Saturday, June 23, 2018

Dormindo num galinheiro na Cracóvia

Viena (acompanhado de um Pincher mudo e de seis cadeiras de rodas)

Uma vez estávamos reunidos em Reims, capital da Champagne, com alguns casais de amigos quando alguém lançou o pequeno desafio de cada um contar a maior loucura que já vivenciara. Fui o primeiro e único a contar meu "causo". Continue lendo e saiba o motivo.

Novembro de 2004 em Viena, um frio do cão sem nada pra fazer quando o Marcin, polaco mais pão duro que alemão, sugeriu visitar a Cracóvia no final de semana. Ele era o único que tinha carro, na verdade era do tio mas ele dizia que era dele pra tirar onda. Um Mercedes 190E anos 90 com estofado rubro negro... PQP!!! A turma toda era estudante de Doutorado com grana suficiente pra viver com certo conforto, mas sem fazer muita gracinha.

Lá fomos nós saindo de Viena numa sexta à tarde chuvosa com previsão de voltar no domingo a noite. Auschwitz estava no roteiro. Marcin no volante, Haroldinho, Rodrigão, Leozinho e eu com destino a cidade onde o Papa Joao Paulo II começou sua, digamos, carreira. Tinha um hotel reservado, mas só o polaco sabia onde era. Chegamos sem maiores percalços na cidade estacionando o carro próximo à praça principal da belíssima Cracóvia. Ampla, moderna, cheia de bares, restaurantes, uma catedral importante pra acomodar a massa de católicos poloneses já que uns 90% da população acredita em Jesus Cristo e sua trupe. Eu em breve me tornaria um devoto fervoroso.

O objetivo da viagem era gandaiar o máximo possível. Pelo menos o meu. Marcin, coitado, queria apenas mostrar um pouco do seu país pra nós e talvez estreitar um pouco aquela fria amizade inicial entre um europeu da ex-Cortina de Ferro e quatro brazucas dispostos ao tudo ou nada. Como chegamos lá pelas 10h da noite não perdemos tempo. Entramos na primeira boate mais ou menos bacana e cheia, que por sorte ficava na própria praça famosa. Entre uma ótima cerva local, Pivo em polaco, e outra e um reconhecimento básico do local e sua fauna, resolvemos beber vodka. Era o início do fim. As doses nesses países são baratas e fartas, normalmente de 50ml. Ao contrário da Europa Ocidental, onde um mísero copinho de 20ml custa caro e o líquido é de qualidade inferior.

Do pouco que me lembro a boate tinha umas arcadas e janelões pra rua e não era muito grande. Havia uma espécie de palco servindo de pista de dança e as músicas tocadas pelo DJ era boas. Com a vodka na cachola ele foi ficando fantástico. Bebemos a primeira e nada. Viramos a segunda... e nada. Na terceira rodada pedimos uma dupla pra turbinar as ações e começar o agito pra valer. Na quinta dose eu ganhei na loteria, fiquei invisível e imortal ao mesmo tempo. A turma se espalhou, cada um partindo numa batalha ingrata em busca da sua mulher amada. Ou de um cobertor de orelha por uma noite.

Lá pelas tantas, apesar do frio, resolvi sair e respirar ar puro. Lá na praça, sozinho, vi dois malucos correndo. Ora um corria pra cima do outro, ora invertiam as posições. De repente reconheci o Haroldinho e Rodrigão como protagonistas do espetáculo. Uma gritaria infernal chamava a atenção de quem passava. De repente um bateu com a cabeça na boca do outro tirando sangue e manchando a blusa. Um polaco nos observava e começou a falar algo. Eu respondi em português xingando ferozmente o incauto. Ele ficou quieto. De repente vi um X da minha frente. Era um daqueles suportes de barracas da feira de sábado estocados na praça. Não tive dúvidas e peguei um. Sai arrastando aquela merda praça afora com Haroldinho e Rodrigão no meu encalço tentando me parar. Até que finalmente conseguiram. Mais calmos resolvemos procurar outro lugar. Leozinho puxou a fila. Nesse momento o Marcin já tinha sumido. Devia ter ido pro carro rezar. Entramos em outra boate pra beber mais cerveja e provavelmente mais vodka.

Saímos pra rua novamente, por livre e espontânea vontade ou expulsos. Resolvemos procurar o carro. Perambulando bêbados e sonoros pela cidade quem me aparece?! Se pensou na polícia, acertou! No primeiro encontro pediram os passaportes, mostramos comportadamente até hoje não sei como, e foram embora. Rodrigão tava mais são e assistia a tudo bestificado. Haroldinho e eu tropeçávamos nessas correntes baixas colocadas nas calcadas como se fosse alguém nos passando uma rasteira a cada dois metros. Num desses momentos a polícia pareceu de novo. Eu estava deitado, estilo Neymar, quando levantei o braço entregando meu passaporte. O guarda polaco começou a rir e me devolveu sem falar nada. Leozinho tinha sumido também. Fomos saber no dia seguinte que ele tinha se separado do grupo atrás de umas polacas insanas e ficado na última boate com alguma Cinderela, hahaha.

Me deu uma louca e resolvi ir embora. Sozinho e à francesa, como de praxe. Larguei Rodrigão em bom estado e Haroldinho em petição de miséria nas ruas da Cracóvia largados à própria sorte. Quanta irresponsabilidade! Na verdade, como eu não acharia o carro nunca decidi dormir em algum lugar. Eles vieram me seguindo sem saber o que eu iria fazer. Entrei num prédio qualquer, subi o primeiro lance de escadas e tentei abrir a primeira porta da direita. Estava trancada. Tentei a da esquerda e nada. Subi dois lances e repeti o procedimento no 1° andar. Nada.

Imbuído de uma vontade incontrolável de dormir numa cama subi até o 2° andar. Lá a porta da direita estava aberta. Entrei. Já estava quase amanhecendo e uma claridade me ajudou a enxergar. Entrei pela cozinha e andei até o corredor. Olhei pra direita e vi um cachorrinho Pincher parado, me olhando e mudo. Não deu um pio. Deve ter pensado que eu o comeria se fizesse algo. Passei por ele e abri a porta no final do corredor. A penumbra me mostrou algumas cadeiras de roda espalhadas num quarto, vazias. Deviam ser umas cinco ou seis. Voltei pelo mesmo corredor e entrei no primeiro quarto à direita. Um biombo protegia a privacidade do hóspede. Pra minha supresa havia uma cama vazia e um cobertor dobrado no pé. Não tive dúvidas. Me sentei na cama e tirei os sapatos cuidadosamente. Me lembrei de colocar o celular no silencioso já sabendo que os loucos iriam me ligar insanamente. Tirei minha correntinha e coloquei ao lado do celular na mesinha de cabeceira ao lado da cama. Afrouxei o cinto, puxei a coberta e dormi. Só faltou ir na cozinha buscar um copo d'água.

Enquanto isso, os dois doidos se desesperavam lá fora sem saber onde eu tinha entrado. Me ligavam sem parar até desistir. Vagaram pela cidade alguns minutos e encontraram um táxi, lá pelas 5h da matina de sábado. Entraram no carro e ficaram em silêncio. O motorista olhou pra traz e gesticulou  como se perguntando "pra onde, caralho?!". Haroldinho respondeu claramente "Para o hotel, por favor", virou pro lado e dormiu. Rodrigão havia chegado fazia um mês sem falar quase nada de inglês. Ficou olhando pra cara do motorista sem saber o que fazer. Ninguém sabia onde era o hotel. O taxista malandro viu que ia poderia faturar em cima daqueles brazucas cachaçados e saiu dirigido a esmo pela cidade. Depois de algum tempo Haroldinho acordou. Percebeu que jamais chegariam ao hotel e gritou pro motorista parar. No meio do nada. Ele obedeceu, pagaram a corrida e desceram. O Dr. Cavalcanti, num rompante de sabedoria, parecia querer resolver a situação. Só não sabia como. Saiu chutando carros, latas de lixo, cachorros e o que aparecesse na frente. Rodrigão, escandalizado, acompanhava tudo em silêncio pensando "o fim está próximo". Lá pelas tantas eles resolvem voltar pra praça. Conseguem finalmente achar o carro do Marcin. Leozinho dormia também e acordou perguntando "Cadê o gandaia?!", meu singelo apelido na época. Responderam "Não sabemos... o louco entrou num prédio qualquer pra dormir e nos perdemos.

As 13h da tarde eu abro os olhos. Sento na cama e começo a avaliar a situação numa ressaca monumental. Não estava machucado. Meus pertences ali, intactos. Estava num quarto e um biombo me protegia de quem passava pelo corredor. Me lembrei vagamente da noite anterior. Coloco os sapatos, aperto o cinto, celular no bolso com 34 mensagens perdidas, correntinha no pescoço e vamos em frente! Consegui achar a porta que dava pra escada. Desço o primeiro lance e uma mulher subindo me olha de relance. Passo por ela acelerando o passo no lance seguinte. Ganho as ruas aliviadamente sem saber onde estou. Neste momento faço um filmete com minha câmera digital recém adquirida. Lembrem-se, estamos em 2004 e essas coisas ainda eram novidade. O filme é este:



Percebo que meus sapatos estão sujos de merda! Como assim?! Depois a galera me malhou, e malha até hoje, falando que dormi num galinheiro. Seria merda do Pincher?! Ou dos donos das cadeiras de roda?! Jamais saberei. Perambulo pela cidade tentando achar a famosa praça novamente. Entro num restaurante chique pra tentar comer algo. Revivendo a fábula do "Príncipe e o Mendigo", peço caviar! Na Polônia nossos Euros valiam muito, não se esqueçam. E uma Coca-Cola. Dou duas garfadas e corro para o banheiro. Ali resolvo meus problemas, saio branco e com pressão baixa voltando pra mesa como se nada tivesse acontecido. Só consigo beber a coca. Ligo pra turma que aliviados me informam o endereço do hotel onde chego ás 15h da tarde de sábado. Ainda tentei dormir, mas em vão.


À noite saímos pra jantar coletando os relatos múltiplos refazendo a sequência de eventos e o destino de cada um. Gargalhadas correm soltas. Marcin devia estar arrependido, mas acho que no fundo curtiu. Rodrigão quer pegar o primeiro avião para o Brasil. No domingo fizemos turismo pela cidade, soubemos do dragão guardião do castelo e partimos pra Auschwitz fechando com chave de ouro o final de semana. Chegamos lá à noite, umas 20h. Entramos passando por debaixo de um dos portões com a famosa frase "Arbeit macht frei", em tradução livre "O trabalho liberta". Não tinha ninguém e o frio gelava a alma. Caminhamos por sobre os trilhos dos trens por onde chegavam carregados de judeus. No fim da linha vimos os escombros das câmaras de gases. Uma energia negativa tao impressionante que ninguém foi capaz de dizer uma palavra. Ali, nos escombros, cinco malucos absortos em seus pensamentos sem ter noção de onde estavam. Voltamos pelos mesmos trilhos e entramos no carro. Seguimos viagem e após umas 2 horas de silêncio absoluto alguém disse algo.

Chegamos em Viena lá pelas 3h da matina tendo que trabalhar na segunda, dali algumas horas. E o Marcin ainda ficou parado num sinal vermelho por vários minutos sem vir carro no outro sentido. Ali comecei a entender o que significa respeitar e obedecer regras.

Tive muita sorte de ninguém me ver no quarto. Poderia ter sido morto ou espancado por um polaco furioso ao ver um brazuca bebum invadir sua casa. Santa inconseqüência!!!

Deus existe e é polaco.

ps. tenho alguns videos dessa noite que fazem "Bruxa de Blair" parecer uma missa de domingo. Não fui autorizado a publicar, somente o meu.

Friday, June 22, 2018

14 anos no Velho Mundo

Viena (onde tudo comecou)

No dia 07 de Junho último completei 14 anos vivendo na EuropaEntre Viena, Düsseldorf e novamente Viena dois ciclos de 7 anos se passaram. Se a Vida muda completamente a cada 7 anos então o que são duas voltas completas no odômetro?!

Aqui cheguei com 30 anos, livre, leve e solto e pela frente 4 sólidos anos de contrato como assistente da professora titular da cadeira de ciência dos materiais da TU Wien, a Universidade Técnica de Viena. Hoje já com 44, casado, dois filhos, prestes a ficar sem emprego - na verdade uma bendita e inesperada licença remunerada - posso afirmar que a Vida girou e mudou não só duas, mas pelo menos umas cinco vezes.

Aquele jovem inconsequente sedento por cultura, aventuras, curiosidade por novos países, pessoas, músicas, comidas e bebidas se tornou um adulto ainda sedento por tudo isso, mas num ritmo mais agradável acomodando toda a família aos interesses mútuos nessa viagem em busca da felicidade plena. Felicidade essa que nada mais é do que a própria viagem, já que uma vez atingido o destino logo comecamos a planejar o próximo.

No agora longínquo 07 de Junho de 2004, uma segunda-feira de verao vienense, meu eterno mestre e tutor Haroldinho, vulgo Dr. Haroldo Cavalcanti Pinto, foi me buscar no aeroporto. Pegamos o trem para o lado errado e ao invés de ver a cidade dos Habsburgo aparecer no radar, vi campos verdejantes, pastagens e areas preparadas para o plantio de batatas e beterrabas. Pulamos do comboio onde deu, atravessamos para o outro lado e seguimos o rumo certo do meu Doutorado, quem diria!, que estava prestes a comecar.

Fecha em 07 de Junho de 2018, uma quinta-feira do mesmo verão vienense, agora escaldante. Peguei uma dessas viroses que derrubam qualquer fariseu e passei o dia inteiro brincando de monarquia, entre o trono e a cama. Apenas água, chá e uns poucos pedaços de torrada foram consumidos. Juju, minha fiel escudeira, companheira, amiga, esposa, mulher, amante e comandante-em-chefe, se encarregou de todos os afazeres do dia, a saber: levar o Rafael (10 meses) na escolinha, voltar pra casa, buscar o Gabriel (4 anos recém completos) e levá-lo a Kinderhaus, voltar, fazer supermercado, chá pro combalido marido, lavar roupa, lavar as loucas de novo, esvaziar a máquina de lavar, comer alguma coisa antes de sair pra buscar o Rafael, deixá-lo com a Ira (nossa santa faz-tudo ucraniana), buscar o Gabriel, entreter os dois de 15h até 17:30h, dar papinha pra um e comida (nuggets de frango, macarrão com salsichinha, macarrão com presuntinho ou peixe com arroz) para o outro, dar banho nos dois, tomar o próprio banho, fazer o Rafael dormir e depois o Gabriel, me perguntar se tá tudo bem e depois descansar o esqueleto no colchão e apagar como se não houvesse amanha.

Pois é amiguinhos, morar na Europa nao é para amadores, já dizia uma amiga nossa que mora em Berlim. As mudancas foram sem dúvida para melhor. Hoje o Brasil sapecou a Costa Rica, mas comecei a Copa torcendo para o Egito. Fui várias vezes ao país e fiz alguns amigos por lá. Os caras sao fanáticos por futebol e idolatram a selecao das antigas. Além disso Mo Salah é bem melhor do que o Neymar, hahaha.

E que venham mais 14 anos!!! Pelo menos.

Abraco a todos.

ps. escrevi algumas linhas quando dos 5 anos de velho mundo em 2009 e depois aos 9 anos em 2013. Deveria ter feito esse balanço todo ano, relembrando o que passou e planejando o futuro.


Wednesday, August 09, 2017

Conversando com um anjo



 

Hoje recebi pela primeira vez uma ligacao do meu filho, Gabriel. Do alto de seus 3 anos e quase 3 meses proseamos por quase 10 minutos. Me perguntou como eu estava. Tá tudo bem filho, disse. Ele contou que estava com “saudades do papai”. Falou como foi na escolinha e depois fiz “chu biru biru” pra ele no telefone. Ouviu atento soltando aquela gargalhada no final. „A mamae tá comendo canjica… com amendoim”, disse orgulhoso. E o Rafael, já está dormindo?! “Tá sim, papai”. “Vou beber um chá quentinho e pegar o bico”. Já está na hora de você dormir, falei. „Já vou dormir abracadinho com a mamae.“ Ah bom! E na escolinha hoje, como foi. “Tudo bem, papai”. Perguntei se passearam, se foram no Vapiano comer pizza pra ganhar bala de ursinho no final. “Nao, fomos na Grado. Ganhei um pirulito rosa!” Que ótimo. Eu volto amanha e podemos ir naquela pizzeria nova que abriu aí perto de casa. „Eu gosto da Grado. Tem pizza de presuntinho.“ É mesmo! E o vovô e a vovó, como estao? Tá tudo bem com a mamae também. “É. Tá sim.”

 

Chorei copiosamente (de onde vem essa expressao) durante e depois dessa conversa firme, fluída e emocionante com o Gabriel. Te amo, filho.

 

Por que crescem tao rápido?!

Saturday, April 22, 2017

Don Jeronymo

Viena (hoje foi bobó. amanha tem feijoada)

Perdi um amigo! Senhor Jeronymo ou Sr. Jeronymo, se foi. Pegou o Golzinho branco encardido de minério e foi dar umas bandas por estradas nunca antes conhecidas. Devia estar cansado de ver a chuva da varanda molhando a horta. Ou da violência galopante mesmo em cidades pacadas e pequenas como Marataízes. Passei um verao espetacular por lá uma certa vez. Ou da política e corrupcao cada vez mais obscena no Brasil.

Don Jeronymo! Era assim que me referia a ele. Seja a outros ou com ele na minha frente. Uma carreira brilhante, o que mais pode ser dito?! Ajudou a construir boa parte do Brasil. Fez Angra 1, 2 e 3. Trabalhou em Itaipu durante um tempo. Fez nao sei quantas siderúrgicas, fábricas de cimento, hidrelétricas e depois termelétricas, celulose, óleo e gás, refinarias e mineracao desde a britagem primária ao embarque via vagoes. Acompanhou a montagem de siderúrgicas no leste europeu durante a cortina de ferro. Na Hungria, Bulgária, Tchecoslováquia, Romênia e quem sabe até na Rússia ele foi exibir seus conhecimentos. Da Christiani Nielsen para o mundo. Na verdade, de Cachoeiro do Itapemirim para o mundo. Conterrâneo de Roberto Carlos. Cada rei em sua área.

Na época da Christiane morava no Rio. A Carioca Christiane Nielsen. O escritório era em Botafogo. Malcoln Murren, o escocês, era o manda chuva na época, chefe e tutor. Assim como ele foi pra mim. Um mestre, mentor, tutor, exemplo de profissional, pessoa e homem. Tive como ele a relacao que gostaria de ter tido com meu pai, mas infelizmenete nunca tive. Falávamos de futebol, ele com o Vascao e eu com o Galao da Massa, política (era de esquerda, mas com ressalvas), música (gostava e ouvia de tudo), religiao (era bastante católico e se nao me engano, quase virou padre), mulheres, cotidiano. Sobre a Vida, enfim. E sobre o trabalho, sempre.

Águas Claras, Tamanduá, Capitao do Mato, Vargem Grande, Pico, Andaime. CMT - TAM - VGR - PIC. Entre 2000 e 2004 trabalhamos juntos no complexo do Tamanduá, a expansao da entao MBR, hoje Vale, exaurindo Águas Claras e abrindo CMT e TAM pra alimentar a planta de VGR via longos transportadores de correia e de lá descer até o terminal de Andaime pra embarcar minério pra a baía de Sepetiba. Nos navios o lump ore, sinter feed e sinter feed fine iria alimentar as siderúrgicas chinesas.

De quando em vez me chamava pra  almocar em Itabirito com Dona Luzia, sua esposa e Paulinho, seu filho mais novo. Que privilégio! Comida simples, caseira, feita com Amor. A melhor do Mundo! Me lembro do seu Romualdo, seu sogro já velhinho ali, almocando e escutando um pouco das besteiras que falávamos. Depois era pegar um sorvete no caminho e subir a serra pra completar o expediente. Nunca me esqueco Don Jeronymo dizendo "chocolate já é bom, gelado entao!!!"

No trabalho era uma máquina. Chegava as 7 e pouco da manha, se sentava e comeca a mexer nos seus famosos alfarrábios. Maria trazia um café e ele nem percebia. Controlava o que a Engenharia fazia. Checava pesos, volumes, quantidades e dimensoes como se fosse um computador. E achava erros, invariavelmente. Os desenhos eram revisados, ele checava novamente e só se dava por satisfeito quando os números batiam. Tinha seus parâmetros históricos adquiridos após tanto tempo no trecho.

Me sentava na mesa em frente a ele. Na primeira volta pela obra já me deu uma canseira. Nao consegui acompanhar o ritmo de sobe e desce de escadas e taludes. Ele entao com 64, eu com 26! A conclusao após o primeiro giro: aquilo tudo era uma orquestra e ele, o maestro. Sorriu marotamente concordando.

Achei que fosse viver mais de 100 dado o histórico familiar. Nao tinha nem nunca teve nenhuna doenca grave. Nao fumava nem bebia. Mantinha a forma e a sabedoria como poucos souberam manter. Tive o privilégio de conviver e me tornar amigo de um homem único em sua classe. Uma referência para todos nós. Uma fez Johnny Rambone inventou de cozinhar um galo e ele foi. Bebemos umas boas cervejas e cachacas com Dolfinho. Noite perfeita.

A turma o chamava nos bastidores de Pato Donald por causa dos cabelos brancos e longos ao vento. Achava engracado, mas nunca o chamei assim. Achava falta de respeito. Fazia amizades facilmente e era o olho do Perez, o coordenador geral do projeto, na obra. Um contraponto entre a Logos, empresa de gerenciamento, e a MBR, o cliente. Fundamental no sucesso de qualquer projeto.

Se manteve ativo até outro dia. Esteve na Libéria algumas vezes acompanhando um projeto grande da Vale já que nao conseguia ficar parado. Vivia prometendo me visitar na Europa, mas infelizmente nunca aconteceu. Trocamos algumas cartas, ele fez 80 ano passado no dia 15 de Novembro e sinto um remorso terrível por nao ter ligado dando os parabéns. Mas numa das cartas perguntei se teria festa e ele disse que nao.

Provavelmente comemorou vendo a chuva molhar a horta com uma xícara de café nas maos.

Vai em paz, meu amigo. Jamais te esquecerei.

Wednesday, September 07, 2016

Copa 2010 (9) - Mineirao R.I.P.

Aktobe (nao sei por que nao publiquei este texto antes)

Talvez por estar inacabado. Parei de escrevê-lo em 17.06.2010, data meio irrelevante. Desnecessário narrar o final do jogo. Injusticas do futebol à parte, Galo 2x3 Urubu e morremos mais uma vez na praia com um timaco. Pelo menos dessa vez nao foi roubado. O consolo que resta até hoje é o fato do Sport ter sido declarado pela CBF como campeao de 1987 pois o Flamengo se recusou a jogar a "final" da Copa Uniao entre o campeao do módulo verde contra o amarelo. Deu vitória do Leao por W.O.

Gracas à Deus essa fase de nao ganhar nada do Galo acabou . Hoje tem mais, contra o Vitória no Horto. Caiu lá, já sabem... tá morto.

Essen (Descanse em Paz..)

O titulo do Mineiro desse ano conquistado pelo meu Glorioso Atletico Mineiro encerrou a Era Mineirao, como o conhecemos ate hoje. E coube ao Galo, na derrota por 1x0 contra o surpreendente Ceará pelo Brasileirao, ter o privilegio de fazer tambem o último jogo da História do Gigante das Alterosas que fecha pra reforma ate o final de 2012 preparando-se para a Copa de 2014.

O nome oficial do Mineiraoé Estádio Gov. Magalhaes Pinto, mas ninguém nunca ousou chamá-lo de Magalhao ou algo do tipo. O Mineirao e seu irmao mais novo, o Mineirinho usado para vôlei, basquete, Balao Magico e concertos, fazem parte do complexo da Pampulha em Beagá.

Lembrancas sao muitas, alegres e tristes. Me lembro bem das primeiras vezes em que fui ao campo com meu pai e o Leozinho meu primo, atleticano fanático que hojeé uma espécie de eminencia parda da Massa, a torcida atleticana. Foi fundador da Nacao Atleticana, torcida organizada que nao existe mais, e agoraé membro honorário do alto escalao da Torcida Galo Prates, a TGP.

Um dos primeiros jogos que me vem a lembranca, Galo 6x0 Vila Nova em 1980 ou 81, a cada gol Leozinho pulava feito um louco e eu ia junto. Ele era um ou dois anos mais velho e comandava as acoes. Meu pai ao lado era só alegria. Reinaldo, o rei do Mineirao, marcava gols nesse jogo com a mesma facilidade com que uma costureira tarimbada enfia a linha na agulha.

Os anos foram passando e a paixao aumentando. A maior decepcao que vivi ali foi na semi-final da Copa Uniao em 87, Atletico e Flamengo. O primeiro jogo tinha sido 1x0 pro Urubu e bastava ao Galo uma vitória simples pra disputar a final. Tinhamos o melhor ataque, melhor defesa e terminamos a fase classificatória invictos. Coisas típicas do Galo. Tele Santana era o técnico, Sérgio Araujo estava no auge, Luisinho ainda jogava um bolao e Joao Leite, o Joao de Deus, era nosso arqueiro.

Mas eis que surge um timaco do outro lado com Zico, Zinho, Leandro, Andrade já velho mas eficiente, Bebeto explodindo para o Brasil e o Mundo e um inspiradíssimo carrasco chamado Renato Gaúcho.

A "pacata" Aktobe no Cazaquistao

Aktobe (pacata cidade do interior no Casaquistao)

Li na WikiPedia que Aktobe tem 400mil habitantes, mas parecem ser 100mil. Cidade pacata onde os motoristas param para os pedestres atravessarem a faixa, o verao é ameno e seco e o inverno de cortar a alma em três pedacos podendo chegar a -45°C... a sombra!

Saí para dar umas bandas no centro e vi senhoras e senhores vendendo frutas e verduras em pequenas quantidades nas calcadas rumo ao centro. Cebola, maca, melancia, laranja, banana, pareciam ter sido colhidas no quintal. Os cazaques tem o olho puxado e parecem uma mistura de russo com chinês como a própria localizacao geográfica indica.

Nas grandes e largas avenidas apenas carros ocidentais novos ou em ótimo estado. Vi pouquíssimos Ladas e hoje a tarde um Moscowich bem cacareco, mas honrosamente levando o dono ao seu destino. Uma mesquita branca com as cúpulas douradas adornava a paisagem de céu alaranjado anunciando o fim de tarde. No parque da cidade grupos de jovens se exibiam cantando e dancando para uma pequena platéia. Deviam estar celebrando alguma coisa. Para esse povo sofrido das ex-repúblicas soviéticas qualquer manifestacao cultural é um alento. Os anos sob o jugo socialista/comunista castrou tantos potenciais artistas e sonhadores quanto possível.

Um jardim florido numa calcada bem cuidada emoldurava o casal de jovens e também o senhor, provavelmente aposentado, desfrutando seu cigarro barato. Vi o estádio do time local, branco e vermelho, lotado em dias de jogos. Até as meninas discutem o assunto e querem saber como ficou o jogo. Na capital o FC Astana disputa a Champions League e seu maior rival, FC Kairat fez Almaty, a bela cidade ao sul, de base. Lá joga meu amigo Bruno Soares, ex-jogador do Fortuna Düsseldorf. Anda machucado, pra variar, mas disse voltar em uma semana.

Procurei Borat pela cidade, em vao. Nada aqui remete à figura cult criada por Sasha Baron Cohen. Evidentemente um estereótipo muito bem planejado e executado para fazer hora com a cara dos ianques.

Aktobe é, aparentemente, pacata e inofensiva. Mas as aparências enganam. Pouco mais de três meses atrás, dia 5 de Junho de 2016, um bando de malucos invadiu duas lojas de armas e uma unidade militar e saiu atirando a esmo pelas avenidas da cidade. Salto da brincadeira: 7 mortos e 38 feridos inclusive 3 policiais. Nenhuma das marcas do terrorismo global assumiu autoria do atentado. A notícia nao saiu nos principais sites internacionais. Nao antes que o servico secreto local identificasse e matasse todos os 18 terroristas.

E eu achando que as velhinhas e velhinhos vendendo frutas eram a prova maior da Vida pacata no Cazaquistao.



Monday, August 29, 2016

A Importancia da Rotina

Viena (Juju em Amsterdam...)

Já esse fora escrito em 11.05.2010 nos meus áureos tempos de Ferrostaal. Mais um que recebeu a alcunha de "draft". Pra mim isso existia só na NBA.

Essen (sentado na boa e velha cadeira)

26A, 20E, 15F, 9A, 13B, 11D, 14B e 14E. Esses foram os assentos voadores em que me sentei entre os dias 20 de Abril e 6 de Maio de 2010 durante a viagem profissional ao Brasil. Se contar com os assentos em quatro rodas dos tantos taxis, vans e carros - alugados, proprios, de amigos - a conta sobe mais ainda. E tem tambem o trem ida-volta DUS-FRA, o metrô e os ônibus que te levam do embarque ate a aeronave. So faltou moto e bicicleta. E um eventual cavalo.

Toda vez que ando de aviao fico maravilhado. Desde o instante quem que as rodas descolam da pista e a massa de metal aerodinamico, borracha, vidro, cabos, fios, comidas, bebidas e gente ganha os ceus, passando pelo vôo solitario e tranquilo sobre o colchao cinza e branco de algodao até a aproximacao e o pouso, ora perfeito, ora pancada. O medo vai sumindo aos poucos, dando lugar para a razao, a engenharia e estatisticas. Voar é o meio de transporte mais seguro de todos os tempos, até uma crianca recem nascida sabe disso.

Tem que ser muito azarado pra morrer assim.

Banho de Energia

Viena (nao sei por que nao publiquei)

Voltando do Show de James Paul McCartney dia 18.12.2009 escrevi, mas nao postei, as linhas abaixo. Agora vai! E continua sendo o melhor show que já fui.

Essen (eu vi O Beatle)

Juju e eu tomamos uma ducha de musica excelente e alegria de viver ontem em Köln no show de ninguem menos que James Paul McCartney.

Paul fez dois bis (bises?!) tocando 5 musicas no primeiro e voltando pra fechar com Yesterday, Helter Skelter e Sgt. Peppers. Lavou a alma de todo mundo.

Foi o melhor show que fui na Vida, válido para sempre. Acho que ninguém vai superá-lo.

Nanjing e Hangzhou

Vienna, 29.08.16 (bolucho dorme a sono solto!)

Artigo originalmente escrito dia 08 de Agosto de 2016 in loco.

08.08.2016 Nanjing, China (Rio 2016: China 2x0 Itália, vôlei feminino)
O que eu sabia sobre Nanjing antes de chegar aqui?! Seria a cidade onde foi criado o nanquim, nosso companheiro das aulas de desenho no primário? Capital da indústria automobilística chinesa? Polo de tecnologia dos tecnocratas comunistas/capitalistas? Sinceramente, nunca tinha ouvido falar de Nanjing. E me assustei ao saber que havia um vôo direto de Frankfurt pra cá.
Continuei no escuro sem pesquisar populacao, atracao turística mais famosa, hábitos de seus cidadaos, comidas típicas, vegetacao, relevo e clima. Simplesmente pulei no A340 da Lufthansa e vim.
Na descida do aviao só via campos verdejantes, algumas casinhas e plantacoes aqui e ali, uma montanha acolá. “Vamos pousar no meio do mato ou o aeroporto é longe da cidade, que nem em BH?”. A segunda opcao se confirmou. Miss Chang me esperava com uma plaquinha onde se lia “Mr Pedro”. Nao sei por que os asiáticos, e outros povos nao ocidentais como os egípcios, te chamam pelo prenome com um Mr na frente ao invés de Mr Silva. Jamais saberei.
A falante Miss Chang foi me contando o que ela fazia da Vida e seus sonhos de viajar pra fora da China e conhecer Londres e a realeza qualquer dia desses. A cidade foi aos poucos se descortinando pela janela do taxi. Todas as marcas mundiais de carros estão presentes: Toyota, Hyundai, Nissan, GM, Audi, Mercedes, BMW, Buick, muitos VWs e até Cadillac, quem diria. Mao se retorceria no túmulo! Mas muitas marcas chinesas estão nas ruas também. Só nao me pergunte os nomes.
As ruas e avenidas tem sempre uma pista lateral pra acomodar as milhares de mobiletes, scooters, motinhas elétrica, bicicletas, triciclos e qualquer gambiarra que se mova em duas ou três rodas. A fauna de pilotos é curiosa. Senhoras com viseiras de plástico colorido e luvas da Hello Kitty, velhos caquéticos transportando algo, casais jovens flanando, maes levando ou buscando os filhos, moleques apressados e inconsequentes, senhores folgados dirigindo na calcada e tantos outros personagens.
Ainda sem saber muito sobre a história de Nanjing escuto Mr Luo, nosso gerente regional e agente, dizer sobre um templo de Confúcio e um jardim com flores de lótus. Tentei sair pra comprar um notebook barato da Lenovo ou Asus mas, para minha surpresa, sao mais caros aqui do que na Europa. Mesmo sendo made in China o lucro do vendedor e os impostos encarecem o produto localmente. O mesmo vale para roupas e outros artigos de necessidade diária.
Meu maior temor era a comida. Ainda bem que me enganei. O jantar estava ótimo. Um panelao com legumes e verduras em fervura fica no meio da mesa, em cima de uma trempe de forno de inducao. Joga-se aos poucos carnes de todos os tipos, queijo tofu, legumes, folhas, mini almondegas, tripa de porco (provei e gostei) e comemos todos de palitinho junto com os diversos molhos. A cerveja é leve e refrescante com apenas 2,5° de álcool. A tradicao é encher um copinho de no máximo 100ml brindar falando “Kampei” virando duma vez. (Na verdade depois aprendi que é Ganbei!). Bebi uns 150 copinhos sem ficar bêbado. Sobremesa e café nao existem, mas nao fizeram falta. À tarde quando fui procurar o notebook acompanhado de Miss Chang entramos numa lanchonete pra comer pastel de nata parecido com o português e tomar um cappuccino honesto.
No quarto do hotel tentei ver algo das Olimpíadas, mas a tv chinesa só mostrava o levantamento de peso dos patrícios locais. Acho que algumas medalhas foram amealhadas devido às reacoes de alegria e jubilo dos chinas. O salto ornamental em duplas me impressionou pela sincronia e perfeicao. Mereceram a medalha de ouro. No vôlei feminina a China venceu a Itália por 3 sets a 0. Acho que os italianos sao bons apenas no masculino.
Li que nossa selecinha decepcionou de novo empatando em 0x0 com o “fortíssimo” Iraque! A geracao do 7x1 ainda nao entendeu que o buraco é mais embaixo. Pelo menos o Galo meteu 3x1 na Chapecoense e deve terminar o 1° turno em 3° lugar a um ponto apenas de Palmeiras e Corinthians. Esse ano tá com cara de Galo!!!
Agora estou num trem rumo a Hangzhou, província de Zhejiang. O trem é um ICE igualzinho ao alemao. A estacao tinha 29 plataformas, um pé direito gigantesco e mais parecia um aeroporto moderno. Marcas famosas todas lá, Starbucks e Haagen Daz, propagandas de carros ocidentais etc.. A China medieval ficou pra trás faz tempo, pelo menos em infraestrutura e acesso a produtos do mundo todo. Dizem que agora o objetivo é desenvolver a parte oeste do país nao tao rica quanto o sudeste. Estao até investindo em ferrovias no Paquistao ligando o país de norte a sul e interligando a China com a Tailândia, Malásia e Cingapura. Um assombro!!!

Será que Mao algum dia pensou em ver seu país assim?!

Tuesday, August 23, 2016

Internet 25 anos depois: cacando Pokemons

Viena (tudo comecou com a BBS Horizontes)

Há exatos 25 anos Tim Berners-Lee criou a primeira página da Internet que pode ser vista aqui. World Wide Web, o famoso WWW que precede qualquer página na rede mundial de computadores, completa hoje um quarto de século.

"This machine is a Server. Do not power down"

Novas palavras como browser, hyperlink ou simplesmente link, E-Mail e o sinal @ e tantas outras foram incorporadas ao vocabulário mundial. O correio eletrônico foi uma revolucao. Diziam que os correios de verdade iam acabar, que ninguém mais enviaria cartas ou postais. Mas ambos convivem muito bem até hoje, obrigado. Claro que o volume de cartas e postais diminuiu sensivelmente forcando os correios a diversificarem seus negócios.

Me lembro do primeiro provedor lá de casa: Prover. Internet discada, aquele barulhinho característico que hoje soa tao raramente quanto um sinal de fax. Aliás, alguém ainda manda fax nesse mundo? Uma foto de mulher pelada demorava minutos pra ser carregada, ou baixada. Uma tortura só. E quando dava pau?

Depois veio o primeiro, ou um dos primeiros, chats online: ICQ. Cada usuário tinha um número e se voce escrevesse qualquer bobagem praquele código de algarismos alguém do outro lado, um amigo, responderia. Mas poderia ser um desconhecido também dando início aos primeiros chats online e suas variacoes de paquera e sexo tao comuns hoje em dia.

(Aqui um parênteses. Gracas ao bate-papo do UOL passei 15 dias na Espanha entre Barcelona, Sevilla e Madrid com pessoas fantásticas e muito cultas, comendo e bebendo do melhor e tendo aulas de história, artes e geografia in loco. Como consegui isso? Priimeiro conheci a Raphaela no Chat do UOL Conversa vai conversa vem e mudamos para o Hotmail, hoje MSN, que nem existe mais. Um defunto eletrônico. De lá cada um checou o perfil do outro no Orkut e uma empatia surgiu. Isso era Janeiro de 2005 e eu enfurnado num experimento científico no ESRF em Grenoble. Mas pode ter sido no HASYLAB em Hamburgo também. Nao interessa, era alta madrugada, um frio de rachar lá fora, o experiento e as medicoes rodando e nada pra fazer. Alguém tinha que estar ali pra ficar de olho e corrigir a medida caso alguma merda acontecesse. Trabalhavamos em turnos. O da noite era o meu. Bom, marcamos de nos encontrar em Barcelona em Marco e de lá descer de ônibus para Sevilla pegando a tradicional Semana Santa na Andaluzia. O destino era a casa do Jack. Ali estávam também o Ronald, consul do Brasil em Madrid, o Fernando, Professor de artes e o Tinte, de nome Florentin, funcionário de um banco. Jack era restaurador de catedrais e trabalhava na torre da famosa La Giralda, a fantástica catedral de Sevilla. Passei bons dias com eles e a Rapha que é amiga até hoje, embora nem tanto quanto o Ronald. Este ia nos contando a história dos lugares, as guerras, quem ganhou e por que, os impactos nas sociedades, a origem das comidas e bebidas. Depois durante as procissoes da Semana Santa, onde cada igreja se esforcava para ter a Maria mais bela e o maior número de fiéis seguindo os andores, nos explicava sobre as tradicoes religiosas. Ainda consegui assistir uma tourada na la Maestranza, a famosa e tradicional Plaza de Toros de Sevilla. Era início de temporada, a primeira tourada do domingo, comprei ingresso na porta e me acomodei num assento de pedra. Olhei para os lados e todo mundo tinha uma almofadinha. O programa era de 6 toros, 2 para cada Torero. O último a entrar é sempre o mais experiênte e famoso, El Cid! Dependendo da atuacao o Torero tem direito a cortar uma orelha do touro. Se for muito bem, corta as duas. Se o desempenho tiver sido excelente leva o rabo do bovino. Mas se for algo fora do normal ele corta tudo isso e ainda sai carregado nos bracos da galera pela porta principal. E foi assim que El Cid saiu de la Maestranza naquele ensolarado domingo andaluz. Nos bracos do povo. Durante os dias criei uma amizade com o Ronald. Ele voltaria pra Madrid depois das festividades e eu também ia pra lá me encontrar com o Bidu. A Rapha me cantou a pedra: fala pra ele que voce nao tem Hotel ainda e ele te convida pra ficar na casa dele. Dito e feito! Passei 5 dias em Madrid no ape do Ronald muito bem localizado com direito a empregada brasileira cozinhando arroz e feijao e fritando bifes e ovos cujos sabores me lembro até hoje. Depois eu teria que procurar onde ficar para as duas noites finais já que ele receberia um amigo. Mas eis que surge Tinte Sabin, o bancário Florentino, e me oferece um ape vazio ao lado do Reina Sofia! Aceitei imediatamente antes que ele mudasse de idéia e assim passei 15 dias na Espanha sem gastar um centavo com hotel. Gracas ao bendito bate-papo do UOL.)

Voltando ao assunto, o Napster revolucionou a indústria da música e a forma como as pessoas se relacionam com ela. Explica direito. Você pode procurar e achar uma música que quer ouvir, qualquer uma, fazer o download do arquivo de graca e ouvir no seu computador? E esse tal de MP3? E os meus LPs, K7s e CDs, o que faco com eles? E as lojas de discos?! Pois foi aí que se previu o fim da música gravada fisicamente nos meios citados e sendo disseminada em arquivos digitais via Internet. E de graca!!! Até a indústria fonográfica entender o que estava acontecendo muita gravadora pequena quebrou, artista parou de ganhar grana somente com venda de disco e comecou a fazer show sem parar. Hoje em dia os grandes donos da festa sao quem controla essas tantas casas de shows e arenas mundo afora faturando horrores com ingressos cada vez mais caros. Live Nation é uma delas.

O Messenger era uma versao bem mais sofisticada do ICQ. Podia-se compartilhar fotos, videos e audios, os emoticons deitavam e rolavam e pra quem morava fora como eu era muito bom pra conversar com a família e amigos matando um pouco da saudade. Tinha uma polaca maluca na TU Wien onde comecei meu Doutorado. Ela nos apresentou ao Gadu Gadu que vem a ser uma versao polonesa do Messenger. Eu e o Haroldinho caímos matando e saimos interagindo com as polacas do mundo todo, mas principalmente as de Viena. Nos renderam bons frutos!

Fui pedido em casamento via Messenger! E mantinha conversas intermináveis com Ela via Skype de quem falaremos logo mais. Viva a Internet!!!

Na sequência do Napster veio o eMule e similäres para download de filmes. Os arquivos eram quebrados em milhares de pedacos e compartilhados com os usuários online através do programa. Depois vieram o rapidshare e afins com os links das partes disponíveis para baixar e por último os torrents que usavam um princípio semelhante ao eMule, mas a variedade de filmes era bem maior e o programam mais rápido e fácil de usar. Baixei muita coisa boa até tomar uma traulitada do governo alemao em forma de multa e aposentar o mouse.

Eis que voce acha que tudo ja existe na Internet e surge um tal de Orkut, nome de um turco. Era um site diferente onde cada um tinha um perfil e podia entrar no perfil dos outros deixando comentários ou participando de comunidades como "Amantes da alface" ou "Novela das oito forever" ou "Discografias" com todos os links do rapidshare dos seus artistas preferidos sendo disponibilizados para download. Pronto, inventaram tudo! Que nada. Aí vem o Facebook pra revolucionar tudo outra vez mudando a interacao individual entre cada usuário e jogando tudo na cara de todo mundo aumentando absurdamente a interacao entre todos.

Voltando ao Napster e MP3, com a reducao de tamanho dos arquivos ficou fácil colocar o conteúdo de um CD ou de vários num pequeno aparelho com fone de ouvido.. Assim surgiu o iPod e suas variacoes. Viva Steve Jobs! Daí para o iPhone foi um pulo e depois para o iPad. A chegada dos aplicativos, que no início eram versoes para iPhone ou iPad de páginas ou softwares já existentes na rede mundial, evoluiu para a criacao de apps específicios para qualquer coisa. Seja controlar a alimentacao, medir a distância e tempo da corrida, checkin online de cia aérea, visualizar mapas pelo Google Maps, pedir comida, comprar passagem aérea depois de comparar precos no mundo todo, alugar um carroou chamar um táxi, agora Uber, mas sempre interagindo com outras pessoas.

O WhatsApp revolucionou a comunicacao via smartphones. O Skype continua assombrando e proporcionando conversas limpas pelo globo conectando amigos e famílias e sendo ferramenta de comunicacao de várias empresas reduzindo enormemente os custos de video conferências.

E agora, 25 anos depois, vejo manadas de criancas, adolescentes, adultos e velhos, cada um com seu smartphone ou tablet na mao com os olhos grudados na tela correndo pelos parques e avenidas da cidade com um único objetivo: cacar Pokémons!!! Na minha época uns 20 anos atrás eu saia de casa pra cacar outras coisas. Mas, tem gosto pra tudo nessa Vida eletrônica.

Acho que o Sr. Tim Berners-Lee nao esperava por tudo isso. E os próximos 25 anos? Tenho algumas sugestoes:
- instalar micro cameras nos olhos das pessoas para fotografar ou filmar o que os olhos enxergam. Os arquivos seriam transferidos a um computador via uma micro saída USB instalado na unha do mindinho;
- instalar micro chips nos ouvidos com todas as músicas jamais feitas até o momento. Ao se pensar numa música ela tocaria imediatamente pra voce sem necessidade de fones;
- o mesmo vale para se fazer ligacoes ou ligar diretamente para uma pessoa que tenha chips na língua e queira conversar com voce
- nessa mesma linha os chips do ouvido e da boca seriam capazes de traduzir qualquer idioma recebido. Isso permitiria que eu conversasse alegremente com um aborígene no sope do Outback australiano falando em português, ou mineirês, e ele recebendo a traducao instantânea no ouvido. Responderia no seu dialeto e eu entenderia tudo pois ouviria em bom português. Claro que isso seria a falência de todas as escolas e editoras de livros de idiomas.

É, acho que ainda temos muito para evoluir!

Monday, August 22, 2016

Pitacos Pós Olimpíadas

Viena (adeus complexo de vira latas)



Após a bela festa de encerramento ontem a noite que nao vi algumas constatacoes sobre os jogos:
- jamaicanos sao imbatíveis em provas de curta distância... e nas baladas, golos e fumacê
- americanos sao os reis do revezamento, tanto em pistas como piscinas... mas adoram uma mentira
- o Brexit teve efeito contrário: os britânicos aumentaram o nr. de medalhas conquistadas em relacao a London 2012
- fundistas fera sao quenianos, etíopes e às vezes uns marroquinos. Espanta ver um norte americano levando bronze na maratona
- o Brasil nao conseguiu ficar em 10° como queria, mas mostrou os Silvas Rafaela e Thiago, Robson Conceicao e Isaquias pra o mundo. Sem falar na ginástica, volei de praia e iatismo.
- dois ouros, duas caras: o vôlei lavou a alma e saiu por cima com a aposentadoria e humildade do duas vezes campeao olímpico Serginho
- já a selecao ganhou, mas nao levou. Ganhou o ouro em cima dos moleques alemaes sem ter uma estrela como Neymar e tomando sufoco com várias bolas na trave. O choro do ídolo maior até agora nao me convenceu. Mas consegue fácil uma ponta na Record. Pra novela das 7 na Globo tem que melhorar
- a Áustria simplesmente nao existe em Olimpíadas, só nas de inverno. Ganharam um mísero bronze na vela, vejam só que ironia! terminando em 78°. Em comparacao com a Suíca, país próximo e de mesmas proporcoes e história vira chacota. Os helvéticos levaram 7 medalhas sendo 3 de ouro: ciclismo e remo. Tem montanha a dar com pau na Áustria. Rios e lagos também. Terei uma conversinha com o ministro dos esportes em breve.
- o complexo de vira latas do brasileiro acabou de vez com a cascata inventada pelos nadadores americanos. Passaram vergonha, pediram desculpas e voltaram pra casa com a certeza que o Brasil é festa e bagunca, mas a lei funciona. Nem que seja de vez em quando.

Que venha o Japao. Sempre sonhei em conhecer esse país. Por que nao durante os jogos?!

Friday, August 19, 2016

Voltamos!!!

Viena (as alemas estao sapecando 1x0 contra as suecas na final olímpica)

Sinceramente, achei que esse dia nunca fosse chegar. A última postagem foi em Marco do ano passado. Um ano e 5 meses se passaram desde entao.

O Mundo tornou-se um lugar pior para se viver após tantos ataques terroristas de motivacoes diversas. De cabeca me lembro do aeroporto em Istanbul, a boate gay na Florida, o aeroporto de Bruxelas, o caminhao assassino em Nice, Paris e o Bataclan, o maluco com a faca num trem alemao, mais um chucrute pirado atirando pra todos os lados num shopping em Munich. Fora os tantos atentados em Bagdad, Afeganistao, Síria, Egito, Pakistao e outros países nao ocidentais que ganham menos cobertura e importância da mídia mundial e da opiniao pública, ou seja, nós mesmos. Como se uma Vida parisiense tivesse mais valor que uma iraquiana.

Cheguei a criar um outro blog usando o Wordpress. Por um breve momento este site nao era bloqueado no Notebook da empresa, mas logo pegaram. E foi lá no Wordpress que deixei um único post reproduzido abaixo.

Kroc,

Vc nao vai acreditar. Me lembrei desse outro blog que havia criado em 2009 https://pedrobresson74.wordpress.com

Já estava editando e melhorando a bagaca e até escrevi o post abaixo pra recomecar a Vida blogueira, mas aí a merda do software da Magnesita bloqueou tudo. A pa porra…
Vou pedir um indulto!

Viena (finalmente voltamos!!!)
Gosto bastante de escrever sobre qualquer assunto. Portanto, nao espere que esse blog faca sucesso. Tenho um leitor fiel, ou talvez dois. Kroc,o único que me segue, me enviou hoje um email tao inspirador que resolvi tomar as devidas providências e agir.

O blog atual Truta Photos (www.trutaphotos.blogspot.com) vem definhando já a algum tempo. Nao só pela falta de Tempo após o nascimento do Gabriel, mas principalmente por que o gmail e consequentemente o Blogger, a plataforma onde o Truta está hospedado, sao bloqueados no laptop da empresa. Nem em casa ou em hotéis o acesso é liberado.

Durante todo esse tempo me senti cego, surdo, mudo e manco pendendo pra esquerda. Mas agora meus problemas e o d Humanidade acabaram! A volta da série dos anoes tem data pra acontecer. Os carros interessantes que clico na rua finalmente receberam olhares anônimos de toda blogosfera.

E os assuntos espinhosos como política, futebol e religiao esquentarao as páginas a seguir. Os diários de viagem também voltarao a todo vapor, quem sabe com um post sobre a Turquia e nosso agente local, um mao de vaca incorrigível, sem tino comercial algum e péssimo negociante. E é nele que temos depositado nossas fichas nos últimos 25 a 30 anos. Mas isso também vai acabar.

É isso! Obrigado Worldpress!

Acabo de comprar um Lenovo Yoga 300 que vem a ser um Laptop bem ágil e leve com funcao de tablet. Ou seja: Truta forever!!!


Thursday, March 19, 2015

Anões pelo Mundo, o Retorno

Viena (a mais famosa série do Truta voltou!)


A foto não é minha. Mas quem disse que tem que ser? Essa simpática anãozinha (pleonasmo) de saia rodada e keds aguarda sua coxinha, vejam só, numa lanchonete que me parece ser a Boca do Forno em BH.


Seria ela a famosa Tomate que aterrorizava a meninada na porta do Pitágoras?

Se não é parece bastante.

Sunday, March 15, 2015

Franz Hubmann

Viena (a loja da Leica eh ao lado do trampo)


Franz Hubmann foi um jornalista e fotografo austriaco que faria 100 anos em outubro do ano passado. Foi amigo de grandes artistas como Picasso, Beuys, Kokotchka, Warhol, Giacometti, Nureyev e tantos outros. Mestre em registrar o cotidiano dos cafes vienenses sua grande paixao era o jazz.


Tornou-se a versao austriaca do Americano William Claxton, maior fotografo de jazz de todos os tempos. E devido a qualidade de suas fotografias de rua foi rotulado como o Cartier Bresson de Viena. Nada mal.


A loja da Leica em Viena fez uma exposicao dos 100 anos de Hubmann. A loja fica ali a poucos metros da Opera e do lendario Café Sacher. Com certeza Franz nao so bebeu bons Melanges por ali como registrou cenas dessa instituicao vienense.


Aqui um link de um artigo sobre a exposicao, em alemao.


Na foto abaixo ninguem menos do que Satchmo, vulgo Louis Armstrong, num show em 1959 na Wiener Stadthalle.


(NAO CONSEGUI POSTAR A FOTO...)







Wednesday, March 11, 2015

Truta em estado vegetativo, mas...

Viena (para o alto e avante!)


De 132 postagens em 2011 caimos para 37 em 2012. Fruto da cagacao de regra da empresa onde trabalho que bloqueia tudo quanto eh site digamos subversivo. Tudo bem durante o horario de trabalho. Eh ate obvio. Mas em casa? Num hotel apos um arduo dia de trabalho? Inaceitavel. Cerceamento da liberdade. Censura! Mas eh o laptop da empresa que paga meu salario (e minhas contas), fazer o que.


Em 2013 foram 18 posts! Inaceitavel. Durante 347 dias ou noites fiz o que exatamente que nao encontrei tempo para o Truta? Culpa minha ja que o computador de casa estava ali, disponivel 100% do tempo.


Em 2014 tenho ate duas boas desculpas. A primeira foi o nascimento do Gabriel em maio. Depois o Mozilla do iMac meio que pifou e nao consigo mais fazer atualizacao alguma. O Safari roda meio cambeta tambem. Ai foi o fim. Miseros 11 textos no ano passado.


E nesse ano NADA! Meu unico e fiel leitor ficou louco. Mas relendo um antigo email dele de 2013 resolvi tomar providencias, fazer massagens cardiacas e tentar reativar isso aqui. Ta me fazendo falta tambem.


QUOTE


Díficil dizer do que gosto de ler no Truta, o simples fato de ser escrito por um amigo já acho legal. Talvez pelo fato de não saber escrever e muito menos ler.

Gosto muito de amenidades, principalmente se forem inúteis, estórias e vivencias também me atraem, o post do Galo foi ótimo. As fotos são ducaralho, os anões então nem se fala. Formula 1 NÃO, apesar de gostar muito, é muito comum, todo mundo escreve, mas compõe o blog. A linha de Rock, filmes acho show, jurei para mim que assistiria os 10 melhores filmes de guerra postados, ainda não o fiz, mas farei. O Truta fazia parte do meu cotidiano, chegava no trampo, enchia o saco do Fulano, pegava um café, sentava na mesa e lia o Truta com o tal polvilho que me entregou, quando tinha novidades as lia, quando não tinha voltava alguns posts e os lia novamente, depois partia para os outros sites de costume, mas isso é passado, além do Truta estar parado a empresa cresceu e a rotina mudou. Mas sempre dou uma passada lá, apesar de ser reprimido e ter alguns comentários apagados.

UNQUOTE


Como nao se comover com uma mensagem assim? No laptop do trabalho da minha esposa eh tudo liberado, inclusive gmail e Blogger. Eh a solucao da lavoura!


Vamos em frente e como disse meu fiel leitor nessa mesma mensagem "o lance é fazer o máximo que podemos, acelerar com o carro que temos e nos divertirmos."


Como discordar?

Sunday, August 03, 2014

Tutankhamon e Companhia

Meerbusch (estou lendo Istanbul de Orhan Pamuk)

Assim como os dois relatos abaixo esse também foi digitado in loco, 11 days ago.

Kairo (o rei menino)

O Museo Nacional do Cairo, ou Museu Egípcio, é uma jóia rara muito bem guardada. Os tesouros ali sao incontáveis e incalculáveis. Tudo amontoado no primeiro edifício do Mundo planejado e construído para ser um museu. É necessária a habilidade de um Sherlock para encontrar a descricao das pecas. O conteúdo caberia facilmente num complexo pelo menos três vezes maior que o atual. As obras do novo Museu Egípcio estão em andamento, mas sabe-se lá quando ficará pronto.

Recusei a estimada oferta de um guia para me mostrar o essencial em duas horas e fui direto ver Tutankhamon. Me arrependi depois. O rei menino tem uma ala especial muito bem guardada nao só por cameras como também astutos vigias. Fiquei ali admirando a mascara mortuária com o abutre e a cobra no alto simbolizando a protecao dos deuses do Alto e Baixo Egito, respectivamente. O Segundo e o terceiro sarcófago também estão ali expostos. O primeiro ficou lá perto de Luxor no Vale dos Reis onde a tumba KV62 foi encontrada em 1922 praticamente intocada por um arqueólogo ingles naquela que é considerada até hoje a maior descoberta de todos os tempos. Ó faraó mais famoso de todos foi mumificado e colocado em três sarcófagos, um dentro do outro. A mascara mortuária protegia seu rosto e uma espécie de armadura em joías cuidava do resto. Mais sobre o Rei Menino aqui.

Outro ponto alto do museu é o Salao das Múmias. Ambiente com temperature e umidade controlada para guardar os corpos mumificados de pessoas normais, príncipes e princesas e grandes reis e rainhas como os faraós Ramsés II, III, IV e V. O terceiro é o mais famoso e deu origem àquela série de cinco livros escrita por Christian Jacq. Agora tenho que ler a saga de qualquer jeito. Outra ala mostra animais embalsamados. Sim, muitos deles eram considerados sagrados e acreditava-se que seus espíritos sairiam e entrariam nos corpos das pessoas enterradas com eles. Tinha cachorro, bezerro e até crocodilos com filhotes embalsamados!

O Vale dos Reis fica no Alto Egito, lá embaixo (olhando o mapa) ou lá em cima em relacao ao curso do Nilo, perto de Luxor, antigamente chamada de Tebas. Dizem que um cruzeiro entre Luxor e o Cairo é das viagens mais inesquecíveis de uma Vida.

Quem sabe um dia farei com Ela e Gabriel à tiracolo.

Mr. B.

Meerbusch (amanha é preto na folhinha)

Crônica escrita 11 dias atrás no Egito.

Kairo (sol azul, 38° C todo dia)

Negociar com egípcios nao é fácil. Esqueca aquelas barganhas nos mercados onde o vendedor poe o preco dez vezes mais alto. Depois comeca a reduzir até fechar pela metade ganhando 50%, pelo menos.

Sao duros na queda. Fazem cara feia. Gritam e batem na mesa. No instante seguinte falam manso e oferecem café, chá ou limonada com menta. Aliás, melhor que a nossa brasileira limonada “suica”. Pegam o preco ofertado e diminuem 30%. No mínimo. Movê-los dali é como empurrar um bloco da pirâmide de Quéops… sozinho!

Primeiro entra-se numa sala de reunioes com o comprador e o gerente, dois bedéis que nada decidem e ficam te perturbando. Tentam perceber onde você pode abaixar o preco ou se demonstra alguma inseguranca em relacao a determinado item. Tentam te guiar indicando o que deve ser dito ao presidente da empresa que aqui chamarei de Mr. B., um senhor de quase 70 anos comandante-em-chefe de uma das mais importantes siderúrgicas do país.

Contei 24 pecas entre canetas, lapis e lapiseiras em sua mesa. Todas destampadas, prontas para o uso. Um sistema de papeizinhos com informacoes vitais ora grampeados a outros, ora fechados com durex circula entre as hábeis maos gordas de Mr. B. e ao entra e sai de emissários circulando pela sala. Recintos estes com as persianas sempre abaixadas para se perder a nocao do tempo. Após ser chamados, saímos da sala de reunioes e nos sentamos nas poltronas em frente a Ele. Entre um telefonema e outro conversamos sobre os assuntos. Saímos e voltamos umas cinco vezes com reunioes paralelas acontecendo.

Mas sao bem humorados. E o fato de ser eu um brasileirinho contra esse mundao todo ajuda muito. Fizeram questao de relembrar os 7x1 contra a Alemanha umas três vezes durante a “reuniao” que comecou às 11h e terminou às 19h. Sem almoco. Estamos no Ramadan, lembra?! Te enrabam sem vaselina fazendo você se sentir que está fechando o melhor negócio do mundo. Com muito jeito, brasileiro, e habilidade consegue-se minimizar o prejuízo. É necessário dar tempo ao tempo e nao acelerar as acoes. Nao adianta tentar controlar a situacao. O cliente a tem sobre controle o tempo todo. Ele dá a última sugestao de preco e tem a palavra final. Mesmo quando ocorrem divergências mínimas, como por exemplo com o número 23, dá-se um jeito de arredondar para baixo e evitar a supersticao.

Ainda nao sei se fiz um bom negócio e nem se continuarei no mesmo emprego, mas que foi divertido isso foi. E Mr. B disse ter gostado de mim. E eu dele!

Caos e Banquetes no Ramadan

Meerbusch (Ela dorme com Ele no colo)

As impressoes abaixo foram escritas 11 dias atrás lá mesmo no Cairo, no calor de 42° C.

Kairo (com K em alemao)

Um dia ainda irei dirigir no Cairo. Deve ser melhor do que pilotar a Mercedes do Rosberg. Ou a Yamaha de Il Dottore Rossi. Já falei sobre isso aqui: os egípcios sao os melhores motoristas do planeta. Disparado! Numa avenida de quatro pistas andam pelo menos seis carros lado a lado. Os pedestres atravessam aquele tsunami de viaturas na maior desenvoltura e tranquilidade. Vi um casal de maos dadas em meio aos carros ali passeando, como se tivessem no ar condicionado de um shopping.

Fico imaginando um alemao numa situacao dessas. Parado e impotente sem uma luz vermelha ou verde sequer para acionar o algoritmo interno que dará o comando „andar“ para suas pernas branquelas de bermudas com meias pretas e sapatos idem. Ficaria ali por três geracoes de um lado da avenida sem saber o que fazer. A nao ser que um solidário filho de Ramsés resolvesse ajudá-lo pegando-o pelo braco e rompendo o mar de lata, vidro e borracha a dentro até chegar do outro lado.

E as buzinas?! Sem elas o transito ficaria mais caótico do que já é. Servem pra tudo: anunciar a chegada, alertar, chega pra lá, sai da frente, anda logo lerdeza, cuidado, se nao pular fora te atropelo. Por aí vai. Sem elas os motoristas ficariam zonzos e desnorteados, por incrível que pareca. Um simples buzinar leva a crer que o da frente andará mais rápido, ou melhor ainda, desaparecerá.

Presenciei tudo isso a bordo do “taxi” do Magdy, um senhor egípcio nascido e criado no Cairo (cairano ou cairense?). Me pegou na saída do Museu Nacional do Cairo após me impressionar com Tutankhamon e companhia. Disse se chamar Cristiano por causa do português Ronaldo. Pedi para me levar ao famoso bazar da cidade, o Khan El-Khalili, um mercado aberto que se extende por 2.000 ruas formando um labirinto de cores, sabores, gostos e tradições. Perguntei quanto custaria e ele respondeu “as you wish” com um sorriso. Depois me convenceu habilmente a extender a corrida até o meu hotel depois da visita no bazar. Disse que ficaria me esperando no horário marcado. Contou-me que após as 7h da noite seria impossível achar um taxi por causa do Ramadan.

Quando o sol se poe os mulcumanos do mundo inteiro correm para os restaurantes ou mesas de suas casas para comer celebrando o fim de mais um dia em jejum. O Ramadan equivale a nossa quaresma e serve para renovar os votos a Allah. Mas quando o sol se poe a turma deita o cabelo no que vier pela frente comendo muito mais do que normalmente comeria. Nessa época os cozinheiros mulcumanos se esmeram fazendo receitas exclusivas para aplacar o sacrifício divino e saciar a fome de lob afonso dos devotos.

O Ramadan na verdade comemora o envio do anjo Gabriel (Jibril), ora vejam só, por Allah até o profeta Mohammad para transmitir-lhe os primeiros versos do Alcorao. Isso ocorre durante o 9° mês do calendário lunar islâmico todos os anos. Doacoes e caridade batem recordes nesses dias. É uma época de Perdao e Amor. E de muitas calorias!

Mas voltando ao El-Khalili. Lá sempre tem um nativo à espreita de um viajante desavisado. Ficam ali, feito águias a observar a massa humana indo e vindo. Se reconhecem um idioma familiar é tiro e queda. Armam a arapuca e partem pra cima. Quando você percebe já está seguindo o maluco pelos becos mais imundos mercado afora. Mohammed Hola – o “sobrenome” veio da sua habilidade em falar castelhano – me fisgou e mostrou onde comprar tempero barato, prata e ouro, pagou um café turco numa pocilga imunda, mas a única aberta e vendendo bebidas durante o periodo do Ramadan, e prometeu um giro na parte antiga do bazaar na próxima vez que eu voltar. De fato comprovou que os precos das especiarias podem variar absurdamente. Paguei 1 €/grama no alcafrao in natura no comparsa por ele indicado. Depois fomos a uma loja onde os guias brasileiros levam os trouxas. Era cinco vezes mais caro! Acho que tava tudo armado com este outro vendedor, mas a encenacao foi bem feita.

Chegamos a uma fábrica de jóias em prata e ouro. Ele fez de tudo para me convencer a comprar um pingente para o Gabriel. De fato essa era mesmo minha intencao, mas fingi desinteresse só pra testar suas habilidades. Mohammed pesava a jóia e fazia calculos do preco em libra egípcia e depois em dólar. Adicionava um pingente e pesava novamente repetindo os calculos. Deu a idéia de cortar o cordao para o pescoso encurtando-o para uma crianca fazendo uma pulserinha com a sobra. E pesa de novo, adiciona uma argolinha, diz que na rua é mais caro e isso e aquilo. Metralhava argumentos e gestos como um artista da fina arte de negociar. Sao mestres em criar a demanda e o desejo onde nao existe nada. Potencializam ao máximo a necessidade do cliente adquirir o produto e quando percebem que a isca foi mordida e nao tem mais volta se dao por satisfeitos. Ele ganhou a comissao da loja, nao sem antes abrir uma refresco pra mim “por conta da casa” e mostrar a diferenca de 0.65g em ouro que o dono da loja deixara passar.

Me levou novamente até a praca onde Magdy me esperava no taxi e pediu para que eu pagasse pelos seus servicos antes de chegar até o taxi. Depois percebi que ele queria apenas ganhar tempo durante o trajeto pra reclamar do valor. Nao importava o que eu oferecesse, ele sempre reclamaria que era injusto e pouco querendo mais. Disse ter criancas e precisar ir ao Alto Egito após o Ramadan com a mulher, crista, e o filho.

No final dei mais 5 € e nem assim ele ficou totalmente feliz. Sao uns artistas da venda e negociacao esses egípcios.

Sunday, May 11, 2014

Gabriel

Meerbusch (gosto do quentinho da mamae)
Ainda nao sei falar, ler ou escrever. Mal consigo enxergar, mas escuto tudo. Aqui é escuro e sinto minhas maozinhas. Às vezes pego meus pezinhos e mordo um dedao. Me enrolo todo com essa cordinha engracada que deve ser muito importante. Se nao fosse, nao estaria aqui.
 
O escuro fica claro de vez em quando. Na verdade, vermelho. Sinto ondas de calor quando alguma coisa encosta na minha casinha. Esse calorzinho se mexe de um lado para o outro. Fica parado ali, no alto. Dou uns chutinhos pra avisar que estou aqui e ele muda de lugar. Depois some.
 
Meus ouvidos ainda nao estao totalmente desenvolvidos, mas sei bem quando uma onda sonora me satisfaz. Tem uma música complexa, com vários sons ao mesmo tempo, que sempre me acalma. Acho que é Mozart. Ainda saberei a diferenca entre ele Beethoven e Bach, mas por enquanto ele é suficiente.
 
Outro tipo de onda me faz feliz. É aquela dos meninos de Liverpool. Comeco a me mexer com os ombros de um lado para o outro quando escuto. Ouvi tantas vezes minha mamae falar o nome que nao esqueco mais. Beatles! Outro dia ficamos parados algum tempo diante de uma luz forte. As ondas sonoras eram as mesmas de outros dias. Escutei a palavra Antology algumas vezes. Pelo visto eles sao bons no que fazem.
 
Através dessa cordinha engracada consigo saber se é de manha, hora do almoco, lanche da tarde ou noite. Meu ritmo de dormidas já está bem estabelecido. Me desperto às 7:30 da manha ouvindo que sou um lindo fofinho. Logo após um gostoso banho e várias ondas de calor na minha casinha recebo meu precioso alimento pela cordinha. Minha mamae ficava sentada durante algumas horas. Às vezes falava, outras ficava em silêncio, concentrada. A cordinha me chamava e via mais comida.
 
Se o gosto é salgado - já sei a diferenca pra doce, mas nao conheco amargo ou azedo - é por que chegou a hora do almoco. Mamae se deita pra descansar depois dessa hora. Aproveito pra tirar um cochilo também. Ela volta a falar bastante, depois fica quieta de novo. Chega o leitinho da tarde e um pouco mais tarde a temperatura sobe na minha casinha. Escuto um som engracado. Parece água, mas é muita. As ondinhas de calor voltam a aparecer trazendo uma sensacao relaxante. Mamae se deita novamente e pouco tempo depois fica tudo preto e silencioso. Antes disso, a voz grave do papai vem me dar boa noite. Mamae canta um pouco dizendo que me ama e dorme. Fico esperando alguma coisa acontecer, mas pego rapidinho no sono. Depois comeca tudo de novo.
 
Quando a voz é aguda, sei que vem de cima. Mamae traz um carinho que me faz sorrir e protege. Sempre me acalmo com essa voz. De vez em quando as ondas sonoras sao graves, muitas vezes em volume mais alto. É o papai! Ele é engracado e mexe comigo toda vez. Disse que sou um gordinho vindo pra alegrar ainda mais a Vida deles.
 
Fui programado pra ficar nessa casinha por 40 semanas, mas querem que eu saia antes. Me disseram pra sair no dia 13 de Maio e cumprirei à risca o programado. Como sou um bitelinho pontual, já peso 3,7 kilos, vou poupar minha mamae do sofrimento e stress de um parto normal. Semana que vem um cara de branco vai me tirar daqui. Vou sair e respirar, agarrar o corpo da mamae e ganhar um beijo do papai. Depois é só alegria!
 
Alguns dias depois vao me levar pra casa. Vou estranhar o tamanho da minha nova casinha. A quantidade de estimulos, a temperatura, a comida, que agora virá pela boca, o tanto de curiosos me olhando, a claridade do dia e a escuridao da noite. Mas tenho certeza que as ondas sonoras manterao o bom nível, assim como a comida.
 
Como sei de todo o carinho e amor que me espera, e da seguranca de ser cuidado pela mamae e por papai, fico tranquilo.
 
Estou quase chegando. Sejam pacientes. Falta só mais um pouquinho.
 
Chutinhos na costela,
Gabriel

Düsseldorf​er Marathon

Meerbusch (um green sempre desce bem!)
 
 
Quando Pheidippides (ou Fidipedes) correu os 233 km de Atenas até Esparta, em dois dias, para pedir ajuda aos atenienses para derrotar os persas, nao sabia que estaria criando uma modalidade esportiva que hoje em dia movimenta a Vida de milhares de pessoas. Os atenienses se negaram a ajudar antes do fim do Festival de Artemis que ocorria na ocasiao. Fidipedes correu de volta os mesmos 233 km trazendo a péssima notícia. Foi entao que os comandantes da capital grega decidiram fazer um ataque surpresa ao acampamento dos persas, localizado a exatos 40 km dali, no vale de Maratona. Com um preparo físico invejável, mesmo após percorrer a distância e sendo minoria, os atenienses venceram a batalha.
 
 
Nos primeiros jogos olímpicos da era moderna, em 1896 na mesma Atenas, Fidipedes foi homenageado com a criacao de uma prova de longa distância com 40 km ganhando o nome de Maratona. Por obra e graca da realeza britânica, quem mais, a distância original foi alterada na Olimpíada de 1908 na Inglaterra. A organizacao da prova aumentou o percurso em 2.195 metros para que a família real pudesse acompanhar a largada da prova sem ter que sair do palácio de Windsor. E assim tudo comecou.
 
 
Sempre dei minhas corridinhas por aí, mas o máximo que havia corrido até entao foram os 18 km da Volta da Lagoa da Pampulha em 2003. Isso foi uma semana depois de voltar dos meus dois primeiros meses pela Europa onde bebi literalmente todos os dias. Acabei terminando a volta esbaforido em quase duas horas. Agora a distância seria mais que o dobro. E a identidade acusava 11 anos a mais, nao só de Vida como também de golo.
 
 
Minha "preparacao" comecou em janeiro deste ano, mas logo foi interrompida. Peguei uma gripe braba e minha mae chegou para as comemoracoes do meu aniversário, 29 de janeiro. Fiquei um mês sem fazer exercício físico. Meu personal trainer à distância e fisioterapeuta do Galo nas horas vagas, Bebeto, ia me passando os treinos semanais com distância e ritmo. Antes disso, pediu que eu fizesse alguns testes para descobrir meu limiar anaeróbico. Entao descoberto, partimos pras esteiras e ruas da Vida.
 
 
Sempre fui um mal aluno e disciplina nao é o meu forte. Nao consegui cumprir um único programa semanal, excecao feita as duas últimas quando a corda estava no pescoco. Fiz ainda pelo menos três viagens que impossibilitaram um avanco mínimo no treinamento, tanto em termos de distância percorrida como em velocidade.
 
 
Duas semanas antes o Bebeto me pede pra chamà-lo no skype. Com o semblante visivelmente preocupado comecou dizendo pra eu correr sem pensar no tempo. Pra ir me divertindo nas ruas até onde pudesse. Que se conseguisse completar a prova seria em mais de cinco horas, talvez seis. Disse que a fadiga muscular seria tao devastadora que impediria meus movimentos mecânicos básicos. Passou as duas últimas semanas de treino, que segui à risca finalmente, dicas de alimentacao na semana antes da prova, na véspera, café da manha e após a bendita. Pediu pra mantê-lo informado e qualquer coisa estaria a disposicao.
 
 
Pois bem, a distância máxima que havia corrido nos treinamentos havia sido 26 km. Nessas duas semanas antes da prova fiz dois tiros longos de 15 km e alguns dias depois outro de 20 km mantendo firmemente o ritmo de 10 km/h. Seria loucura tentar o mesmo na maratona. Bebeto disse pra segurar ao máximo no início e tentar manter entre 9 e 9,5 km/h. Comer tudo que me oferecessem e sempre beber água nos pontos de hidratacao.
 
 
Mal dormi a noite anterior, sábado passado. A expectativa antes da prova e a adrenalina só aumentavam. Fiz tudo direitinho, alimentacao, evitei álcool e carnes no churrasco de despedida do Alfredo e Raissa no dia anterior, dormi cedo e acordei mais cedo ainda pra tomar o desjejum programado. Já estava tudo preparado na véspera: tênis com meias adrede preparadas, short estilo ciclista com o bolso traseiro lotado de gel carboidrato, o número 4914 escolhido a dedo (49 da casa onde moramos e 14 o nosso da sorte) já pregado na camisa da Choke, multinacional fabricante de kimonos para jiu jitsu e artigos esportivos, a roupa seca na sacola da organizacao pra me trocar no final.


Amanheceu e vi as ruas molhadas e frias, nada convidativas. Pelo contrário, seria muito mas fácil voltar a dormir ali no quentinho e escurinho agarrado com Ela e Gabriel pra esquecer aquela maluquice. Perderia a grana da inscricao e pronto. Mas fiz questao de avisar a deus e o mundo no dia anterior via whatsapp sobre o evento. Já era. A maioria duvidou ou comecou a rezar pra eu chegar vivo no final. Uns poucos desejaram sorte e acreditaram em mim. Dois amigos que já correram maratona, Quinho e Nadinho, deram dicas valiosas. A principal veio do Nadinho, futuro CEO da AB Inbev, contando que no KM 30 uns ursos de 300 kg pulam nas costas dos corredores e seríamos obrigados a levá-los até o final.
 
 
Estacionei o carro em Oberkassel já que o centro estaria bloqueado. Peguei o metrô rumo a Tonhalle e no ponto bati papo com um, pra mim, quase profissional. O cara ia correr sua 16a maratona! Comecei a me alongar, 45 min antes da largada, e ele disse que de nada adiantaria a nao ser pra reduzir a tensao. Recomendou me esticar 15 min antes, no máximo. Deixei a sacola da organizacao no Garderobe, passei estrategicamente na casinha pra aliviar o peso e a tensao e fui chegando perto da largada. Nem vi os atletas top, geralmente quenianos. Os caras sao ETs que correm a 21 km/h de média. O vencedor terminou a prova em 2h e 8 min, um absurdo. Acho que nem de bicicleta consigo manter esse ritmo.
 
 
Sozinho e deus precisava de um golo d'água antes de partir. Vi uma garrafa ali pela metade, no canto, esquecida, e nao tive dúvidas. Às 9h em ponto foi dada a largada. A turma do gargarejo veio logo em seguida. A grande maioria corria num ritmo mais rápido que o meu. Deixo todos passar, cordialmente, me lembrando de segurar a onda no início. Afinal, nao estava apostando corrida com ninguém. A nao ser comigo mesmo. Meus objetivos eram: 1° terminar a prova e 2° completar em menos de 5 horas.
 
 
Durante a corrida alguns corredores-personagens se destacam dos demais. Aquele negao patola com um boné e uma Go Pro acoplada nele. Estava de amarelo e preto. Seria torcedor do Borussia Dortmund?! Por que se submetia àquela extenuante prova?! Alguma promessa?! Ou aposta?! Ele pigarreava muito logo no início, antes do KM 10. Até ali foi tudo muito bem e tranquilo. Apenas curticao, reparando nas pessoas e a cidade ao redor. De uma certa forma uma maratona deixa a cidade a sua disposicao. Exclusiva, sem trânsito, para que as ruas sejam percorridas à moda antiga. Tudo parado pra te ver passar. Com o nome escrito abaixo do número colado na camisa tornei-me uma celebridade por algumas horas. "Pedro, weiter, weiter!!!", algo como Pedro, continue, continue. Era o mantra da multidao quando eu passava. Sempre agradecia a todos que me incentivavam. Vez ou outra apareciam umas criancas com as maozinhas levantadas esperando você passar e bater fazendo high five.

 
No KM 14, o primeiro terco da prova, minhas pernas já arriavam. No posto de abastecimento seguinte caminhei e bebi a água com calma. Logo depois, um isotônico. E bananas! Nao sei se somos todos macacos, mas me tornei um chipanzé nessas quase cinco horas. Daniel Alves deve ter sido maratonista antes de jogador de futebol. Passei por baixo da ponte de Oberkassel pensando nao na distância que faltava, mas sim na que já tinha corrido. O negao ariete de amarelo ficara pra trás com sua Go Pro gravando pigarros ofegantes.
 
 
Correr a maratona foi a forma que encontrei de me solidarizar com a gravidez dEla. Como se eu tivesse que sofrer ao longo daqueles 42,2 km parindo no final minhas expectativas, dúvidas e falta de disciplina. E, quem sabe, uma merecida medalha. Mas o verdadeiro motivo era outro. No final vocês saberao.
 
 
Ali no KM 21, metade da prova, coincidentemente ao lado do consultório da ginecologista que tao bem nos atende, pensei: acabou a subida, agora é só descer a montanha! Naquele instante amarraram duas bolas daquelas de guindaste de demolicao em cada tornozelo. Os incentivos continuaram. Nunca ouvi tanta gente gritando Pedro, Pedro, Pedro! A cada caminhada bebendo água e nova arrancada comendo banana as perninhas de sabiá doíam cada vez mais. Cruzei a barreira mágica do KM 26, meu recorde pessoal até entao, e nada senti. Achei que entraria numa nova dimensao, veria anjos com harpas flutuando ao meu redor, mas nada disso ocorreu. No KM 28, com o segundo terco da corrida completo, me animei. Mantinha o lap pace em menos de 7 min por km. Faltava um terco!
 
 
Passei na esquina da casa de Floriano Peixoto e segui firme rumo ao Max Planck. Me lembrei das tantas vezes que ali cheguei pela manha de bike para mais um dia de cientista louco. Durante o doutorado foram várias as vezes em que nao via a luz no fim do túnel e queria jogar tudo pro alto. Mas nao sei por que tenho uma perseveranca nata que nao me deixa desistir de nada. Quase uma teimosia genética. Agradeco sempre a ela por tudo que fiz até hoje. Virei a esquina e avistei o fatídico KM 30. Os famigerados ursos estavam ali, atrás dos postes. Todos vestidos com as cores da BMW. Faziam propaganda de lancamento de um carrinho elétrico. Cada corredor que passava recebia um desses nas costas pesando 600 kg cada. Vamos em frente.
 
 
Vislumbrava o fim da prova. Era voltar pro centro, dar um rolé no Hafen e cruzar a linha de chegada. Os kilômetros demoravam cada vez mais a aparecer. Comecei a sentir dificuldades em respirar. Passando pelo Hofgarten os gritos de PEDRO, PEDRO, PEDRO ficaram ensurdesedores. Com um braco levantado agradecia, com o outro tampava um dos ouvidos evitando a surdez. Rasgamos a Immermannstraße e me lembrei que passaríamos em frente a Mövenpick. Roteiro melhor, impossível. Era como se visitasse todos os lugares que tanto frequentei ao longo desses 8 tantos anos.
 
 
Avistei o KM 35 dessa vez pensando nos sete restantes. Um japinha de azul seguia no meu ritmo. Às vezes mais rápido, outras ficando pra trás bebendo água. Acho que o ultrapassei no final. Já no Hafen o safado do Henrique, que corria a parte final do revezamento - míseros 9,3 km - me viu e gritou "Weiter Pedro, weiter." Xinguei o safado e voltei a me concentrar. Os incentivos da galera eram tao intensos e sinceros que o cansaco sumia e as pernas corriam sozinhas. Achava que teria problemas em me manter concentrado durante tanto tempo, mas tem sempre alguém ao seu lado te lembrando do objetivo final. Vi vários casais de 40, 50 e até 60 anos correndo juntos. Grupos de corrida batendo papo enquanto as pernas trabalhavam. Amigos contando casos e as distâncias passando. Uma festa!
 
 
Quando vi a placa do KM 40 foi como se tivesse vendo Moisés dividindo o mar Vermelho em dois. Ali, justamente naquele ponto, amarraram na minha cintura uma corrente com âncora de navio na ponta. E eu achando que nada mais haveria de acontecer. Serviram coca-cola no final, glicose na veia. Bebi os últimos goles antes da glória ali na Königsalle e segui rumo ao sprint final. Que no meu caso foi no mesmo ritmo capenga de sempre. Às vezes olhava pra trás conferindo pra ver se nao era o último! Hahaha.
 
 
Avistei o rio e vi a linha de chegada. PEDRO, PEDRO, PEDRO!!! Consegui, sobrevivi e venci a desconfianca que tinha de mim mesmo. Sensacao única que fez valer a pena cada passo dado desde a largada. Agora era chegar até a área de descanso e tomar uma bela cerveja. Dizem que é das melhores coisas pra se recuperar após as corridas. Acho que sempre soube disso, só faltava comecar a correr antes de tomar tanto golo.
 
 
Peguei minhas coisas e segui até a Tonhalle com um sorriso débil no rosto. Tomei dois bondes errados até chegar no carro. Achei que nao conseguiria dirigir, mas segui tranquilo pra casa da Rê e Albert. Ela estava lá me esperando, assim como meu amigo com um macarrao a bolonhesa e uma pale ale. Nao ia comer sem antes tomar um banho, dos melhores que já tomei na Vida. A maioria chegou a duvidar de mim. Nao recomendo duvidar de mim. Vocês vao se dar mal na maioria das vezes.
 
 
Querem saber o verdadeiro motivo de correr essa maratona: me despedir de Düsseldorf. Foi a forma que encontrei de homenagear a cidade percorrendo os vários lugares onde frequentei. A cidade parada, a minha disposicao, com muita gente gritando meu nome.
 
 
Vamos voltar pra Viena. Mas isso é uma outra estória.