras coisas. Paramos num posto pra encher um pequeno galão com gasolina e óleo 2T na proporção de 300ml de óleo a cada 10 lt de benzin, vulgo gasosa. Pedi para pagar, mas Heiko recusou. Disse que essa era dele.

A família Lorenz nos aguardava ansiosa. Pia, a dona e mãe, sua irma mais nova com a filhinha nos braços e o marido mecânico, a filha da Pia com Heiko que desenhava calmamente num livrinho, e Michael, o mecânico. Apresentamo-nos uns aos outros, olhei o carrinho rapidamente e logo me interessei por um Volga russo. Estava a venda por 9 mil EUR. Só o viadinho saltitante no capo custou 900 lascas. A primeira vista o Trabi parecia em boa forma. Olhando melhor, descobri dois riscos na carroceria de Duraplast, que não enferruja nunca evidentemente, mas resseca de vez em quando.

Heiko me explicou o funcionamento dos austeros equipamentos de série, inclusive a chavinha de gasolina igual a usada por mobiletes com reserva e tudo. O vidro do motorista não fechava direito e os três, Heiko, o cunhado e o mecânico, atacaram o problema e só saíram de cima após resolvido. O tanque de apenas 24 litros fica dentro do compartimento do motor, vulgo cofre. Não tem medidor no painel, apenas uma régua com escala mostrando de 0 a 24 lt presa no forro do capo. A agora famosa reguinha explicada pelo doido Gomes. A autonomia seria de 300 km com “pé embaixo” e de 400 km com uma tocada mais tranqüila. Heiko estava muito otimista. A reserva tem pouco mais de 4 lt.

Logo no começo percebi a carinha triste da dona Pia. Me contou que o Trabi se chama Gerd, e que assim gostaria que permanecesse. Antes de ir embora perguntei o motivo da venda. Ela havia comprado um Renault, que não durou muito, e logo em seguida um pequeno Toyota. Disse a ela pra não chorar, que Gerd estaria em boas mãos e em breve ganharia uma fantástica e numerosa família em terras tropicais. Que seu irmão mais velho, Waltinho, o aguardava saudoso e feliz por poder voltar a buzinar em alemão.

O cambio no volante em posição vertical na coluna de direção foi novidade pra mim. Como nunca havia dirigido um DKW, achei engraçado e fácil levar Gerd pelo asfalto agora novo do Leste alemão. O radio ocidental funciona perfeitamente, mas preferi o som do motor 2T acompanhado da fumacinha característica.

Após a sessão de fotos e agradecimentos mútuos, prometi enviar fotos e o endereço do Blig do Gomes para que a família Lorenz acompanhe as peripécias de Gerd pelo Leste Europeu e depois America do Sul.


Sai com Gerd pelo portão com Heiko ao meu lado observando meu desempenho. Seguimos numa tocada tranquila até o mesmo posto do galão. O alemão me elogiou na língua nativa com sotaque do Leste. Disse que eu era um ótimo motorista de Trabi. Ficou aliviado. Já no posto ele se despediu, entrou no carro do cunhado e se mandou sem olhar pra trás. Quem olha pra trás vira estátua de sal, diz a Condessa Julyanna von und zu Pampuglia com certa frequência.

Comprei óleo, coloquei 600ml seguidos de 20 litros e voltei pra pagar. Agia naturalmente, como se o Trabi fosse meu. Alguns olhavam, mas sem muita surpresa. Estavam acostumados.

Ao pagar, vi a dona passar um patê num pão de sal e colocar presunto. Não tinha comido nada. Perguntei quanto era e pedi um. A Coca veio junto.

Tinha que contar a novidade pro novo dono. Escrevi um SMS “Gerd (o Trabi) e eu estamos abastecidos indo pra Leipzig. Juju e Cris nos esperam pro almoço. Abração e obrigado.”, mas acho que ele nunca recebeu.

Logo após sair do posto, o primeiro de tantos outros, com o sanduba no banco, a coca no meio das pernas, a câmera numa mão e a outra pra guiando e mudando as marchas, fiz o video abaixo. Fiz uma edição tosca no iMovie, que aprendi a mexer ontem, e já pro vocêtubo:




Seguindo pela estrada da cidadezinha que levava até Leipzig Zentrum, peguei uma avenida. E não é que logo ali na frente seguia outro Trabi?! Cor gelo, um cara sozinho dentro que quanto viu o parente ligou os piscas, deu tchauzinho, buzinou. Fui seguindo ele até o Zentrum. Parei na estação e aguardei pela Ju e Cris. Olhava pro Gerd já imaginando a longa jornada até Düsseldorf. O carro ficou parado desde 2006 na casa da Pia. Aí vem um maluco a pedido de outro, pega ele e já enfia quase 500km no carrinho. Seria a maior viagem que ele faria na Vida. Viagem tão sonhada pelos alemães orientais até pouco menos de 20 anos atrás. Sair do Leste socialista em direção ao Oeste capitalista. O mesmo país que produzia Porsches, Mercedes e BMWs de um lado, fazia Trabants, NSUs, IFAs e Barkas do outro. Mesmo povo, idioma, cultura, costumes, músicas, mas separados por ideologias, por consequências de uma guerra onde eles tanto sofreram.

Consegui assistir a corrida após convencer as meninas a almoçar. Baixou um telão, desligou-se a música, veio cerveja e tome corrida. Não foi das melhores, mas matou a vontade. Na estrada, Gerd não decepcionou em momento algum. Saímos às 4 e meia com céu carregado e o frio de outono chegando tranquilo e sereno. Terceira pista da direita seria o habitat natural. Alguns caminhões iam ficando pelo caminho. Passar de 100km/h era forçar demais o carrinho. Estabeleci essa velocidade por que não tinha sentido forçar.

Gerd enfrentou intempéries bravamente. A chuva era constante. Os limpadores de pára-brisa foram desgastando durante o trajeto. Chegando em Düsseldorf o da esquerda ficou no ferro, quase arranhando o vidro. Paramos umas três ou quatro vezes para abastecer, descansar, comer, respirar. O ar quente esquentava, mas trazia junto o aroma da gasolina. Juju rezava pra que nada de errado acontecesse pelo caminho. Estava cansada, mas achava tudo ótimo. A folga na direção preocupava para o exame do TÜV, a inspeção obrigatória a que cada veículo alemão se submete. Sem TÜV não se muda o dono.

Chegamos às 23:30 fazendo o percurso em honrosas 7 horas. Em CNTP num carro normal, sem graça, charme e história sao entre 5 e 5:30. Na entrada triunfal na capital da Renânia do Norte e Westfália, a mesma por onde Napoleão invadiu a Prússia em 1700 e Kafunga, Gerd sentia que a missão tão sonhada por seu povo chegava ao fim.

Achei uma vaga na porta. Da janela dava pra ver ele. Depois do banho, abri a cortina pra espiar a rua. Um poste o iluminava. Parecia sorrir. Seus dias de marasmo e rotina casa-feira-escola-salao-casadasogra-casa chegaram ao fim.

E pensar que tudo começou assim.